As big techs e a guerra total - Por Emir Sader
Livro de Sérgio Amadeu da Silveira encara, com competência e coragem, um dos mais destacados desafios colocados para o pensamento critico atual
Com esse titulo, um dos mais importantes intelectuais brasileiro, Sergio Amadeu da Silveira, encara, com competência e coragem, um dos mais destacados, entre os novos desafios colocados para o pensamento critico.
Seu livro aborda a mudança na gestão e na infraestrutura da guerra contemporânea, como ele anuncia já no começo da obra. Ele investiga a economia de dados e suas principais organizações, as big techs. Analisando os contratos dessas organizações, ele se depara com contratos militares.
Sergio Amadeu defende a tese de que “os dados são ativos de alto valor agregado. Que o digital não eliminou a luta de classes, pelo que “o pensamento marxista continua indispensável para compreender esses fenômenos. O digital não elimina a luta de classes”. Ao contrario, os sistemas digitais dataficados, impulsionados pela voracidade do sistema capitalista, a reconfigurou em novas bases. Os dados se converteram em um tipo específico de capital.
“A necessidade de infraestruturas gigantescas e de um poder computacional crescente levou ao domínio da própria ciência computacional pelas big techs.” Os modelos mais significativos do aprendizado de maquina já não estão sendo desenvolvidos pelas universidades, mas pela indústria.
As big techs acumulam e monetizam dados em escala global, dominando setores como entretenimento, agricultura, logística e até serviços públicos. A nuvem, apesar de ser apresentado como um serviço desterritorializado, está profundamente ligada a questões geopolíticas, concentração de poder e dependência tecnológica.
A inteligência artificial é dependente de infraestruturas complexas, dominada por oligopólios tecnológicos, o que a torna distante do controle democrático, além de acessível a poucos atores poderosos.
O conhecimento é reduzido a dados quantificáveis e processados por algoritmos, resultando em um “colonialismo sistêmico”, que concentra poder nas mãos das big techs. “A vetorialização e a compressão de informações são apresentados como métodos que transformam a linguagem e o conhecimento em representações matemáticas, distanciando-se da experiência humana e da compreensão contextual.”
As transformações éticas e operacionais na guerra destacam a mudança da “ética do guerreiro” para a ética do caçador”. Há sistemas como os utilizados pelas israelenses para identificar objetivos em Gaza, com a desumanização do inimigo e redução da responsabilidade humana em decisões letais. “A ascensão da gestão algorítmica da guerra vai erodindo os limites éticos, o que exige regulamentação global diante de tecnologias que podem perpetuar ciclos de extermínio.”
A partir do século XXI, o complexo militar-industrial se transformou em “complexo militar-industrial-dataficado”, no qual as empresas de big techs passaram a desempenhar papel central. Há um papel neocolonial das big techs, que ao controlarem infraestruturas digitais e dados globais, reforçam a hegemonia dos Estados Unidos e seus interesses geopolíticos, transformando a guerra em um empreendimento cada vez mais tecnológico e menos transparente. “As big techs adentraram o quartel-general dos Estados Unidos e foram levadas à sala de comando.” Nenhum estado nacional possui tantos dados das populações do planeta como as big techs norte-americanas.
Sergio Amadeu coloca um grande desafio: “Quando dados utilizados para criar perfis destinados ao marketing também servem para fixar alvos militares ou disseminar desinformação em escala massiva com objetivos de dominação, precisamos discutir se isso é aceitável,” E ele convida as pessoas a pensar “se não é hora de impedirmos esse poder descomunal de vigilância e controle que esta’ sendo construído”.
Esta breve resenha de uma leitura que me foi muito útil, se dispõe a convidar a que o livro de Sergio Amadeu seja lido como uma obra indispensável, entre tantas leituras de que podemos dispor atualmente.