A Força das Águas nas tradições africanas diante da crise climática - Por Vitor Friary
“A tradição é o que tem mais de potente e valioso” (Isese Lagba)
A água lembra. Mesmo quando silenciosa e calmante para os nossos ouvidos, ela carrega memórias. É nascente, fluidez, caminho e destino. Talvez por isso, para tantas culturas africanas, as águas são divindades. Dentro dessas tradições, a água atua e se relaciona como se tivesse olhos, boca e mente. Interagir com a água, ou com qualquer elemento natural, vai além dos sentidos: atravessa um universo de símbolos e significados que revelam uma sabedoria ecológica ancestral. Os povos africanos, em suas diferentes nações, sempre compreenderam que não há separação entre natureza e espírito, entre sobrevivência e cuidado.
Durante a COP30, que aconteceu em Belém, quando o mundo voltou seus olhos para a Amazônia, recordamos o que essas tradições já sabiam: a água é a mãe de todas as formas de vida, e sem ela não há futuro possível. O planeta vive uma das maiores crises hídricas e climáticas da história: rios agonizam, oceanos se aquecem, e as comunidades mais vulneráveis são as primeiras a sentir o colapso ambiental. A espiritualidade africana nos ensina que não se trata apenas de conservar um recurso natural, mas de restabelecer uma relação ética e sagrada com as águas.
Na cosmologia iorubá, duas grandes senhoras das águas nos ensinam isso há séculos. Oxum, senhora dos rios da fertilidade, patrona do cuidado e dos encontros. Yemanjá, que na origem é igualmente orixá de rios, especialmente do Rio Ògùn, o conhecido rio da magia, na região de Oyó. Após a travessia forçada do Atlântico, Yemanjá se fez Rainha do Mar, mostrando que as águas, como a vida, sempre encontram caminhos para seguir. No Brasil, ela é mãe de todas as águas, símbolo do acolhimento e da regeneração. Ao evocarmos Yemanjá e Oxum, falamos também de equilíbrio, justiça e renascimento, valores que a COP30 precisa assumir como compromissos reais, não apenas discursos.
Entre os povos Fon, do antigo Daomé, as águas não são apenas paisagens sagradas: são centros de poder que estruturam vida social, espiritual e política. Tôhosu vela pelas águas oceânicas e pela estabilidade dos territórios; Vodun Avlekete governa o encontro entre o rio e o mar, zona de travessia, comércio, diplomacia, chegadas e partidas. Já linhagens ligadas ao Vodun Aziri expressam forças femininas relacionadas à fertilidade, à beleza e à proteção das águas profundas. Em todas essas manifestações, a água sustenta a economia, o parentesco, a saúde e a política. É por isso que a água, na tradição fon, não é metáfora: é pessoa, ancestral e agente moral. O que acontece às águas acontece ao povo, e o que acontece ao povo repercute nas águas.
Nos terreiros brasileiros, essa herança aparece em cada gesto ritual, como o balde de água fresca carregado do poço e dos rios em cima das cabeças, nos banhos de ervas, na louvação das águas antes, durante e na finalização dos rituais. A água purifica, abre caminhos, leva embora o negativo, acorda o corpo sagrado, apazigua com frescor o corpo quente adoecido do homem. E quando pensamos que as religiões afro-brasileiras foram historicamente perseguidas justamente por manterem essa relação íntima com a natureza, no mínimo ficamos estarrecidos. Cada ritual é um ato de reconciliação ecológica para os povos de terreiro, é uma prática espiritual e ambiental. Onde o Estado demora, essas comunidades cuidam. Onde a ciência debate, elas já agem.
No Brasil, ações inspiradas por essa consciência ancestral vêm se fortalecendo: encontros que reúnem sacerdotes, pesquisadores e comunidades para debater o papel do elemento água na vida espiritual, ecológica e climática. Em Cachoeiras de Macacu (RJ), no Instituto Omiô, acompanho anualmente um desses movimentos, que teve sua segunda edição em 16 de novembro de 2025 — O Festival das Águas. O encontro contou com a presença de agentes culturais do Rio de Janeiro e da Bahia, Babalorixás e Iyalorixás, como o Doté Alexander do Templo Osun Biyi e uma das mais importantes Sacerdotisas de Oxum do Estado de Osogbo na Nigéria, a Iyalodê Oladunni Olosun, Osogbo é o maior centro de peregrinação do Orixá Oxum no mundo, por onde passa o rio Osun, que sofre há anos o impacto de mineradoras instaladas na região, que vem de forma assombrosa poluindo as águas sagradas desse rio considerado sagrado para os devotos de Oxum.
O encontro teve palestras sobre a água em vários contextos, não apenas como representação espiritual para as comunidades tradicionais e de terreiro, mas como Ser Vivo, que reage às nossas interações constantes com ela. Quando a água adoece, nós adoecemos. As discussões sobre Omi durante o Festival, que significa água no idioma Yorubá, não se limitaram ao universo religioso: trataram da urgência de proteger rios e nascentes, da relação entre água, saúde e sustentabilidade, e da importância de reconhecer que a tradição africana é também uma potência ecológica. Cuidar da água, nesse sentido, é participar da mesma missão que mobilizou a COP30: preservar as condições de vida no planeta e restabelecer a harmonia entre humanos e natureza.
Neste momento em que a Amazônia se torna símbolo do futuro da Terra, a sabedoria dos povos de axé oferece uma direção: voltar a ouvir as águas. Escutá-las como seres que respiram, que sentem, que pedem respeito. Não há política climática eficaz sem espiritualidade ecológica, sem o reconhecimento de que natureza e humanidade fazem parte de uma mesma teia. Em minha primeira visita ao rio Ògùn, território de Yemanjá na Nigéria, por exemplo, enquanto eu caminhava pela margem do rio sagrado a essa divindade que na. Nigéria se cultua nos rios, encontrei conchas. Estranhei: pois não estávamos no mar. Depois aprendi que eram conchas dulcícolas, uma espécie de mexilhões que habitam os rios. Mas para mim, naquele instante, aquelas conchas falavam de outra coisa: lembravam o mar em pleno interior da África. Como se Yemanjá sussurrasse: “o que você chama de longe em algum momento já esteve perto”. A água não conhece fronteiras, ela liga mundos, povos e responsabilidades.
As reuniões da COP30 e do Festival das Águas em Cachoeiras de Macacu discutiram o futuro climático, mas vale lembrar que, para os africanos, afrodescendentes e praticantes das tradições africanas, a água sempre foi mestra e mãe. Osun nos ensina a cuidar com ternura; Yemanjá nos ensina a acolher e renovar. O que seria da Terra sem nossas mães? O que será da humanidade se esquecermos o que elas representam?
Omi ni iye, a água é vida. Isese ni o toju wa: a água é vida e a tradição é quem nos protege.
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum