Análise

Argentina entre o colapso e a blindagem geopolítica - Por Maria Luiza Falcão Silva

Javier Milei não governa como um presidente convencional. Governa como um performer político, um influencer de extrema direita que transformou a crise nacional em espetáculo permanente

Escrito en Opinião el
Maria Luiza Falcão Silva é economista com mestrado em Economia pela University of Wisconsin-Madison e doutorado em Economia pela Heriot Watt - Escócia. É professora aposentada da Universidade de Brasília e foi assessora da Secretaria do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República. Seus trabalhos são voltados para as áreas de Economia Internacional, Economia Monetária e Financeira e Desenvolvimento Econômico . É membro da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia (Abed).
Argentina entre o colapso e a blindagem geopolítica - Por Maria Luiza Falcão Silva
Javier Milei. Luis Robayo / AFP

A Argentina vive, sob Javier Milei, a experiência neoliberal mais radical do século XXI no continente. É um governo que combina austeridade suicida, destruição institucional, alinhamento absoluto a Donald Trump e uma guerra cultural permanente. Em qualquer outro momento da história argentina, a crise atual teria derrubado presidentes. Mas Milei segue forte. Por quê? O que o sustenta? E o que explica a derrota da esquerda — mesmo com o empobrecimento acelerado do país? Este artigo se propõe a examinar o fenômeno Milei em toda a sua complexidade econômica, social e geopolítica.

O experimento Milei: Estado mínimo, ajuste máximo

Javier Milei não governa como um presidente convencional. Governa como um performer político, um influencer de extrema direita que transformou a crise nacional em espetáculo permanente. Seu programa não é simplesmente um ajuste econômico: é um projeto ideológico de destruição acelerada do Estado argentino, acompanhado de uma guerra cultural contínua e calculada.

A austeridade é de magnitude inédita. O governo promove cortes draconianos em universidades, ciência, educação básica, programas sociais, aposentadorias e subsídios essenciais para o custo de vida. Obras públicas foram praticamente paralisadas. Empresas estatais estratégicas enfrentam processos de desmonte. Tudo isso com aplauso explícito do Fundo Monetário Internacional (FMI), que trata Milei como o “aluno-modelo”, ainda que os impactos sociais rivalizem com os piores momentos de 2001.

A guerra cultural é o outro pilar do governo. Milei ataca jornalistas, governadores, sindicatos, artistas, universidades, movimentos sociais e até países aliados — como Brasil, Espanha e China. A retórica repetidamente agressiva segue a cartilha benonista e trumpista: criar inimigos para esconder a realidade econômica. Trata-se de uma estratégia de sobrevivência: transformar a dor social em batalha moral.

Por que Milei se sustenta? Os pilares invisíveis do seu poder

A grande pergunta que analistas fazem, dentro e fora da Argentina, é evidente: como Milei permanece politicamente de pé diante de uma crise social que seria explosiva em qualquer outro país?

A resposta envolve cinco fatores centrais.

a) O antiperonismo como identidade política

Existe na Argentina um setor consolidado, historicamente enraizado, que considera o peronismo não apenas um adversário político, mas um inimigo existencial. Para esse grupo, Milei é visto como a vingança histórica contra décadas de governos que identificam — corretamente ou não — como responsáveis pela decadência econômica.

Esse antiperonismo estrutural é emocional, visceral e funciona como blindagem automática: pouco importa que Milei ataque seus salários; importa que ataque seus inimigos.

b) A esperança irracional do “amanhã melhor”

Uma parcela significativa da população está disposta a tolerar sofrimento extremo sob a crença de que “o pior já passou” e que o ajuste abrirá caminho para um futuro de crescimento. Trata-se de esperança — mas também de negação psicológica diante do empobrecimento.

É o mesmo mecanismo que sustentou Menem nos anos 1990 e que hoje encontra eco no discurso tecnocrático do FMI.

c) A blindagem externa: EUA + FMI

Milei só está de pé porque Estados Unidos (EUA) e FMI o blindam.

Washington o considera seu aliado ideológico preferencial na América do Sul — um contraexemplo do presidente brasileiro Lula e um corpo avançado da extrema direita hemisférica.

O FMI, por sua vez, flexibiliza metas, libera recursos, ajusta métricas e demonstra uma tolerância inédita para um país em recessão profunda. Essa blindagem é geopolítica, não econômica. Sem ela, o governo já teria implodido.

Apesar da narrativa oficial celebrar a queda recente da inflação — que de fato desacelerou, mas às custas de um choque recessivo brutal, forte repressão à demanda, cortes de subsídios e atraso tarifário insustentável — é preciso lembrar que essa aparente “estabilização” repousa sobre bases extremamente frágeis. A Argentina hoje depende de um colchão de financiamento externo que não existiria sem o Support Assistance Package (SAP) de US$ 20 bilhões articulado pelos Estados Unidos, um pacote político-financeiro que precedeu a eleição de Milei e moldou diretamente o ambiente macroeconômico argentino. Esse apoio extraordinário — que não foi oferecido a nenhum governo progressista na última década — garantiu dólares, previsibilidade temporária e blindagem diplomática ao experimento neoliberal. Em outras palavras, a queda da inflação não é o resultado de uma “vitória da liberdade”, mas da maior intervenção geopolítica norte-americana na economia argentina desde a ditadura: um gesto calculado para viabilizar Milei e consolidar o laboratório extremo do trumpismo no Cone Sul.

d) Donald Trump como fiador político

A relação entre Trump e Milei é uma simbiose estratégica.
Para Trump, Milei é peça-chave de sua ofensiva geopolítica: um laboratório neoliberal na América Latina, uma vitrine ideológica e um aliado disposto a confrontar China, progressistas e instituições multilaterais. Para Milei, Trump é garantia de sobrevivência — acesso privilegiado ao poder real em Washington, mesmo antes de sua eventual volta à Casa Branca.

A visita humilhantemente submissa de Milei a Mar-a-Lago foi muito mais que cerimônia: foi juramento de fidelidade.

e) A fragmentação da oposição

O peronismo atravessa uma crise de identidade e lideranças. Sofre com divisões internas, ressentimentos, disputas judiciais e incertezas estratégicas. A esquerda ampliada está sem narrativa mobilizadora — e sem figuras capazes de organizar o descontentamento.

Resultado: Milei mantém o monopólio do discurso sobre o futuro.

Quem controla a narrativa controla o país.

Trump e Milei: O eixo ideológico da extrema direita nas Américas

O alinhamento entre Milei e Trump vai além da diplomacia. É o primeiro grande experimento político do trumpismo fora dos Estados Unidos. Ambos compartilham:

-desprezo por instituições democráticas,

-demonização da imprensa,

-culto à personalidade,

-hostilidade à China,

-retórica anticomunista delirante,

-protagonismo em redes sociais,

-desprezo por evidências científicas.

Trump usa Milei como vitrine hemisférica: um suposto “modelo de coragem” contra o Estado, sindicatos e políticas redistributivas. Milei, por sua vez, usa Trump como selo de legitimidade internacional.

É uma nova versão de dependência política: a dependência ideológica.

A derrota da esquerda: Crise, exaustão e falha de narrativa

A esquerda argentina sofreu uma derrota dolorosa na eleição — e em condições profundamente adversas para o povo. Esse paradoxo exige explicação articulada.

Primeiro, a inflação crônica corroeu a confiança pública nos governos progressistas. A memória recente de deterioração é forte — e disso Milei se aproveitou.

Segundo, a sociedade argentina estava politicamente exausta. Em momentos assim, discursos radicais de ruptura ganham espaço.

Terceiro, o campo progressista falhou em simbolizar esperança. A campanha que deveria representar futuro acabou parecendo defesa do passado.

Além disso, Milei dominou completamente as redes sociais: TikTok, Instagram e X impondo sua agenda por algoritmos e emoção — e não por dados. Contraditoriamente, a juventude, seduzida pelo antissistema, foi decisiva na vitória eleitoral do projeto mais antijuventude da história argentina.

 O que segura Milei? O tripé central do seu poder

A sustentabilidade política de Milei pode ser resumida em três pilares:

I. A narrativa. Milei transformou a crise real em duelo moral.
Seu discurso não é sobre inflação ou pobreza, mas sobre “casta” x “liberdade”.

II. O respaldo geopolítico. Com o apoio dos Estados Unidos e do FMI, Milei governa com imunidade financeira e diplomática.

III. A ausência de alternativa convincente. Enquanto a oposição não construir projetividade — e não reorganizar suas lideranças — Milei continuará capitalizando o caos.

O futuro: Riscos, limites e a força da sociedade argentina

O governo caminha para sua fase mais delicada. O ajuste fiscal é insustentável socialmente; a queda do consumo torna qualquer recuperação improvável; a recessão é profunda; os salários estão nos menores níveis em décadas. Conflitos com governadores ameaçam romper o equilíbrio institucional. A resistência sindical cresce.

Mas há um elemento que Milei não controla — e que não desapareceu.

A rebeldia histórica da sociedade argentina

Há, na Argentina, uma variável estrutural que escapa inteiramente à engenharia neoliberal: a vitalidade histórica de seu povo. A população argentina é das mais politizadas, escolarizadas e socialmente mobilizadas do continente. A Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), os sindicatos docentes, os bancários, os metalúrgicos, os movimentos territoriais e os organismos de direitos humanos já resistiram a ditaduras, hiperinflações e experimentos neoliberais tão violentos quanto o atual. Nada indica que essa sociedade aceitará a destruição de direitos como destino inevitável. A história argentina ensina que nenhum governo que governou contra o país real — contra trabalhadores, aposentados e jovens — se sustentou indefinidamente.

O horizonte político até 2027

O mandato de Milei termina em dezembro de 2027. Mas nada sugere que sua coalizão social seja sólida o suficiente para resistir a três anos de recessão, conflito permanente e deterioração acelerada do bem-estar. À medida que o tecido social se reorganiza, os sindicatos se rearticulam e o movimento estudantil retorna às ruas, abre-se um novo horizonte político. A Argentina é um país que já interrompeu ciclos autodestrutivos: foi assim em 1983, foi assim em 2001 — e pode ser assim novamente.

A reconstrução possível

A crise atual, por mais devastadora que seja, também anuncia a possibilidade de um novo ciclo. A Argentina não é uma sociedade apática: é uma sociedade que reage, que se organiza e que nunca aceitou passivamente a lógica da destruição neoliberal. Quando reagir — e reagirá — abrirá caminho para um novo projeto democrático e social, capaz de reatar com sua identidade, seu espírito coletivo e sua história de conquistas.

*Este artigo foi anteriormente publicado no Terapia Política em 19/11/2025.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.

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