O DIA DA JUSTIÇA

A Verdade nos libertou... de Bolsonaro! por pastor Zé Barbosa Jr

O que virá daqui em diante dependerá também das comunidades de fé. Reconhecerão o erro histórico? Ou continuarão sustentando o mito com teorias conspiratórias, narrativas de perseguição e manipulação emocional?

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Teólogo, escritor, pós-graduado em Ciências Políticas e pastor da Comunidade de Jesus em Campina Grande - PB
A Verdade nos libertou... de Bolsonaro! por pastor Zé Barbosa Jr
A Verdade nos libertou... de Bolsonaro! por pastor Zé Barbosa Jr. Bolsonaro e representantes de igrejas evangélicas. Reprodução/Youtube

Hoje, 25 de novembro de 2025, o Brasil recebeu uma notícia que parecia improvável alguns anos atrás: o trânsito em julgado da condenação de Jair Messias Bolsonaro. Depois de um ciclo longo, violento e moralmente exaustivo para a democracia brasileira, o país respira – não por vingança, mas por um profundo senso de justiça. E justiça, como ensina a própria Escritura tantas vezes citada, só existe onde a verdade não é sequestrada.

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32).
Este foi o lema de campanha de Bolsonaro em 2018. Foi repetido à exaustão, estampado em púlpitos, faixas, camisetas e sermões. Ironia ou revelação: a própria Palavra que ele instrumentalizou agora o condena. Porque a verdade sempre escapa pelos vãos e aqui ela veio com força suficiente para ser o início do fim a uma era de manipulação, fake news, corrupção, ataques às instituições e desprezo criminoso pela vida.

A verdade libertou o Brasil – não no sentido político estreito, mas no sentido profundo de romper com uma lógica adoecida que sequestrou consciências e misturou fé com autoritarismo. A libertação não é apenas estarmos livres de um ser desprezível, mas de tudo o que ele representou: a naturalização do ódio, a idolatria ao caos, o culto ao engano, a manipulação religiosa como arma de guerra cultural.

E é impossível falar desta libertação sem mencionar, com a seriedade que o momento exige, a vergonha histórica da cumplicidade de parte das lideranças evangélicas brasileiras. Pastores que, no púlpito, deveriam apascentar rebanhos, tornaram-se cabos eleitorais; profetas tornaram-se agitadores políticos; mestres da Palavra se converteram em propagadores de desinformação. A fé cristã – tão rica, tão plural, tão capaz de promover justiça – foi sequestrada por uma elite religiosa que se portou como corte real de um projeto de poder. Malafaias e afins demonstraram apenas ser o que sempre foram: servos da injustiça, vendilhões do templo, empresários da fé, lobos em peles de ovelhas.

O silêncio cúmplice diante da corrupção, dos ataques às instituições, dos discursos de ódio contra quilombolas, indígenas, mulheres, LGBTQIA+ e pobres… tudo isso pesará na memória coletiva. Mas talvez nada seja tão vergonhoso – ou tão distante do Evangelho – quanto a atitude cruel, insensível e desumana de Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19.

Foram meses e meses de desprezo pela dor alheia. Enquanto famílias inteiras eram destruídas, enquanto milhares morriam sozinhos, enquanto cidades inteiras choravam seus mortos, Bolsonaro debochava. Chamou o vírus de “gripezinha”; imitou pessoas com falta de ar; sabia da gravidade e mentiu; sabia da eficácia das vacinas e atrasou sua compra; sabia do colapso e estimulou aglomerações. O Evangelho que ele dizia defender nos ensina que Jesus chorou diante da dor humana, que tocou os enfermos, que se moveu de compaixão, que abraçou viúvas, que curou febres, que colocou a vida acima da lei. Bolsonaro fez o contrário: tratou a vida como descartável, zombou de quem chorava, e colocou seu projeto político acima do cuidado com o próximo.

A verdade é dura, mas é libertadora: nenhum seguidor sincero de Cristo poderia ter se reconhecido na postura daquele que se gabava da própria insensibilidade enquanto o país cavava covas coletivas. A verdade é que o bolsonarismo jamais representou os valores do Evangelho. Não era amor. Não era compaixão. Não era misericórdia. E, definitivamente, não era cuidado com a vida.

Mas muitos líderes insistiram em dizer que sim. Chamaram de “ungido” quem se orgulhava de estimular violência e desdenhar da dor. Chamaram de “guerra espiritual” aquilo que era apenas disputa por poder. Ousaram revestir de profecia o que era, no fundo, cálculo político. O Evangelho, porém, não é refém da má-fé humana. Ele permanece como fonte de uma ética que denuncia as trevas e ilumina a justiça. E se hoje a justiça alcança Bolsonaro, isso não tem nada de perseguição religiosa, como seus seguidores tentarão insistir. Tem a ver com Estado de Direito – e, para quem crê, com a ação inevitável da verdade.

A prisão definitiva de Bolsonaro não cura automaticamente as feridas abertas. O bolsonarismo continua vivo como cultura, mentalidade e ressentimento. O país ainda está esgaçado, desgastado e traumatizado. Mas a Justiça – esta sim, tão desacreditada durante anos de ataques – demonstra que instituições podem se levantar, reagir e proteger a democracia.

O que virá daqui em diante dependerá também das comunidades de fé. Será que as lideranças evangélicas farão um mea culpa? Reconhecerão o erro histórico? Ou continuarão sustentando o mito com teorias conspiratórias, narrativas de perseguição e manipulação emocional? A resposta a essas perguntas determinará se a verdade continuará libertando ou se novas cadeias serão construídas. Que a verdade nos liberte também da religião capturada.

Se a verdade nos libertou de Bolsonaro, que ela nos liberte também da teologia distorcida que sustentou sua ascensão. Que a fé cristã reencontre seu caminho original: o da justiça que corre como um rio, o do cuidado com a vida, o respeito às diferenças, o compromisso radical com os pobres, com as mulheres, com os povos originários, com as pessoas marginalizadas. O Evangelho não nasceu para aplaudir tiranos. Nasceu para libertar.

Depois de tantos anos de trevas, é isso que se celebra no Brasil: não uma vitória política, mas uma vitória da humanidade. Não o triunfo de um grupo sobre outro, mas o triunfo da verdade sobre a mentira. Porque, afinal, como disse Aquele que foi injustiçado, torturado e morto pelo poder político de seu tempo: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”

Hoje, essa palavra deixa de ser slogan eleitoral para voltar a ser profecia.
E o Brasil, finalmente, respira o ar da libertação.

 

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum

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