Francisco Fernandes Ladeira

Grande mídia em xeque: a emergência de novos imaginários geopolíticos na era digital

O público, diferentemente de outros contextos, já não é tão influenciado pelos discursos geopolíticos da grande mídia, fator que nos leva a pensar na emergência de um cenário informacional mais dinâmico e descentralizado

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Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Professor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Especialista em Jornalismo pela Faculdade Iguaçu (FI). Autor de quinze livros, entre eles "A ideologia dos noticiários internacionais" (Editora CRV).
Grande mídia em xeque: a emergência de novos imaginários geopolíticos na era digital
Jason Bolonski | Flickr

Há cerca de uma década, estudo imaginários geopolíticos, com ênfase em estudantes do ensino médio e professores de Geografia. No entanto, isso não me impediu de também observar as percepções do público em geral.

Conforme afirma o professor da Universidade de Cambridge, John Brookshire Thompson, a partir do conceito de “mundialidade mediada”, nossa compreensão de mundo, fora do alcance de nossa experiência pessoal, é expandida pelos textos e imagens presentes nos meios de comunicação de massa. Logo, é possível concluir que as diferentes mídias influenciam nossos imaginários geopolíticos.

No caso da chamada “grande mídia brasileira” – oligopólio que controla boa parte das informações que circulam pelo país –, os noticiários internacionais atendem aos interesses das potências imperialistas, principalmente dos Estados Unidos. Consequentemente, seus discursos geopolíticos são pautados por visões favoráveis às políticas externas das principais potências globais e, em contrapartida, apresentam representações negativas de nações e governos considerados hostis pelas narrativas imperialistas.

Em minhas primeiras pesquisas, concluí que os estudantes do ensino médio reproduziam esses discursos tendenciosos. Portanto, eles possuíam imaginários geopolíticos permeados pelas representações midiáticas. Era comum que associassem islamismo ao terrorismo, percebessem a Venezuela como um país em constante estado de caos ou compreendessem os antagonismos entre israelenses e palestinos como um “conflito religioso”.

Outros trabalhos chegaram a resultados semelhantes. No livro “Muito além do Jardim Botânico: um estudo sobre a audiência do Jornal Nacional da Globo entre trabalhadores”, Carlos Eduardo Lins da Silva concluiu que o principal noticiário da televisão brasileira não manipula automaticamente o proletariado. Ao contrário do que indica o senso comum, o público é capaz de ressignificar a mensagem midiática, de acordo com sua visão de mundo.

Mas Carlos Eduardo faz uma ressalva: quanto mais distante de um acontecimento está um indivíduo, maior a probabilidade de ele aderir ao discurso midiático. Ou seja, os noticiários internacionais, na ausência de visões alternativas, tendem a influenciar o que pensamos sobre outros povos e regiões do planeta. Em outros tempos, as construções narrativas da grande mídia a respeito dos diferentes acontecimentos globais, não raro, passavam para a posteridade como suas “versões oficiais”.

Por outro lado, à medida que ocorrem mudanças no ecossistema informacional, os imaginários geopolíticos tendem a se alterar. Como temos percebido no atual contexto, os grandes grupos de comunicação, apesar de ainda manterem sua força, têm enfrentado novos concorrentes discursivos: a imprensa progressista na internet e as redes sociais.

Ironicamente, essa realidade comunicacional se reflete em pesquisas de opinião realizadas por institutos de pesquisa ligados a esses mesmos grandes grupos de mídia.

Um estudo da Genial/Quaest, divulgado no último mês de agosto, apontou que, entre 2023 e 2025, os brasileiros passaram a ter visões mais positivas sobre a China (nação estigmatizada pela grande mídia) do que sobre Estados Unidos e Israel (tradicionalmente com visões positivas nos noticiários).

No período em questão, a imagem da China junto aos brasileiros passou de 34% para 49% de aprovação. Os Estados Unidos, que em 2023 apresentavam 56% de visões favoráveis, caíram para 44%. Israel teve uma queda de aprovação ainda maior: de 52% para 35%.

Elias Jabbour, um dos principais especialistas sobre as relações entre Brasil e China, considera esses números “impressionantes”, haja vista a intensa campanha negativa feita em relação ao governo socialista chinês por parte da imprensa brasileira. Em suas palavras: “A imagem que se tenta passar da China é de uma ditadura, de um país perigoso, de um país que pratica trabalho escravo. Nós passamos por uma lavagem cerebral diária, uma guerra semiótica contra a China muito grande no Brasil, então é impressionante essa pesquisa sobre a China”.

Ainda segundo Jabbour, apesar dessa campanha midiática negativa, a realidade dos fatos sobre a China tem chegado à população brasileira via internet. “A China é um país que não faz mal a ninguém, nunca invadiu nenhum país, não sanciona nenhum país; o que ela busca é fazer comércio, e cada país que tem a sua postura em relação a ela”, apontou.

Já a queda da aprovação dos Estados Unidos, em contrapartida, é mais complexa. A meu ver, trata-se de uma visão negativa mais relacionada ao seu presidente Donald Trump do que necessariamente ao país em si. Nesse ponto, há uma influência indireta dos discursos da grande mídia nos imaginários geopolíticos, ao demonizar Trump enquanto enaltece os Estados Unidos.

Nessa lógica personalista, os Estados Unidos não seriam uma potência inerentemente imperialista, uma ameaça à estabilidade global. Todos os problemas atuais ligados a Washington são obras exclusivas do inquilino de plantão da Casa Branca. Quando Trump deixar o poder, automaticamente, os Estados Unidos voltarão à “sua normalidade pacífica e não intervencionista”. Voltarão a ser “a maior democracia do planeta”, como gostam de replicar os articulistas colonizados da mídia hegemônica.

Por fim, a representação negativa de Israel é a mais fácil de se entender. Se, durante décadas, os grupos de comunicação ocidentais, detentores do monopólio da narrativa, ocultavam os crimes sionistas, atualmente, com as redes sociais, há o primeiro genocídio instagramável da história. Conforme pontua o jornalista iraquiano Jasim Al- Azzawi, desde 7 de outubro de 2023, a guerra de imagens eclipsou a guerra de armas. Dos hospitais destruídos na Faixa de Gaza aos bebês famintos, valas comuns e pais escavando escombros, cada imagem capturada por smartphones feriu mais profundamente que qualquer míssil. Esses registros, inegáveis e não filtrados, têm impacto maior que discursos oficiais. Pela primeira vez, Israel não consegue suprimi-los com propaganda. O que vemos não é mais o que o sionismo diz – é o que Gaza nos mostra.

Em suma, o público, diferentemente de outros contextos, já não é tão influenciado pelos discursos geopolíticos da grande mídia, fator que nos leva a pensar na emergência de um cenário informacional mais dinâmico e descentralizado, no qual as pessoas demonstram capacidade de acessar e mobilizar discursos divergentes daqueles tradicionalmente difundidos pelos meios de comunicação hegemônicos.

Diante desse contexto, será que, especificamente, os estudantes do ensino médio, mencionados no início deste texto, também não são mais tão impactados pela mídia em relação à construção de suas percepções geopolíticas? É essa resposta que busco na pesquisa que vou realizar no pós-doutorado, iniciado nesta semana, no Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) – campus Ouro Preto.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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