Corruptos: a elite e os crustáceos decápodes – Por Raphael Fagundes
Quanto mais o Estado aumenta a sua intervenção, as oportunidades criminosas diminuem (óbvio que não irão desaparecer por completo num sistema capitalista)
É PCC na Faria Lima, é bebida alcoólica adulterada, é a megafraude da Americanas, é a fraude do Banco Master… São sucessivos os casos de corrupção entre as elites econômicas. Mas por que é a corrupção do Estado que mais se destaca?
A matança da megaoperação no Rio de Janeiro foi um espetáculo para se dizer que o Estado está combatendo o crime, mas o crime dos pequenos serve para acobertar o crime dos grandes.
É como detectou o jornalista Luís Humberto Carrijo: “Se a imprensa corporativa entendeu que a Lava Jato, por conta do apelo midiático que exercia na audiência, com reviravoltas e prisões espetaculares de políticos e empresários graúdos, era um assunto para ser trabalhado em ritmo de seriado dramático, com alguma dose de sensacionalismo, o escândalo da Americanas oferece em tese todos os ingredientes de que a grande mídia precisa para desenvolver um jornalismo investigativo instigante: gente importante, grandes somas de dinheiro, ‘inside information’, mistério, provavelmente intrigas, ameaças e corrupção nas altas esferas do poder econômico, além de indicar se tratar de um crime perfeito.
Mas ao contrário, o que vemos é uma cobertura burocrática, asséptica e previsível como são as notícias da temporada de compras Black Friday. O que mudou? Os atores. Enquanto na Lava Jato os protagonistas eram as lideranças do PT, pelas quais a imprensa nutre antipatia, no caso da Americanas são os homens mais ricos do país, incensados cansativamente pelo ‘jornalismo independente e profissional’. A troca de personagens faz uma grande diferença”.[1]
Os crustáceos
No Brasil, há um crustáceo decápode, semelhante ao camarão, chamado de corruptos. “Os corruptos são chamados assim porque, numa analogia aos que praticam a corrupção tal como nós a conhecemos, os crustáceos vivem enterrados na areia, estão presentes em grande quantidade nas praias brasileiras, quase não aparecem e são difíceis de capturar”.[2] Parece o caso das elites corruptas brasileiras, enfurnadas em suas mansões em ilhas particulares, mantidas com dinheiro ilícito.
As elites, no Brasil, não acham que o problema da desigualdade social tem a ver com elas e “atribuem ao Estado o dever de combater a abissal desigualdade entre ricos e pobres”.[3] Mas querem manter seus privilégios tributários estabelecendo conexões com o próprio Estado para isso. Usa-se inclusive de lobby - prática ilegal no Brasil - para atingirem seus objetivos.
Mas a ideologia é a de que o Estado é corrupto. E a ilusão é de que o Estado representa a vontade geral. A verdade, como disse Marx e Engels, “o Estado, pois, é a forma pela qual os indivíduos de uma classe dominante fazem valer seus interesses comuns”.[4]
A ilusão de que o Estado representa o cidadão e, por isso, a corrupção seria culpa dos políticos (funcionários do Estado e não representantes de classe) vem desde o Império, passa pela República Velha, mas só ganha força discursiva e ideológica nos finais do governo Vargas. Isso porque o Estado se torna interventor para promover uma melhor condição para a classe trabalhadora. O sociólogo e historiador Vitor de Angelo, destaca que “dados que na Era Vargas o Estado ficará marcado por um maior intervencionismo, ao qual a UDN associava o crescimento da corrupção, o partido passou a combater, por causa de seu elitismo, a classe social que muito se beneficiou daquele período, que foi a dos trabalhadores”.[5] Deste modo, formou-se o argumento liberal de que quanto mais o Estado se envolve na economia, mais corrupto é o sistema.
O fato é que “não consta que Vargas (rico estancieiro antes de chegar ao poder, político habilidoso e ditador violento) tenha aumentado seu patrimônio depois de dirigir o país por quase 19 anos. Getúlio não realizou operações rentáveis para privatizar empresas estatais. Ao contrário, criou-as. Nem consta que houvesse, em torno dele, esquemas montados para desviar dinheiro público, como se faz de modo notório nos tempos recentes. Muita tinta se gastou, muito papel se usou, muita gritaria ecoou; mas o tal mar de lama, atribuído ao governo Vargas, assim como surgiu, evaporou”.[6]
Aprendemos com os EUA
É uma ideologia que importamos dos EUA. As elites empresariais estadunidenses aproveitaram a liberdade econômica da virada do século XIX para o XX para fazer fortunas de modo ilícito, já que a regulação era precária. Os Rockefeller e outros magnatas do capitalismo se enriqueceram assassinando trabalhadores, corrompendo políticos, de modo que, como explica o historiador Michael Woodiwiss, “o capitalismo norte-americano era um capitalismo de gângsters, mas pouca gente se importava desde que o país parecesse estar prosperando”.[7] Os EUA dos anos 1920, do ápice do liberalismo, “haviam se transformado num país de oportunidades criminosas”.[8]
Até que veio a crise econômica. “As oportunidades aparentemente ilimitadas de fraude e falcatruas em Wall Street e o sistema bancário rudimentar do país ajudaram a levar à paralisia uma economia anteriormente muito produtiva”. O New Deal, “tornou o país menos agradável para os criminosos profissionais e homens de negócios corruptos”. O Estado passou a intervir na economia. Com maior regulamentação, a corrupção reduziu. De acordo com Woodiwiss, o New Deal, não forneceu apenas “uma alternativa ao fascismo alemão e italiano, ao comunismo stalinista e ao militarismo japonês. Também importante foi o fato de que ele lhes proporcionou uma alternativa à brutalidade e corrupção do capitalismo sem regulamentação”.[9]
Mas nos anos 1970, foram criados argumentos para o retorno da criminalidade empresarial. A verdadeira ameaça era a Máfia e, portanto, seria necessária uma guerra contra as drogas. “A atenção foi desviada da criminalidade empresarial e da falência do governo em fazer respeitar as leis de moralidade, passando a concentrar-se numa distração divertida explorada com maior sucesso por Mario Puzo e Francis Ford Coppola nos livros e filmes da série ‘O poderoso chefão’”.[10] O capitalismo retorna a sua situação gângster “semelhante à que ocorrera na década de 1920. Esses acontecimentos abriram oportunidade criminosas para corporações e profissionais numa escala sem precedentes, e a podridão tomou conta do país durante o governo de Richard Nixon”.[11]
O Brasil passou por isso recentemente. Com o enfraquecimento da regulamentação pós-golpe, as queimadas aumentaram, as bebidas macularam-se, os alimentos envenenaram-se. Ao mesmo tempo em que o Brasil se tornou o primeiro lugar em números absolutos em taxa de homicídio e a preocupação maior do brasileiro passa a ser o medo de “ser assaltado ou vítima de outros crimes”.[12]
Conclusão
Sem uma intervenção estatal na economia através de políticas de regulamentação, “as fronteiras entre o legal e o ilegal estão cada vez mais borradas [...] os mesmos atores operam simultaneamente em mercados legais e ilegais”.[13]
Em entrevista à Fórum, Ricardo Cappelli, presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), sobre o escândalo do Banco Master, “afirmou que todo esse esquema ‘pode se encontrar com Operação Carbono Oculto’, deflagrada pela PF em agosto deste ano contra sonegação e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis envolvendo o PCC”.[14]
Sem falar da conexão entre o Banco Master, investigado por operar créditos falsos, e o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, que através da Rioprevidência e da Cedae[15] se envolve em um dos maiores escândalos de corrupção financeira da história do Brasil.
A mega operação no Rio de Janeiro foi fundamental para esconder o crime empresarial dos olhos da mídia e da população. Uma estratégia do neoliberalismo que a extrema direita aprendeu com o Tio Sam. Enquanto isso, a criminalidade aumenta, a violência dilacera o país, e os milionários aumentam as suas fortunas. Todo esse investimento na violência contra a população pobre, proveniente de uma visão simplista do bem contra o mal, “desvia a atenção da necessidade de atender às deficiências mais fundamentais na economia política Mundial, se quisermos que um mundo mais seguro e mais saudável venha a surgir. Caso tais deficiências não sejam objeto de atenção, as corporações, os senhores da guerra, os gângsters e os empresários inclinados para o crime continuarão a prosperar”.[16]
Portanto, a lógica é inversa do que a ideologia liberal determina: quanto mais o Estado aumenta a sua intervenção, as oportunidades criminosas diminuem (óbvio que não irão desaparecer por completo num sistema capitalista). É, sem dúvida, nos governos de esquerda que os escândalos de corrupção das elites são revelados. Os governos petistas desenterraram muitos crustáceos decápodes de suas mansões de areia. Essa é uma das razões para defendermos não só a vitória da esquerda nas urnas em 2026, mas a sua radicalização. Até porque “um ‘Estado empreendedor’ é necessário” não apenas para corrigir as falhas do mercado (como a corrupção), mas “para assumir o risco e a criação de uma nova visão”.[17]
[1] https://diplomatique.org.br/o-escandalo-da-americanas-bom-jornalismo-e-ruim-para-os-negocios/
[2] ANGELO, V. Corrupção, velha senhora. DEL PRIORE, M e MÜLLER, A. (orgs.). História dos crimes e da violência no Brasil. São Paulo: EdUnesp, 2017, p. 348-349.
[3] ALCOFORADO, M. Coisa de rico. São Paulo: Todavia, 2025, p. 122.
[4] MARX, K. e ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo: Martin Claret, 2005, p. 98.
[5] ANGELO, p. 373.
[6] MOREL, M. Corrupção. Rio de Janeiro: Casa da palavra, 2012, p. 201.
[7] WOODIWISS, M. Capitalismo gângster. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007, p. 17.
[8] Id., p. 35.
[9] Id., p. 28.
[10] Id., p. 19-20.
[11] Id., p. 123.
[12] NUNES, P. Eleições 2026 e o voto do medo”. Le onde diplomatique Brasil, junho 2025, p. 8.
[13] PINHO, I. V. Expansão e transnacionalização do PCC. Le Monde diplomatique Brasil, out. 2025, p. 7.
[14] https://revistaforum.com.br/politica/2025/11/18/esquema-entre-brb-master-pode-se-encontrar-com-operao-carbono-oculto-diz-cappelli-192406.html
[15] https://www.google.com/amp/s/oglobo.globo.com/google/amp/rio/noticia/2025/11/19/cedae-admite-investimento-de-r-200-milhoes-no-banco-master-e-diz-que-resgate-foi-suspenso.ghtml
[16] WOODIWISS., p. 272.
[17] MAZZUCATO, M. O Estado empreendedor. São Paulo: Portfolio-Pinguim, 2014, p. 51.
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.