OPINIÃO

Intolerância religiosa nas escolas e o trauma infantil contra crianças de axé - Por Vitor Friary

No Brasil, perseguir religiões africanas não é “erro do presente”: é herança de um projeto histórico de desumanização

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Vitor Friary é psicólogo, Bàbáláwò e Doutorando em Estudos Africanos no Instituto Universitário de Lisboa. Mestre em Psicologia pela London Metropolitan University no Reino Unido, é autor de livros publicados no Brasil e no exterior, e fundador do Centro de Mindfulness no Brasil. Atua na interface entre saúde mental, práticas contemplativas, espiritualidade e cultura africana e afro-diaspórica, explorando os cruzamentos entre cuidado, ancestralidade e transformação social
Intolerância religiosa nas escolas e o trauma infantil contra crianças de axé - Por Vitor Friary

Era para ser apenas uma tarde comum de aula. Um desenho feito durante uma atividade escolar deveria ser motivo de orgulho, partilha, descoberta. Mas no Brasil, quando um desenho representa símbolos de religiões de matriz africana, ele pode se transformar em gatilho de violência.

Na semana passada, o Espaço de Desenvolvimento Infantil Professor Celso de Almeida Chaves, em Santa Cruz, zona oeste do Rio de Janeiro, recebeu denúncia de intolerância religiosa contra uma criança de terreiro. Em São Paulo, um outro caso ocorreu na EMEI Antônio Bento, no bairro do Caxingui, onde um pai chegou a acionar policiais armados dentro da escola porque sua filha de 4 anos desenhou símbolos associados aos orixás. Não são casos isolados. Cada vez que um episódio desses ganha manchete, ele escancara uma ferida: a liberdade religiosa de crianças negras e de matriz africana está sob ataque. E o sistema educativo, que deveria protegê-las, muitas vezes legitima a violência. A intolerância religiosa no ambiente escolar não é “discordância de crença”, não é “diferença de opinião”, muito menos “atrito cultural”. É violência simbólica, histórica e política. E, para as crianças, se torna um trauma para o resto da vida.

A escola é, para qualquer criança, um dos primeiros espaços de formação de identidade. É onde ela se percebe enquanto sujeito social. Onde ensaia e solidifica seus pertencimentos. Quando esse ambiente promove medo e vergonha pelo que a criança é, ela não apenas sofre bullying, ela sofre negação da própria identidade. No caso da EMEI Antônio Bento, a reação do pai que chamou a polícia devido ao desenho da filha é simbólica e cruel: a presença de agentes armados dentro do espaço escolar reforça um discurso de criminalização de símbolos associados às religiões afro-brasileiras. Quando uma criança vê seu desenho tratado como algo suspeito, proibido, perigoso, ela internaliza a ideia de que sua fé é indigna. A violência não está apenas no ato: está na mensagem.

Essa mensagem produz impacto emocional que pode acompanhar a criança por toda a vida. O racismo religioso escolar cria marcas que se manifestam em vergonha, ocultação da identidade religiosa, ansiedade social, medo de frequentar o terreiro, e até desejo de abandonar a fé. O trauma, aqui, quebra o elo entre a criança e sua comunidade espiritual, uma das mais importantes redes de apoio cultural e afetivo da população negra no Brasil.

No Brasil, perseguir religiões africanas não é “erro do presente”: é herança de um projeto histórico de desumanização. Desde o período colonial, práticas religiosas de matriz africana foram associadas a crime, feitiçaria, demonização e ideia de selvageria. A educação brasileira herdou e reproduziu essas violências.

O psiquiatra e filósofo martinicano Frantz Fanon, em Pele Negra, Máscaras Brancas (1952), explica como o racismo atua destruindo a autoestima e criando auto-ódio. Para Fanon, a violência simbólica não apenas oprime: ela convence o sujeito de que sua própria cultura é inferior. Quando pensamos esse conceito aplicado às religiões afro-brasileiras na infância, vemos seu efeito mais cruel: uma criança aprende a rejeitar a si mesma.

A perseguição à religiosidade afro, portanto, não atinge apenas crenças, atinge a imaginação, a afetividade, a memória e toda forma de existência da cultura negra. O trauma religioso é manifesta uma pedagogia de apagamento: ensina a negar a ancestralidade. 

A escola brasileira produz, hoje, uma contradição perigosa: ela deveria ensinar história afro-brasileira na teoria (como manda a Lei 10.639/03), mas na prática nega o direito de crianças manifestarem acessarem conteúdo educativo e cultural da história negra do Brasil. Isso revela que o problema não está apenas na intolerância religiosa, mas na incapacidade de reconhecer que o terreiro é também território cultural e educativo, tão formador quanto um museu ou uma biblioteca.

Ao tratar símbolos das religiões afro-brasileiras como ameaça, a escola não está apenas negando uma crença: está impedindo que essas crianças acessem sua própria herança cultural na maioria das vezes. Um desenho de Exu, um fio de conta de Ifá, uma música de Iemanjá não são práticas devocionais isoladas, mas expressões de um sistema cultural, filosófico, histórico e social que estruturou famílias durante séculos. Quando a escola criminaliza essas expressões, ela não está protegendo alunos de uma suposta “doutrinação”, mas reforçando um projeto de apagamento cultural que atravessa gerações.

Incluir o terreiro como expressão legítima de cultura, e não como risco moral, é compreender que essas crianças carregam, em seus corpos e memórias, patrimônio vivo do Brasil. A escola não precisa acolher a fé dessas crianças: precisa respeitar a cultura que elas representam. Quando não o faz, repete o gesto colonial que Fanon descreve: ensinar o sujeito a duvidar da própria história.

Quando a intolerância mira adultos, ela oprime. Quando mira crianças, ela censura seu futuro. Ao intimidar uma criança de terreiro, ela é impedida de desenvolver autoestima ligada à sua cultura, e sente vontade de se afastar de redes comunitárias que a protegem da violência social. Talvez essa seja a real intenção da postura do opressor, retirar o poder cultural da população negra.

Induzem crianças a ter medo da escola, medo de si mesmas, e são oprimidas a silenciar tradições que deveriam ser motivo de orgulho para elas. O trauma religioso infantil não é apenas um olhar psicológico sobre o tema nem  apenas uma crítica a uma pauta “moral”: é questão de saúde pública, de direitos humanos e de política educacional.

No Brasil, quando um menino ou menina de matriz africana silencia sua fé por medo, não estamos apenas ferindo uma criança. Estamos interrompendo a transmissão de saberes ancestrais que sobrevivem há séculos, apesar da escravidão, da polícia, das manchetes que perpetuam racismo e da própia escola. Quando o Estado falha em proteger essas crianças, ele falha em proteger o próprio Brasil que se diz celebrar a diversidade na teoria mas decepciona imensamente na prática.

O racismo religioso não se combate com neutralidade. Ele exige responsabilização institucional e compromisso ético com a infância. Enquanto uma criança de axé for tratada como ameaça, quem está em perigo não é ela, é toda uma cultura e identidade do país.

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