OPINIÃO

O ferro, o fogo e as versões - Por Washington Araújo

Entre curiosidade admitida e surto alegado, restam apenas fatos: marcas de calor, relatório oficial e uma tornozeleira que resiste melhor que seu usuário às versões trocadas.

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Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.
O ferro, o fogo e as versões - Por Washington Araújo
Reprodução de vídeo

Antes que o ferro de solda deixasse marcas na tornozeleira, as versões já começavam a derreter — e é justamente aí que o velho mito do fogo reaparece para nos orientar.

O de Prometeu, por exemplo: rouba o fogo dos deuses, entrega aos homens e termina acorrentado por achar que podia enfrentar o Olimpo como quem desafia um fusível. O mito sobrevive porque revela algo essencial: quem tenta manipular o poder pelas beiradas, mais cedo ou mais tarde, acaba queimado pelo próprio fogo.

Pois eis que, no Brasil de 2025, surge um Prometeu às avessas — aquele que não rouba o fogo para libertar, mas tenta usá-lo para escapar. E nem precisa de abutre: basta um ferro de solda e uma tornozeleira eletrônica.

Nas últimas 48 horas, Jair Bolsonaro apresentou ao país três versões completamente distintas para explicar como o dispositivo judicial que monitorava sua movimentação apareceu chamuscado, derretido e com sinais inequívocos de violação, como confirmam relatórios da Secretaria de Administração Penitenciária do Distrito Federal já enviados ao STF. A velocidade com que essas narrativas brotaram seria cômica, não fosse o peso institucional da cena.

A primeira versão chegou embrulhada em delicadeza doméstica:

“Bati na escada.”

Segundo ele, um tropeço, um escorregão, um esbarrão acidental teria causado queimaduras circulares idênticas às produzidas por um ferro de solda profissional. Era a tentativa de transformar a tornozeleira danificada em mero incidente arquitetônico — como se degraus tivessem passado a expelir calor a 300 graus.

Quando a narrativa não resistiu nem ao bom senso, veio a segunda: a da “curiosidade”. Um vídeo divulgado pela imprensa séria mostrou uma policial penal perguntando:

— “O senhor usou alguma coisa para queimar isso aqui?

E ele, sereno, respondendo:

— “Meti ferro quente… curiosidade… queria ver o que tinha dentro.”

A curiosidade, no entanto, não explica a precisão das marcas deixadas no dispositivo, nem por que um equipamento resistente a impactos teria sido “aberto” justamente com um objeto capaz de derretê-lo. Mesmo assim, durante algumas horas, essa versão tentou ocupar o centro do palco.

Mas a terceira explicação não demorou. Diante do juiz, Bolsonaro apresentou outro enredo, agora farmacológico: o do “surto”. Disse que a combinação de pregabalina com sertralina teria provocado alucinações e uma paranoia súbita, fazendo-o imaginar que a tornozeleira continha uma escuta secreta. A narrativa tentava deslocar a responsabilidade da ação para os remédios — como se eles tivessem pegado o ferro de solda em seu lugar.

Ocorre que essa justificativa desaba no primeiro sopro de realidade. Pregabalina e sertralina são medicamentos amplamente prescritos no mundo inteiro e têm exatamente a função oposta à apresentada pelo réu. São usados para acalmar, estabilizar, reduzir ansiedade, tratar depressão e dores neuropáticas. Em seus perfis clínicos, divulgados pelas próprias farmacêuticas e por entidades médicas, não constam alucinações ou surtos como efeitos colaterais típicos, muito menos fenômenos capazes de produzir uma ruptura consciente, organizada e manualmente precisa como a de violar uma tornozeleira eletrônica.

Alucinações podem ocorrer? Podem, mas são raríssimas, quase sempre associadas a abuso, interação com álcool ou combinação inadequada de outras substâncias. Não é o padrão, não é o efeito esperado, não é o que a medicina reconhece como reação comum. Usar essa justificativa para explicar marcas de queimadura circular a 300 graus é tão plausível quanto culpar um calmante por ensinar alguém a manusear um ferro de solda ou um maçarico.

E aqui a narrativa volta a se chocar com o próprio enredo: se os remédios servem para tranquilizar, como explicariam a organização necessária para ligar ferro de solda, aquecer, manipular, posicionar e aplicar calor no ponto exato do dispositivo? 

Surto não combina com método. Ansiedade reduzida não combina com engenharia improvisada. E medicamento ansiolítico não combina com paranoia produtiva.

A cada nova explicação, a ponte entre a realidade e a ficção se estica a ponto de ranger. E quando estala, o que emerge é a velha lição dos mitos: não há chama que apague o fato, não há ferro que derreta a lógica, e não há verso novo que resgate quem já perdeu o fio da própria história.

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