Tempo - Por Luis Cosme Pinto
“Compositor de destinos, tambor de todos os ritmos, tempo, tempo, tempo, tempo” (Versos de Oração ao tempo, Caetano Veloso)
Relógio era relógio. Tinha ponteiros, números e marcava data. “Pode me informar as horas, por favor?” Os relógios de pulso serviam não só para gente não perder a hora, eram moda. Uma joia. Substituíram os relógios de bolso. Bastava dar corda que eles funcionavam sem cobrar hora extra. Quem tem relógio hoje em dia?
Câmera fotográfica era câmera fotográfica. Primeiro as do lambe-lambe, depois as menores, por fim a xereta. Em todas elas a gente botava o filme, dias depois, a surpresa: algumas fotos estavam veladas, outras excelentes. A gente guardava em um álbum. O de minha mãe tinha cantoneiras e capa estofada. Um dia a Kodak desapareceu e ao laboratório Fotóptica restou a ótica.
Quem tem uma câmera analógica. Aliás, o que é analógica?
Jornal era jornal. Vendia na banca da esquina e meu amigo Antônio garantia que antes de saber das notícias de Brasília ou do mundo, no JB, se informava das últimas do bairro com o jornaleiro, o seu Gentil. Aquele, sim, um homem bem informado. Quem separou, quem mudou, quem adoeceu... Gentil sabia de tudo. Só depois dessa fundamental conversa, Antônio folheava o diário e entendia das escaramuças da guerra, da zebra da rodada, da falta d’água no Catumbi, da crônica do Sabiá. O jornal era jornal de papel, que depois de velho embrulhava lixo, forrava sapato furado, embalava copos e louças na mudança. Quem ainda suja as mãos com as notícias?
Telefone era telefone. Todo mundo queria atender. “ 268-4173, aqui é da casa da família Pinto, com quem deseja falar?” Pelo telefone fixo se brigava, se fazia as pazes; também se fechavam negócios, se conseguia emprego, se namorava e, acima de tudo, se conversava. Agora, virou falta de educação telefonar sem aviso prévio.
A gente sabe que jornal, câmera, relógio, telefone - estrelas do século XX - estão moribundos ou sepultados porque morrer faz parte da vida. A tecnologia juntou todos esses inventos do passado no mais importante dos objetos de nossos dias: o celular.
Ele está nas mãos e na vida do mais rico e do mais pobre dos brasileiros. Conheço gente sem emprego, sem teto, sem filho, sem pai nem mãe, mas não sei de ninguém sem celular.
Não é só ter, é não respirar sem. O primeiro gesto de quem entra no ônibus, senta na praça ou chega a uma sala de espera qualquer é olhar o celular. Não se engane: a hora dele também chegará. Celulares serão largados aos bilhões em galpões empoeirados. Lembrei de uma exceção nesses tempos descartáveis.
Uma exceção de quatro patas. Houve época em que cachorro era cachorro. Animal irracional, repetiam com escárnio e preconceito. O cachorro ficava preso a uma corrente, era mais sentinela que parceiro. As crianças tinham medo e os pais aumentavam o pavor. “Cachorro morde e transmite raiva.” “Se você for mordido vai ter que tomar injeção na barriga.” “Isso parece comida de cachorro!” “Tua roupa fede mais que cachorro molhado.”
Cachorro era proibido em apartamento, barrado em ônibus, vetado em avião.
O mundo cão acabou. O cachorro é pet, tem plano de saúde, ração especial, tratamento de beleza, roupas, brinquedos, uma multidão a serviço de seu bem estar. Quando cansa, passeia no colo ou no carrinho, como filho mimado.
Cachorro tem nome de gente, hábito de gente, roupa de gente.
Cachorro não tem dono, tem tutor.
O cachorro sempre foi o melhor amigo do homem. Mas o homem nunca foi o melhor amigo do cachorro. Ainda é preciso que a gente melhore muito, mas já estamos a caminho. Assim como testemunhei o relógio cuco de minha tia, acredito o cachorro ainda vai dizer: “Enfim, o melhor amigo do cachorro é o homem”. Ou você, querida leitora e camarada leitor, duvida que cães e cadelas ainda vão falar?
Luis Cosme Pinto é autor de Acabou, mas continua, da editora Cachalote.
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum