O surgimento dos governos pós-neoliberais
Ao longo das três primeiras décadas do século XXI, o continente foi se caracterizando como o epicentro da luta contra o neoliberalismo
Quando o capitalismo aderiu ao modelo neoliberal, inaugurou uma nova época da sua história, instalou-se na esquerda o debate sobre qual tipo de projeto se deveria adotar para superar o neoliberalismo. Surgiram correntes que, apoiadas em análises puramente teóricas, consideravam que, como o neoliberalismo busca realizar da forma mais radical o projeto histórico do capitalismo de mercantilização geral, a alternativa só poderia vir de um projeto socialista.
Essa visão não levava em conta que o neoliberalismo surgiu e se impôs no bojo de um processo muito mais amplo, que transformou as relações de poder no mundo de forma historicamente regressiva. Nesse processo, fatores essenciais para a luta anticapitalista tinham sofrido duros reveses.
As condições subjetivas e objetivas sofreram retrocessos de proporções históricas. O fim da URSS trouxe consigo desmoralização da economia centralizada, do papel do Estado na economia, do papel da política, dos partidos, dos governos, das soluções coletivas e, acima de tudo, do socialismo. Ao mesmo tempo, o capitalismo ganhou novo vigor sob o ímpeto do modelo neoliberal, projetando uma imagem de superação do socialismo e dos modelos de planejamento da economia e da regulação dos mercados.
Em paralelo, outro elemento essencial da luta anticapitalista, o movimento operário, sofreu igualmente os efeitos dessas transformações estruturais no capitalismo e teve seu perfil muito rebaixado. Acentuou-se a tendência a diminuir seu contingente, enquanto foram perdendo importância os sindicatos, com a intensificação do processo de sindicalização.
Contemporaneamente foi se constituindo, na América Latina, um grupo de governos eleitos na rejeição ao neoliberalismo, no fracasso dos governos que haviam aplicado esse modelo em vários países do continente. O cenário latino-americano mudava, de forma radical, com a maior parte dos governos passando de modelos neoliberais e políticas antineoliberais. Depois de ter vivido uma última década do século passado com predomínio generalizado do neoliberalismo, como reação, se passou, na primeira década deste século, a uma maioria clara de governos antineoliberais.
Ao longo das três primeiras décadas do século XXI, o continente foi se caracterizando como o epicentro da luta contra o neoliberalismo. Atualmente, dois dos três mais importantes países latino-americanos – Brasil e México –, mais Colômbia, Venezuela, Uruguai, Honduras, defendem posições antineoliberais.
A Argentina de Javier Milei e, agora, provavelmente, deve ter a companhia do Chile, como polo neoliberal na América Latina. A polarização se tornará mais aguda, conforme a Argentina sairá do isolamento que a caracteriza, quando só tinha aliados fora da América Latina: os Estados Unidos e Israel.
A provável vitória de um candidato de extrema direita no Chile levará o continente a um cenário novo, em que as polêmicas ideológicas e os confrontos políticos entre os dois polos dominarão o cenário político e o da luta de ideias.