Opinião

O alemão e o “seu” Jair - Por Justino Pereira

O Brasil que queremos ainda está longe de vir. E 2026 será (mais) uma batalha entre a civilização e a barbárie

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Jornalista e profissional de marketing político, tema sobre o qual fez mestrado. Foi coordenador de Publicidade da Prefeitura de São Paulo, secretário de Comunicação de Guarulhos e um dos hosts do podcast “Consultório Eleitoral do Dr. Campanha,” no ar por dois anos na Rádio Brasil Atual FM (os episódios apresentados podem ser ouvidos no Spotify). Autor do capítulo “Cinco coisas que você precisa saber para mobilizar seus apoiadores, desde a pré-campanha até o Dia D” do manual “Marketing Político no Brasil” editado pelo Clube Associativo dos Profissionais do Marketing Político (CAMP), principal associação do gênero do país. Foi também consultor associado da De Vengoechea & Associates, empresa norte-americana voltada ao mercado eleitoral latino.
O alemão e o “seu” Jair - Por Justino Pereira
RALF HIRSCHBERGER / AFP

Vamos começar na ordem inversa do título desta coluna. Comecemos pelo “seu Jair”, como o chamou Rita de Cássia, diretora-adjunta de monitoramento da PF, enquanto fazia a inspeção na tornozeleira toda estropiada, que ele tentou arrancar a golpes de soldador elétrico. "O senhor usou alguma coisa pra queimar isso aqui?", perguntou-lhe. "Meti um ferro quente”, ele parece responder, atropelando a pergunta. Mas não temos cem por cento de certeza de que foi isso mesmo o que disse, porque a sua dicção é muito, muito ruim. E complementa em seguida: "de solda". Sobre o motivo de tentar destruir a ferramenta de monitoramento 85916-5, “seu Jair”, disse que foi por "curiosidade" e que “não rompeu a pulseira, não.” A curiosidade bolsonariana depois virou “alucinação” medicamentos, durante a audiência de custódia feita no domingo passado.

Esse homem, que dirigiu o país por quatro anos nefastos, num momento mundial terrível, quando mais do que nunca um grande líder foi em vão necessário; aparentemente esse homem está saindo da cena política. Mas só saberemos se assim será, de fato, após o resultado da eleição presidencial do ano que vem. Até lá, e a depender do resultado das urnas, as suas crias políticas – Tarcísio, Zema, Ratinho e outros que ainda pularão nessa canoa – tentarão tirá-lo da cadeia. E a anistia do “seu” Jair, como o amor cantado por Paul Young, estará no ar.

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Vamos ao alemão. Trata-se, claro, do Primeiro-Ministro (Chanceler) Friedrich Merz, um ricaço que diz ser “socialmente conservador e economicamente liberal” – que milionário não o é, certo? - e dirige o país mais forte da Europa em coalizão com o SPD, partido social-democrata, amigo do PT.

O Chanceler, como todos sabemos, mexeu recentemente com os brios nacionais – pelo menos, mexeu com os brios dos brasileiros que não acham que Trump está certo ao tentar sufocar o país. Ele comentou numa entrevista a beleza estonteante dos cenários alemães – são lindos, de fato - e, ao fazê-lo, ressaltou a (suposta) feiura de Belém do Pará, cidade da qual, disse, seus compatriotas presentes à COP30 tiveram pressa de se afastar. Depois o ministro do Turismo da Alemanha deu uma aliviada, “passou um pano”. Mas a crítica foi cristalina: que cidade feia aquela, mein freund!

Merz foi muito descortês, claro. Afinal, desde que Hitler invadiu a Polônia em setembro de 1939, não cai bem a líderes alemães fazerem esse tipo de comentário grosseiro. Quem eles pensam que são? Porém... Diga-me com toda a sinceridade, do fundo de seu coração. Existe alguma metrópole brasileira, algum município com mais de 200 mil habitantes, digamos, cuja periferia e boa parte da região central da cidade não estejam muito feias e degradadas?

A feiura de nossas metrópoles, sua sujeira, esgotos não tratados à mostra, casebres inacabados pendurados à beira de rios e córregos poluídos; essa feiura é a cicatriz física, afligida e avivada diariamente por bilionários a quem só falta se gabar por serem uma elite indiferente a um dos sistemas sociais mais cruéis do planeta.

É essa feiura também que nos faz lembrar a todo instante: o Brasil que queremos ainda está longe de vir. E 2026 será (mais) uma batalha entre a civilização e a barbárie.

Até a próxima coluna.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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