Opinião

Bolsonaro aposta na vitimização para se manter vivo - Por Gustavo Tapioca

Condenado a 27 anos, ex-presidente transforma tornozeleira em palanque, teatraliza martírio religioso e tenta vender seus 30% de votos para comprar um indulto em 2026

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Jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.
Bolsonaro aposta na vitimização para se manter vivo - Por Gustavo Tapioca
EVARISTO SA / AFP

Condenado a 27 anos, ex-presidente transforma tornozeleira em palanque, teatraliza martírio religioso e tenta vender seus 30% de votos para comprar um indulto em 2026. Mesmo preso e desmoralizado, Jair Bolsonaro tenta usar a própria ruína como capital político — aciona a fé de sua base, inflama a extrema direita e aposta tudo na eleição de 2026, enquanto Lula cresce e lidera todos os cenários apontados pelas pesquisas.

A prisão como palco

A condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão, cuja execução passou a vigorar nesta terça-feira, 25, deveria marcar o fim político de um ex-presidente mergulhado em crimes. No entanto, o Brasil assiste a uma situação peculiar. Mesmo detido, mesmo isolado, mesmo juridicamente derrotado, Bolsonaro preserva um núcleo duro de 25% a 30% do eleitorado — um cacife decisivo para qualquer projeto de poder.

Ele sabe disso. Sabe que não será candidato em 2026. Sabe que sua situação jurídica é terminal. Mas sabe, também, que seu capital eleitoral, por menor que seja, pode decidir a eleição.

Por isso, todo seu esforço recente — fugas encenadas, vigílias religiosas, discursos de perseguição, acusações conspiratórias — tem como objetivo comprar sua própria liberdade por meio de um eventual indulto presidencial concedido por um sucessor alinhado.

A democracia vira um cassino onde o condenado tenta, mais uma vez, manipular as cartas.

O teatro que virou crime

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta terça-feira (25) que Jair Bolsonaro permanecerá custodiado na Superintendência da Polícia Federal (PF) em Brasília, onde já estava detido desde a prisão preventiva decretada no sábado, 22. O STF reconheceu o encerramento do processo da trama golpista e consolidou a execução da condenação, fixada em 27 anos e três meses. A decisão unânime sintetiza, em poucas páginas, o colapso final da encenação bolsonarista.

Às 0h08 da madrugada de sábado, Bolsonaro violou a tornozeleira eletrônica — um rompimento literal e simbólico com a medida que lhe permitia ficar em casa. Segundo o ministro Alexandre de Moraes, a quebra do equipamento revelou “elevado risco de fuga”, agravado pela proximidade com embaixadas e pelo histórico de tentativas de evasão no seu entorno político.

Mas a ruptura foi apenas parte do problema. Horas antes, Flávio Bolsonaro convocara uma vigília em frente ao condomínio do pai, usando linguagem de púlpito — um ato que, para Moraes, poderia atrair centenas de pessoas, tumultuar a ação policial e criar condições de resistência.

O ministro conclui que havia um “fato novo”, havia risco concreto à ordem pública e havia violação reiterada das medidas cautelares. A prisão preventiva tornou-se, então, inevitável — e imediata.

Com uma observação final que resume o momento histórico: a prisão deveria ocorrer sem espetáculo, sem algemas, sem teatralização — justamente o que Bolsonaro tentava fabricar.

Pela primeira vez desde que deixou o poder, Bolsonaro se viu diante da Justiça sem o escudo das ruas, sem as redes infladas artificialmente e sem a proteção institucional de outrora.

A fuga como teatro de martírio

Não houve fuga. Houve encenação. Como mostrou Reinaldo Azevedo, Bolsonaro pode ter tentado escapar. Mas, na prática,  tentou “performar”. A ruptura da tornozeleira, o deslocamento no horário proibido, o alvoroço calculado — tudo seguia o manual bolsonarista de reativação da militância, transformar o réu em santo guerreiro e substituir a realidade por um enredo místico.

Azevedo resumiu com precisão: “Bolsonaro não tentou fugir; tentou continuar sendo Bolsonaro.”

A tentativa não era criminal. Era eleitoral. Era litúrgica. Era o início da campanha de vitimização visado ao indulto.

A Polícia Federal, porém, chegou cedo demais: às 6h da manhã, antes da vigília marcada para 19h. O teatro ruiu.

A igreja bolsonarista e os 30% de fidelidade

O bolsonarismo não funciona como partido político — funciona como igreja.

“Vamos invocar o Senhor dos Exércitos.”
“A oração é a verdadeira armadura do cristão.”
“Vamos resgatar o Brasil desse cativeiro.”

A base bolsonarista é mantida por fé, não por política. Por isso, Bolsonaro precisa converter cada ato jurídico em ritual sagrado. A condenação vira cruz, a tornozeleira vira estigma, a PF vira “perseguição”, a prisão vira via-sacra.

Dois Brasis, duas posturas

A diferença entre Lula e Bolsonaro tornou-se pedagógica.

Em 2018, quando Sérgio Moro ofereceu a Lula o regime domiciliar com tornozeleira, o ex-presidente recusou. “Não troco minha dignidade por minha liberdade.” Essa frase sintetiza a recusa categórica de Lula em aceitar qualquer benefício que implicasse admitir culpa ou, simbolicamente, submeter-se à lógica da Lava Jato. Ele preferiu continuar preso, esperando o julgamento do STF, a colocar uma tornozeleira e ir para casa sob o signo da humilhação e da confissão indireta. Aceitar significaria reconhecer um processo viciado que mais tarde foi declarado nulo pelo Supremo. Entrou de cabeça erguida — e saiu inocentado.

Bolsonaro fez o contrário. Aceitou a tornozeleira quando lhe convinha, violou-a quando lhe interessou politicamente e tentou transformar sua situação jurídica em palanque. Enquanto Lula preservou a institucionalidade mesmo como vítima, Bolsonaro tentou subvertê-la mesmo sendo réu legítimo.

É o contraste entre o estadista e o agitador.
Entre o republicano e o golpista.
Entre quem respeitou o país — e quem o usa como escudo.

A última esperança de Jair

Bolsonaro sabe que sua única saída é o indulto presidencial. Se Lula vencer — como as pesquisas do momento indicam — Bolsonaro cumprirá integralmente a pena. Se a extrema direita vencer, a porta do indulto se abre em 2027. Por isso, a fuga encenada foi o ato inaugural da campanha presidencial sem Bolsonaro — mas pelo Bolsonaro.

Tarcísio de Freitas, Ciro Nogueira, Flávio e Michelle Bolsonaro disputam espaço diante do colapso do mito. A liturgia está montada em forma de declarações públicas de fé, frases de sacralização, afagos coreografados. Mas, por trás da devoção, a elite conservadora e setores da própria extrema direita respiram aliviada. Ninguém mais queria peregrinar até a mansão do condenado para posar em foto humilhante. A prisão libertou parte da extrema direita e do Centrão — em privado, claro.

Carlos Andreazza revelou no Estadão: a prisão de Jair ocorreria mesmo sem a ruptura da tornozeleira. A vigília convocada por Flávio Bolsonaro foi interpretada como uma continuidade do “8 de janeiro”.

Flávio, ao tentar salvar o pai, criou a circunstância jurídica que o levou à prisão preventiva. É ele quem assume o comando prático do movimento. É ele quem herda a igreja. É ele o verdadeiro “next”.

É aí que mora um perigo

A extrema direita permanece ancorada em redes religiosas, digitais, financeiras e afetivas. O mito não desaparece com a prisão — apenas muda de forma.

Em entrevista a Luís Nassif, no GGN, João Cezar de Castro Rocha alerta que aí é que mora um perigo:
“A extrema direita vai tentar transformar Jair Bolsonaro no líder, no mito, impedido pelo Sistema de liderar o povo de Deus.”

“A única possibilidade que eu vejo para uma mudança no cenário é se a vitimização de Bolsonaro tiver um motivo concreto. É necessário que as pessoas mais importantes da República tenham a consciência histórica de que a vitimização de um mártir pode convulsionar o cenário político.”

E lembra que a facada de Juiz de Fora — vendida pelo bolsonarismo como um atentado à vida do Mito — foi determinante na eleição de Bolsonaro em 2018. Plano semelhante — diz Castro Rocha — está sendo elaborado agora: “fazer de Bolsonaro um perseguido” pelo Sistema, pelo PT, pelo governo Lula, pelos “comunistas”. É esse o caminho que eles pretendem trilhar, tudo em nome de Deus. Um plano amparado pelos setores que estão na luta sem limites de barrar a provável reeleição de Lula.

Sem mito, não há eixo.
Sem eixo, não há estratégia.
Sem estratégia, sobra desespero.

O Brasil entre a fé e a realidade

O bolsonarismo tenta transformar 2026 na eleição do indulto.

Mas a realidade é outra:

Lula consolida liderança,
a direita se fragmenta,
o clã se divide,
a prisão desmonta a farsa,
o país segue em frente.

A tentativa de Bolsonaro de transformar a própria ruína em redenção pode produzir o oposto: a reafirmação definitiva da democracia e a consagração da reeleição de Lula.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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