Capitalismo regenerativo e seus desafios – Por Ana Beatriz Prudente Alckmin
No cenário de falha sistêmica e esgotamento dos modelos tradicionais de sustentabilidade, ganha força a ideia de "capitalismo regenerativo"
A integração entre inteligência artificial, governança, ESG e crise climática revela um novo paradigma de tomada de decisão que redefine a forma como empresas, governos e a própria sociedade lidam com os desafios ambientais, sociais e econômicos contemporâneos. A inteligência artificial deixa de ser apenas uma ferramenta tecnológica e passa a ocupar um papel estratégico na gestão de riscos, na formulação de políticas públicas e na criação de soluções sustentáveis, especialmente em um cenário marcado pelo agravamento das mudanças climáticas, pela escassez de recursos naturais e pela pressão por maior transparência e responsabilidade corporativa.
Nesse contexto, a IA se apresenta como um elemento capaz de otimizar processos, cruzar grandes volumes de dados e gerar análises preditivas que auxiliam na prevenção de desastres ambientais, no monitoramento de emissões de carbono, na gestão eficiente de recursos hídricos e energéticos e na identificação de práticas mais sustentáveis nas cadeias produtivas. Ao mesmo tempo, sua incorporação em estratégias ESG permite que organizações mensurem com maior precisão seus impactos ambientais e sociais, transformando compromissos abstratos em indicadores concretos e acionáveis, o que fortalece a credibilidade institucional e contribui para decisões mais éticas e responsáveis.
Entretanto, o avanço da inteligência artificial ocorre em paralelo a uma crise do ceticismo e da pós-verdade, intensificada pela ausência de letramento digital e pela dificuldade crescente do público em distinguir conteúdos produzidos por humanos daqueles gerados por sistemas automatizados. Essa assimetria informacional compromete a confiança social e amplia o risco de manipulação, desinformação e alienação tecnológica. Diante disso, emerge como solução urgente a adoção de mecanismos efetivos de transparência no uso da IA, como a proposta de criação de um rótulo informativo capaz de explicitar a pegada energética de cada interação, indicando o consumo de água e energia associado ao processamento digital. Tal medida, análoga aos rótulos nutricionais obrigatórios em alimentos, não apenas contribuiria para mitigar a desinformação, mas também ampliaria a consciência ambiental do usuário sobre o custo real de suas ações no ambiente digital.
O uso da inteligência artificial também impõe desafios profundos relacionados à governança, à ética e à responsabilização. A forma como esses sistemas são treinados, os dados que utilizam e os interesses que direcionam sua aplicação podem reforçar desigualdades, reproduzir vieses e obscurecer processos decisórios que deveriam ser transparentes e acessíveis. A crise do multilateralismo e o enfraquecimento de organismos internacionais acentua esse problema ao dificultar a fiscalização das grandes esferas de poder e levantar questionamentos fundamentais sobre quem regula, quem fiscaliza e quem responde pelos impactos gerados. Soma-se a isso a prática histórica de deslocamento de responsabilidades ambientais dos países centrais para regiões periféricas. A tensão ficou explícita na COP30, realizada em Belém em novembro de 2025. A conferência expôs choques entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento sobre montantes e prazos para financiamento de adaptação, mecanismos de perda e dano (loss and damage), exigências por roadmaps para a redução de combustíveis fósseis e reclamações sobre participação e segurança de povos indígenas e organizações da sociedade civil. Enquanto delegações vulneráveis pressionaram por uma aceleração no financiamento de adaptação e por recursos operacionais para o Fundo de Resposta a Perdas e Danos, países ricos defenderam condicionantes e prazos mais longos, o que resultou em críticas da sociedade civil por insuficiência de ambição e pela persistência de assimetrias de poder nas negociações. A cobertura jornalística e os relatórios técnicos do evento documentaram tanto avanços, por exemplo decisões sobre triplicar financeiramente a adaptação até 2035 e o chamado pacote de Belém, quanto frustrações profundas sobre a ausência de compromissos vinculantes para a transição de combustíveis fósseis e sobre os limites ao acesso equitativo ao financiamento.
Nesse cenário de falha sistêmica e esgotamento dos modelos tradicionais de sustentabilidade, ganha força a ideia de capitalismo regenerativo. Por capitalismo regenerativo entende-se um modelo econômico que vai além da sustentabilidade convencional, que tenta apenas neutralizar impactos negativos, propondo a restauração ativa da natureza, a regeneração de ecossistemas degradados e a valorização dos recursos naturais, sociais e culturais como capital vivo. Essa perspectiva considera a Terra como capital original e reconhece que a economia deve operar em harmonia com seus ciclos, regenerando ativos ambientais, sociais e culturais, em vez de exauri-los. No paradigma regenerativo, empresas, comunidades e instituições deixam de ver a natureza como recurso a ser explorado e passam a perceber valor na biodiversidade, nos saberes tradicionais, na economia circular, na justiça social e na equidade intergeracional. Práticas concretas podem incluir agricultura regenerativa, turismo regenerativo, bioeconomia baseada em uso sustentável da biodiversidade e restauração ecológica.
Na COP30 o conceito de regeneração e bioeconomia teve visibilidade concreta. A conferência foi apresentada por alguns atores como uma oportunidade para redefinir lógicas produtivas e dar protagonismo à regeneração. O debate sobre a bioeconomia, entendido como economia que utiliza recursos naturais de modo sustentável, regenerativo e conservacionista, com justiça social e inclusão, foi central nos eventos paralelos à conferência. O setor de turismo, por exemplo, teve destaque com a proposta de turismo regenerativo, que considera comunidades tradicionais, economia local, preservação ambiental e valorização da cultura como eixos centrais de desenvolvimento, mostrando que um modelo regenerativo pode, sim, ser promotor de renda e dignidade além de conservação. Porém a imprensa e organizações da sociedade civil que acompanharam a COP30 apontaram desafios significativos. Alguns jornalistas criticaram o que chamaram de “greenwashing institucional”, alertando que o entusiasmo com bioeconomia e turismo regenerativo muitas vezes mascarou a falta de compromissos concretos para a transição energética ou para a proteção efetiva dos direitos de povos tradicionais. Diversos comunicados denunciaram que o financiamento prometido para projetos de bioeconomia era insuficiente diante da escala de investimento necessária para a restauração ecológica e que faltava clareza sobre mecanismos de monitoramento e accountability. A defesa da bioeconomia foi vista por alguns como uma forma de legitimar modelos de exploração da biodiversidade com propostas de valor econômico sem garantia real de regeneração ecológica ou justiça social. A crítica evidenciou que, sem garantias de participação comunitária real, transparência e financiamento robusto, a adoção do paradigma regenerativo poderia repetir as desigualdades e assimetrias de sempre, transferindo ônus e riscos para populações vulneráveis enquanto beneficia grandes corporações.
A compreensão dos desafios atuais também exige o reconhecimento de marcos conceituais que estruturaram esse debate ao longo do tempo. Em 1968 a noção da tragédia dos comuns alertava para os riscos da exploração indiscriminada de recursos compartilhados, seguida em 1972 pelo relatório The Limits to Growth, que evidenciou a insustentabilidade do modelo de expansão infinita em um planeta finito. No Brasil a institucionalização da responsabilidade social corporativa teve como marco a atuação do IBASE, fundado por Herbert de Souza (Betinho) na década de 1980, um importante antecedente da incorporação de práticas de sustentabilidade e justiça social no contexto empresarial. Por sua vez, o conceito ESG foi formalmente cunhado em 2004 no relatório Who Cares Wins, elaborado pelo UN Global Compact em parceria com o World Bank, durante um convite dirigido a grandes instituições financeiras para incorporar critérios ambientais, sociais e de governança às decisões de investimento.
Essa base histórica torna ainda mais evidente a urgência do cenário atual, marcado por dados alarmantes e potencialmente irreversíveis. Nos resultados mais recentes divulgados para 2024, a temperatura média global da superfície foi estimada entre 1,55 °C e 1,6 °C acima dos níveis pré-industriais (1850–1900), tornando 2024 o ano mais quente registrado até então. Este dado representa a primeira vez que a média anual ultrapassa o limiar de 1,5 °C, limite apontado pelo Acordo de Paris como o máximo seguro, embora a meta de longo prazo seja manter o aquecimento abaixo desse valor.
Além disso e reforçando o caráter urgente da crise, projeções climatológicas recentes da World Meteorological Organization indicam que entre 2025 e 2029 há elevada probabilidade de que a temperatura média global anual continue oscilando entre 1,2 °C e 1,9 °C acima dos níveis pré-industriais, com chances de ultrapassar novamente o limite de 1,5 °C e, em cenário mais pessimista, alcançar 2 °C.
Nesse contexto, a inteligência artificial pode desempenhar um papel decisivo ao apoiar decisões mais rápidas, integradas e baseadas em evidências, auxiliando na previsão de eventos extremos, no planejamento urbano resiliente, na gestão sustentável de recursos e na implementação de políticas públicas mais eficazes. Contudo, sua aplicação não é neutra e carrega implicações políticas, sociais e ambientais que exigem uma visão crítica permanente, capaz de confrontar interesses econômicos predatórios e priorizar a justiça climática, a equidade social e a preservação ambiental.
Portanto, o desafio contemporâneo não reside apenas na incorporação da inteligência artificial aos processos de governança e gestão, mas na construção de um modelo consciente, regulado e eticamente orientado que equilibre inovação tecnológica com responsabilidade socioambiental. A convergência entre IA, ESG, governança e regeneração representa uma oportunidade histórica de redefinir os modelos de desenvolvimento e promover uma transição efetiva rumo a um futuro mais justo, transparente e sustentável, desde que haja comprometimento institucional, participação social ativa e mecanismos de controle capazes de assegurar transparência e responsabilidade em todas as etapas desse processo.
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum