O alemão e o “seu” Jair - Por Justino Pereira
O Brasil que queremos ainda está longe de vir. E 2026 será (mais) uma batalha entre a civilização e a barbárie
Vamos começar na ordem inversa do título desta coluna. Comecemos pelo “seu Jair”, como o chamou Rita de Cássia, diretora-adjunta de monitoramento da PF, enquanto fazia a inspeção na tornozeleira toda estropiada, que ele tentou arrancar a golpes de soldador elétrico. "O senhor usou alguma coisa pra queimar isso aqui?", perguntou-lhe. "Meti um ferro quente”, ele parece responder, atropelando a pergunta. Mas não temos cem por cento de certeza de que foi isso mesmo o que disse, porque a sua dicção é muito, muito ruim. E complementa em seguida: "de solda". Sobre o motivo de tentar destruir a ferramenta de monitoramento 85916-5, “seu Jair”, disse que foi por "curiosidade" e que “não rompeu a pulseira, não.” A curiosidade bolsonariana depois virou “alucinação” medicamentos, durante a audiência de custódia feita no domingo passado.
Esse homem, que dirigiu o país por quatro anos nefastos, num momento mundial terrível, quando mais do que nunca um grande líder foi em vão necessário; aparentemente esse homem está saindo da cena política. Mas só saberemos se assim será, de fato, após o resultado da eleição presidencial do ano que vem. Até lá, e a depender do resultado das urnas, as suas crias políticas – Tarcísio, Zema, Ratinho e outros que ainda pularão nessa canoa – tentarão tirá-lo da cadeia. E a anistia do “seu” Jair, como o amor cantado por Paul Young, estará no ar.
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Vamos ao alemão. Trata-se, claro, do Primeiro-Ministro (Chanceler) Friedrich Merz, um ricaço que diz ser “socialmente conservador e economicamente liberal” – que milionário não o é, certo? - e dirige o país mais forte da Europa em coalizão com o SPD, partido social-democrata, amigo do PT.
O Chanceler, como todos sabemos, mexeu recentemente com os brios nacionais – pelo menos, mexeu com os brios dos brasileiros que não acham que Trump está certo ao tentar sufocar o país. Ele comentou numa entrevista a beleza estonteante dos cenários alemães – são lindos, de fato - e, ao fazê-lo, ressaltou a (suposta) feiura de Belém do Pará, cidade da qual, disse, seus compatriotas presentes à COP30 tiveram pressa de se afastar. Depois o ministro do Turismo da Alemanha deu uma aliviada, “passou um pano”. Mas a crítica foi cristalina: que cidade feia aquela, mein freund!
Merz foi muito descortês, claro. Afinal, desde que Hitler invadiu a Polônia em setembro de 1939, não cai bem a líderes alemães fazerem esse tipo de comentário grosseiro. Quem eles pensam que são? Porém... Diga-me com toda a sinceridade, do fundo de seu coração. Existe alguma metrópole brasileira, algum município com mais de 200 mil habitantes, digamos, cuja periferia e boa parte da região central da cidade não estejam muito feias e degradadas?
A feiura de nossas metrópoles, sua sujeira, esgotos não tratados à mostra, casebres inacabados pendurados à beira de rios e córregos poluídos; essa feiura é a cicatriz física, afligida e avivada diariamente por bilionários a quem só falta se gabar por serem uma elite indiferente a um dos sistemas sociais mais cruéis do planeta.
É essa feiura também que nos faz lembrar a todo instante: o Brasil que queremos ainda está longe de vir. E 2026 será (mais) uma batalha entre a civilização e a barbárie.
Até a próxima coluna.
**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.