Campinas

Ele ganha quase R$ 20 mil. Ela ganha mil. E quem é humilhada é a trabalhadora

Quem custa caro para a cidade não é a mulher que ganha mil reais. Quem custa caro é o vereador que usa o cargo para violentar mulheres

Escrito en Opinião el
Thaís Cremasco, pós-graduada em direito do trabalho e previdenciário, conselheira da OAB/SP, é representante da delegação brasileira na OIT (Organização Internacional do Trabalho), presidente da Comissão de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Advocacia Trabalhista (ABRAT) e cofundadora do Coletivo Mulheres pela Justiça.
Ele ganha quase R$ 20 mil. Ela ganha mil. E quem é humilhada é a trabalhadora
Vereador humilha trabalhadora. Reprodução de vídeo

Um vereador que recebe quase vinte mil reais por mês, sustentado pelo dinheiro do povo de Campinas, sentiu-se no direito de humilhar uma trabalhadora dizendo que ela “não ganha nem mil reais” e usando um insulto lesbofóbico para se referir a ela. A cena sintetiza tudo o que há de mais perverso na estrutura política brasileira: um homem branco, poderoso, pago pelo Estado, exercendo violência simbólica contra uma mulher que estava simplesmente trabalhando.

O problema é ainda maior quando lembramos que este não é o único episódio envolvendo violência contra mulheres praticada por ele. Sua própria namorada registrou boletim de ocorrência relatando agressões físicas, verbais e psicológicas e até ameaça de morte. Essa acumulação de práticas misóginas revela um padrão evidente: a violência que ele pratica contra mulheres não é exceção, é método.

A pergunta que não quer calar é simples: é para isso que pagamos salário, gabinete, carro oficial e toda a estrutura de um mandato? É para financiar humilhações públicas, agressões privadas e a perpetuação da misoginia institucional? É a mulher trabalhadora, que ele ridiculariza dizendo ganhar pouco, quem paga o salário dele. São as mulheres de Campinas que sustentam o homem que as ataca. É o povo que honra impostos enquanto recebe desprezo como retorno.

Enquanto ele desfere insultos contra uma porteira que ganha pouco, o salário dele, pago pelo povo, passa de dez vezes o valor do dela. Se existe algum salário que deveria ser questionado, certamente não é o da trabalhadora. Quem custa caro para a cidade não é a mulher que ganha mil reais. Quem custa caro é o vereador que usa o cargo para violentar mulheres.

A porteira estava trabalhando. Exercendo sua função. Em paz. Até ser humilhada publicamente por alguém que deveria representar a população. Essa mulher é uma entre milhões que não têm um minuto de paz em um país onde a misoginia é norma, não exceção. Onde mulheres são humilhadas por existir, sexualizadas por respirar, atacadas por homens que ocupam cadeiras políticas e se acham intocáveis.

Quando um vereador dirige insultos lesbofóbicos a uma trabalhadora, ele fere o decoro de forma grave. Quando denúncias de violência física e ameaça de morte aparecem contra o mesmo homem, fica evidente que não estamos falando de um deslize, mas de um padrão. Uma pessoa que usa o poder público para humilhar mulheres em público e para agredi-las em privado não honra o cargo que ocupa. Envergonha a cidade.

Decoro não é formalidade. Decoro é compromisso ético. Decoro é saber que o poder de fala e o poder político não podem ser convertidos em arma contra mulheres. Quando o parlamento tolera esse comportamento, o que se quebra não é apenas a liturgia do cargo. O que se quebra é a confiança no Estado como espaço seguro para as mulheres.

Mas há um elemento central que precisa ser dito. Cada vez que uma mulher denuncia, outra mulher encontra coragem para denunciar também. Cada vez que uma mulher se levanta, outras se reconhecem naquela força. A violência política de gênero só se mantém porque tenta nos isolar, nos fazer sentir pequenas, frágeis e sozinhas. Mas nós não estamos sozinhas.

Quando uma trabalhadora é humilhada por um vereador, todas nós somos atingidas. Quando uma mulher registra agressão, todas nós ouvimos o alerta. A resposta precisa vir da união. Mulheres se unem para sobreviver. Se unem para proteger umas às outras. Se unem porque sabem que a violência contra uma é a violência contra todas. E quando as mulheres se unem, não há mandato que silencie essa força.

A democracia não pode ser palco de agressões contra mulheres. O dinheiro público não pode financiar a violência. O povo de Campinas, em especial as mulheres que ele tanto desrespeitou, tem o direito de cobrar responsabilização. Tem o direito de exigir decoro. Tem o direito de dizer basta.

Porque uma cidade que tolera a violência de seus representantes não é uma cidade livre. E uma mulher que não tem paz no trabalho, em casa ou na política não vive em democracia plena. Unidas, fazemos o que eles temem: transformamos indignação em movimento, violência em pauta pública e vergonha alheia em força coletiva.

O Brasil misógino quer nos silenciar. Nós, mulheres, queremos nos unir. E quando mulheres se unem, a misoginia treme.

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