violão

André Geraissati, um presente do Brasil que o mundo acaba de perder

Violonista partiu aos 74 anos, nos deixando uma obra solo memorável, além de participações com artistas como Egberto Gismonti, Grupo D’alma entre outros

Escrito en Opinião el
Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.
André Geraissati, um presente do Brasil que o mundo acaba de perder
André Geraissati. Picasa/Divulgação

André Geraissati já era naquela época um mito da música. Havia visto ele tocar com Egberto Gismonti no Festival de Iacanga, em Águas Claras. Tinha também alguns discos em que ele participava, entre eles o fabuloso “Revivência”, da cantora, violonista e compositora Marlui Miranda, de 1983.

Além disso, já circulavam os lendários álbuns do Grupo D’alma, do qual ele era um dos fundadores. Um trio de virtuosos violonistas que se destacavam, e muito, naquela profícua enchente de produções independentes da época.

André tinha, enfim, um jeito de tocar violão espantosamente diferente de tudo o que havia visto e, sobretudo, ouvido até então.

Foi então que, lá em meados dos anos 90, num desses impulsos da vida, nossas esposas da época, que eram e são até hoje muito amigas, nos aproximaram. De repente, lá estávamos nós, eu e André Geraissati revezando pra levar os filhos na escola, passando festas juntos etc. Para mim – e confesso isso feito um menino tolo – foi meio como ter virado amigo do Chico Buarque ou do Paul McCartney.

André sempre foi um cara extremamente simples, afável, arguto e muito bem-humorado. A convivência com ele era sempre pra lá de divertida, fácil. Falávamos, é claro, quando estávamos a sós, de música. Gostava de contar como havia gravado este ou aquele álbum, o que havia dado errado, os golpes de sorte etc.

Tinha uma curiosidade enorme de entender como ele chegava àquele resultado no violão, a destreza com que usava as técnicas de duas mãos, como construía suas melodias. Ele não fazia nenhum segredo, mas tampouco conseguia explicar: “ah, aqui criei umas texturas, como se fosse um bordado, na ocasião pensava nisso ou naquilo”, e aqueles sons fluíam com uma facilidade desconcertante.

Tom Brasil

Foi pouco depois daquilo que ele criou o projeto Tom Brasil. Segundo descrevia, eram coleções de álbuns inéditos de músicos brasileiros para servirem de brindes a clientes do Banco do Brasil. Com tudo muito bem cuidado, as capas traziam obras de arte e nos álbuns, segundo uma exigência dele, teria que estar tudo aquilo que não interessava aos produtores dos músicos participantes. Ou seja, tudo o que não era comercial dentro de um universo quase nada comercial: a música instrumental brasileira.

Além dos discos, o projeto contou também com shows que circularam o Brasil com artistas como Egberto Gismonti, Hermeto Paschoal, Armandinho, Marco Pereira, Ulisses Rocha, Pau Brasil, Raphael Rabello, Wagner Tiso, Paulo Moura, o próprio André entre muitos outros. Era, enfim, a nata da música brasileira em estado bruto. Uma preciosidade.

Depois disso, ainda gravou alguns álbuns excelentes, fez shows esporádicos, mas foi, aos poucos, sumindo misteriosamente de cena.

Neste último 19 de novembro, leio com profunda tristeza uma postagem do seu filho Gabriel – aquele mesmo que eu levava pequenininho pra escola, e que também virou um grande músico – que André havia partido, com apenas 74 anos.

A despeito do choque pessoal, pensei imediatamente no patrimônio criativo que o Brasil e o mundo acabavam de perder. Uma obra orgânica enorme que se desdobrava em outras e se estendia para muito além dele próprio.

Tudo nele transpirava a música que fazia. Quando se apresentava era algo único: dedos, violão, música, corpo, acordes, respiração, sons. Tudo espantosamente indivisível.

Um enigma genial, enfim, que ainda há de ser entendido.

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