Sergio Moro x Alexandre de Moraes: Comparando estratégias e resultados - Por Rodrigo Perez
Depois de preso, Lula elegeu-se presidente. O mesmo não acontecerá com Bolsonaro, que enfrenta dificuldades até mesmo para reorganizar seu campo político
Comparar Lula e Bolsonaro tornou-se lugar comum no debate político brasileiro. Carismáticos, líderes populares, réus em processos criminais, condenados e presos. Cada vez mais, a comparação tem razão de ser, o que não significa supor que exista qualquer equivalência moral entre os dois personagens. A reboque dessa comparação, vem outra comparação, envolvendo outros atores protagonistas no enredo da crise democrática brasileira: Sérgio Moro e Alexandre de Moraes, antagonistas, respectivamente, de Lula e Bolsonaro. As diferenças entre as atuações dos dois juízes dizem muito sobre as diferenças nos destinos políticos de Lula e Bolsonaro.
Primeiro, desejo esclarecer que não estou interessado em discutir o mérito jurídico dos processos em questão. Muito já foi escrito sobre os abusos da Operação Lava-jato e sobre as articulações golpistas lideradas por Jair Bolsonaro. Qualquer coisa que eu diga sobre isso será redundante. Mas existem outros aspectos das estratégias políticas mobilizadas por Sérgio Moro e Alexandre de Moraes que merecem mais atenção. E sim, “estratégias políticas”, pois quando o réu é um líder popular da importância de Lula e Bolsonaro, o processo judicial será sempre um processo político e o juiz sempre será um ator político. Afinal, se o réu não é uma pessoa normal, o processo jamais será um processo normal.
Quando juiz, Sérgio Moro era entusiasta da “Mani Pulite”, investigação policial de grande envergadura que revelou um complexo esquema de corrupção envolvendo políticos e empresários na Itália. Moro escreveu um artigo acadêmico sobre a operação italiana, intitulado “Considerações sobre a Operação Mani Pulite (mãos limpas)”, publicado em 2004 na Revista do Conselho de Justiça Federal. Ele reconhecia a importância da aliança com a imprensa em operações judiciais dessa natureza, que, supostamente, precisariam de apoio da opinião pública para prosperar. Foi exatamente esse o aspecto central de sua estratégia na condução do processo contra Lula. Vazamentos seletivos para imprensa, produção de imagens em larga escala, devastação da intimidade do réu, divulgação dos vídeos das audiências. A aposta de Sérgio Moro era que a superexposição enfraqueceria Lula politicamente, reduzindo sua base de apoio, desanimando sua militância e facilitando o processo punitivo. O que aconteceu foi justamente o contrário. Lula soube usar o palco armado por Sérgio Moro, conseguindo aglutinar a esquerda sob sua liderança. O petista jamais performou a vítima e sempre fez questão de aparecer em público de modo altivo, demonstrando força e resiliência. Sua imagem manteve-se viva e atualizada. No mercado da política, a memória é um dos ativos mais valiosos.
Talvez porque estava vacinado pelos erros e ilegalidades cometidos pela Operação Lava-Jato, Alexandre de Moraes adotou procedimento completamente diferente. O ministro priorizou a discrição e adotou a estratégia que podemos chamar de “imagem zero”. Com exceção do julgamento, foram poucas as imagens de Bolsonaro divulgadas no contexto do processo. O ex-presidente foi impedido de utilizar as redes sociais e de dar entrevistas. Moraes cortou o canal de comunicação de Bolsonaro com a sua base, que está assustada devido às penas aplicadas aos militantes bolsonaristas envolvidos no quebra-quebra de 8 de janeiro de 2023. Sem imagens, é difícil performar a vítima, que era exatamente o que Jair Bolsonaro faria se tivesse a oportunidade, e certamente teria algum sucesso. O tempo foi passando, passando, e a imagem de Bolsonaro foi ficando distante, na mesma medida em que surgiram candidatos a herdeiro de seu espólio eleitoral. A base social bolsonarista foi se acostumando com a ausência do líder, o que é bastante desmobilizador. Bolsonaro é um agitador muito competente, mas precisa ter as condições para agitar. Foi exatamente aqui que Moraes agiu. É como se Jair Bolsonaro tivesse morrido em vida.
Depois de preso, Lula elegeu-se presidente. O mesmo não acontecerá com Bolsonaro, que enfrenta dificuldades até mesmo para reorganizar seu campo político, o qual, diferente do petismo, não conta com uma estrutura partidária coesa, disciplinada e com diretórios espalhados pelo território nacional. O último lampejo de cálculo do bolsonarismo foi a tentativa de boicotar os interesses econômicos brasileiros através do lobby junto à Casa Branca. Não deu certo e o desespero bateu de vez, com o velho Jair tentando queimar a tornozeleira eletrônica usando ferro de solda. Não consigo imaginar que haja algum método nisso.
Jair Bolsonaro está destruído física e mentalmente, mas sua marca ainda é forte; resta saber o quanto. Lula ostenta vigor e saúde e desponta como favorito para a reeleição, apesar das crises do PIX, do INSS e dos erros na comunicação no tema da segurança pública. Certeza mesmo é que 2026 não será igual a 2022. Lula X Bolsonaro, os dois maiores líderes populares da história recente se enfrentando nas urnas, num episódio que nossa geração talvez ainda não seja capaz de mensurar a importância. Não acontecerá outra vez. Quem viu, viu. Os outros só poderão ouvir falar.
**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.