Palavreado de outros tempos: revisionista etc. – Por Mouzar Benedito
Não podia deixar de “homenagear” um preso ilustre, choramingão, então o homenageio no final deste texto
Andei escrevendo há tempos um livro que não publiquei, me lembrando de palavras e expressões comuns em certa época e hoje caídas no esquecimento. São centenas. Não sei se algum dia vou publicar o tal livro, acho que não. Resolvi colocar aqui algumas delas. Mera cultura inútil, eu sei. Mas acho divertido relembrar isso. Selecionei seis, para esta edição. Quem sabe publico outras depois. Ah... Não podia deixar de “homenagear” um preso ilustre, choramingão, então o homenageio no final deste texto.
Briga de branco – Nestes tempos de politicamente correto, esta expressão poderia ser considerada racista, embora eu tenha quase certeza de que foi criada por negros gozadores. Esta era uma expressão que significava “não tenho nada com isso”, “tô fora”... Quando alguém tentava envolver a gente com alguma coisa em que tínhamos que tomar um lado, podendo resultar até em inimizades ou encrencas, e não queríamos saber disso, respondíamos: “Isso é briga de branco”.
A origem provavelmente era de negros que pouco se lixavam (com razão) para as encrencas entre gente ruim, até saudosa do escravismo. Mas podia ser usada em diversas circunstâncias. Por exemplo: uma época eu trabalhava no Senai e teve eleição para presidente da Fiesp, a patronal e malvada Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Uns colegas tomaram posição a favor de um empresário mais “moderno” e queriam que eu me postasse ao lado dele. Respondi: “Isso é briga de branco, nós não temos nada com isso”.
Alegaram que, como o presidente da Fiesp era também presidente do Senai, o empresário moderninho melhoraria as coisas ali. Contestei, porque o tal moderninho era um direitista dos piores. O opositor, que perderia o cargo para ele, era um velho ultrapassado, com “ideias de antigamente”.
Minha opinião: esse velho tinha ideias da Santa Inquisição, enquanto o novinho tinha ideias do DOI-Codi, o órgão de repressão política que prendia, torturava e matava opositores (ao gosto do presidente eleito em 2018). A Santa Inquisição, péssima, não era mais aplicável, enquanto os métodos do DOI-Codi continuavam firmes.
O empresário moderninho ganhou, e foi uma tragédia para os funcionários do Senai. Ah... com a eleição de 2018, meu argumento não vale muito hoje em dia: o presidente eleito, adepto da ditadura e da tortura, juntava ideias e métodos da Santa Inquisição, sonhando com a volta do DOI-Codi. Outro jeito de tirar o corpo fora é dizer: vocês que são brancos, que se entendam.
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Psicodélico – Efeito alucinógeno provocado pela droga chamada LSD, que, segundo os usuários, fazia enxergar tudo muito colorido, com curvas bonitas... Nos tempos do movimento hippie – que contestava a sociedade de consumo e pregava e praticava a liberdade sexual e o uso de drogas – nos anos 1960 e 70, surgiu uma moda de tecidos, por exemplo, muito coloridos e sem nada de linhas retas. E com eles se faziam roupas psicodélicas.
Uma característica de muitos deles era o pouco vocabulário. Se você falasse para um(a) dele(a)s algo que gostavam e concordavam ou apoiava, a resposta podia ser monossilábica e vagarosa: sóóóó... Lembro-me de uma moça que quase não falava outra coisa além disso, e tinha o apelido de Soninha Só.
Quando alguém criticava uma pessoa ou seu comportamento, ou quando perguntava sobre alguma situação que ela deveria encarar, mas ela não encarava, a resposta poderia ser: eu tô na minha... Participante do movimento hippie aqui no Brasil era chamado também de bicho-grilo. Alguns chamavam também de chupim esse tipo de gente, porque às vezes se encostava em alguém e filava cerveja, cigarro, comida... ou maconha.
Algumas características dos bichos-grilos: pacifismo, fala com o já citado vocabulário curto e hábito de não tomar banho. Eu viajava muito de carona na época e começou a ficar difícil, não por causa de assaltos como hoje em dia: uma vez gastei um tempão pra pegar uma carona na Rio-Bahia e quando um caminhão parou o caminhoneiro me disse que iria só até 20 quilômetros adiante. Aceitei. Depois que andamos uns cinco minutos ele disse que iria bem mais longe. Gostava de conversar e para isso dava caronas, mas uns dias antes deu carona para um hippie. Além de não ter papo, fedia. A cabina do caminhão ficou fedendo muitos dias, não havia o que resolvesse. Lavou várias vezes, até com creolina, e nada...
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Yuppie – nada a ver com os hippies. Veio depois deles e era bem o contrário: jovem executivo “bem-sucedido”, que gostava de ostentar roupas caras e riqueza. Moderninho, costumava cheirar cocaína e era altamente individualista.
A Vila Madalena, em São Paulo, foi vítima deles. O bairro era simples, habitado por muitos portugueses e um pouco de espanhóis que tinham casinhas de fundo que alugavam para operários. Com o Ato Institucional Nº 5 (o famigerado AI-5), em dezembro de 1968, o governo fechou o Conjunto Residencial da USP, onde moravam cerca de 1.300 estudantes, e boa parte deles se mudou para a Vila Madalena, que é perto da Cidade Universitária e tinha essas casinhas de fundo para alugar barato. Com isso os operários foram praticamente “expulsos” da Vila, dando lugar a estudantes que moravam em repúblicas ou sozinhos nessas casinhas.
Com o tempo, esses estudantes foram se formando e continuaram morando no bairro, que passou a ser “de intelectuais”, com muitos jornalistas, sociólogos, engenheiros, arquitetos, advogados, artistas... Mas essa vida agradável acabou com a chegada dos yuppies: eles passaram a cobiçar o bairro, mas queriam ostentar, não iam morar nessas casinhas, né? Empreiteiras aproveitaram a onda compraram muitas casas com as respectivas casinhas de fundo, derrubaram e construíram prédios metidos a bestas, bonitões por fora, com gaiolinhas de porteiros e tudo, mas muitas vezes minúsculos dentro, pois yuppies não eram de ler e nem de ter vida social nas suas próprias casas, não precisavam de espaço. E tudo encareceu na Vila, inclusive as casinhas que restaram.
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Revisionista – Há muitos anos xinguei algumas pessoas de revisionistas para ver a reação, e só um cara de esquerda entendeu. As demais pensaram que revisionista tinha algo a ver com revisor de livros ou jornais. Durante muito tempo os stalinistas não admitiam qualquer “revisão” do pensamento de Karl Marx, e chamavam de revisionistas os que propunham uma revisão mesmo, uma releitura do marxismo. Acusavam principalmente trotskistas de serem revisionistas. Até início da década de 1970 era comum esta palavra ser usada como xingamento, equivalente a contrarrevolucionário.
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Exame de admissão – Disto, só os bem velhos se lembram. Até os anos 1960, quem terminava o curso primário (metade do atual primeiro grau) e queria continuar estudando, fazer o curso ginasial (últimos quatro anos do atual primeiro grau), precisava fazer o tal de exame de admissão, ou simplesmente a admissão, e passar! Se não tivesse nota 5 em português, matemática e não me lembro o que mais (acho que geografia e história), não era admitido.
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H.O. – Em São Paulo era sinônimo de pequeno hotel de “alta rotatividade”, usado para encontros amorosos, para a prostituição. Ninguém entrava neles para dormir. Havia muitos, geralmente em regiões de baixa prostituição, mas passaram a ser perseguidos e foram fechando, dando lugar a motéis em rodovias, perto da saída da cidade. A rodovia Raposo Tavares ficou famosa pela quantidade de motéis, um ao lado do outro. Os motéis, em outros países, eram simplesmente hotéis em estradas, usados para repouso mesmo.
Ah, falando em motéis da Raposo Tavares, segundo uma piada, um português abriu um estabelecimento desses lá, mas não atraía a freguesia. Os motéis vizinhos lotavam e ninguém ia no dele. Um dia alguém lhe explicou o motivo. Ele queria homenagear a “terrinha”, Portugal, e pôs no motel o nome de sua padroeira, ficou sendo Motel Nossa Senhora de Fátima. O amigo disse que tinha com esse nome os possíveis clientes pensavam que ali era um lugar para repouso de verdade. Ele mudou, mas não deixou de homenagear a “terrinha”. Ficou sendo “Motel Fados e Fodas”.
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Aproveita enquanto o Brás é carcereiro – Esta, de tempo tão distante, me faz lembrar de um personagem atual que, sentindo-se poderoso, dizia-se valentão, machão... Defendia (e defende) a tortura, que cadeia deve ser braba e que a Papuda era um hotel 5 estrelas, bom demais para preso que merece se ferrar, não ter esse luxo. E quando vem a rebordosa, se faz de vítima, choraminga, diz que não aguentaria ir pra Papuda, um lugar horroroso (como a circunstância faz mudar de opinião, hein?) e que ir para lá seria sua morte. Encara até prisão domiciliar como tortura (imaginem num pau-de-arara, como defende para os outros), numa casa inacessível para mais de 90% dos brasileiros. Machão? MACHORÃO!
Bom, vamos à frase do título. Sei que vão me corrigir dizendo que o samba “Firme e forte”, de Nei Lopes e Edison Ferreira, cantado por Beth Carvalho, diz que “se o Brás é tesoureiro a gente acerta no final”, é inspirada na frase “aproveite enquanto o Brás é tesoureiro”, muito antiga, de origem polêmica: a versão mais divulgada é que um tesoureiro de usina de açúcar só pagava os empregados quando queria, não tinha data certa, e quando ele aparecia no escritório a notícia corria para que os trabalhadores fossem lá: “Aproveite...”, mas não me parece lógica. A frase parece mais ligada à corrupção num determinado governo, que tinha numa instituição um tesoureiro chamado Brás, que fechava os olhos para a bandalheira, então vale “aproveite enquanto o Brás é tesoureiro”. Uma época, me disseram que o tal Brás existiu durante o governo de Juscelino Kubistchek, não sei se é verdade.
De qualquer forma o Brás a que me refiro como carcereiro existiu mesmo e a frase também. Na minha terra, a cadeia estava sempre vazia ou quase, pois era raro prender alguém lá pelos anos 1950 e 60, e quando isso acontecia, o preso era bem tratado e respeitado pelo carcereiro, um negro velho, baixinho e gordinho, muito afável, chamado Brás. Na época “bater em preso”, ou seja, torturar, era algo considerado “normal” pela polícia. A PM mineira tinha pouco trabalho em Nova Resende, raramente prendia um bêbado encrenqueiro, e só. Mas se sentia no direito de bater nele, só que quando o Brás estava de plantão, não deixava. Então, quando alguém aprontava alguma coisa que podia resultar em cadeia, brincavam com ele: “Aproveita enquanto o Brás é carcereiro”.
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.