Black Friday

Setecentas razões para esquecer a Black Friday

Tudo começou com um anúncio sedutor: “Tornozeleiras eletrônicas. Mais de 90% OFF! Só hoje!”

Escrito en Opinião el
Piauiense, de Teresina, e reside em São Paulo desde os três anos de idade. Além de cronista e frasista juramentado, é sócio-fundador do grupo de humor Língua de Trapo.
Setecentas razões para esquecer a Black Friday
Tornozeleiras eletrônicas. Freepik

Se tem uma coisa que eu deveria ter aprendido na vida é que Black Friday não é um feriado: é uma emboscada. Uma cilada em que o consumidor, desavisado, tropeça enquanto empurra um carrinho virtual prestes a explodir de ofertas duvidosas. Mas naquele dia, eu estava vulnerável. O café tinha acabado, o salário tinha entrado, e meu dedo (sempre mais veloz que meu juízo) estava inquieto.

Tudo começou com um anúncio sedutor: “Tornozeleiras eletrônicas. Mais de 90% OFF! Só hoje!”

Eu sei, qualquer pessoa sensata teria pensado: “Ora, por que eu precisaria de uma tornozeleira eletrônica?” Mas eu, num momento de fragilidade emocional, respondi mentalmente: “Por que não?” Qualquer coisa, com o mundo como está, era só tentar revender e ainda faturar um dinheiro em cima.

O algoritmo, percebendo meu interesse ganhando força, promoveu o que sabe fazer de melhor: empurrou ofertas ainda piores. Kit com 10! Frete grátis e cashback para compras acima de 500 unidades! E, num piscar de olhos, ali estava eu, adicionando setecentas tornozeleiras eletrônicas ao meu carrinho. Setecentas. Uma para cada dia do ano, com boa sobra para aniversários e ocasiões especiais, como eventuais prisões domiciliares de amigos e vizinhos.

Minha razão tentou protestar. “Rapaz, pare com isso de uma vez por todas. Você não organiza nem sua agenda de compromissos direito, vai administrar um estoque enorme de tornozeleiras?” Mas era tarde demais. O clique de compra no site ecoou como uma sentença.

Dois dias depois, recebo uma ligação da Polícia Federal. Não era um parabéns pelo meu novo investimento. Era mais um: “O senhor poderia, por gentileza, explicar por que comprou o equivalente ao consumo anual de tornozeleiras eletrônicas de três estados brasileiros?”

Tentei argumentar. “Foi a promoção, doutor: a Black Friday. Não estou tentando abrir uma filial do sistema prisional na minha sala.”

O policial não achou a menor graça. Dava para sentir pela respiração pesada ao telefone. Quando tentei suavizar dizendo que poderia revender o estoque para pessoas com o desejo de possuir uma tornozeleira reserva, ele desligou na minha cara.

E foi assim que me vi convocado a prestar esclarecimentos formais. Na sala, três agentes me olharam como quem observa um ornitorrinco tentando explicar sua existência híbrida. Contei tudo: o impulso, a abstinência de café, o dedo rápido. Eles anotavam, sérios, talvez criando uma categoria jurídica chamada “consumidor perigosamente compulsivo”.

No fim, confiscaram minhas tornozeleiras, aplicaram uma multa e recomendaram que, na próxima Black Friday, eu ficasse longe da internet e me amarrasse à uma cadeira. Ironicamente, com uma tornozeleira eletrônica, se ainda tivesse coragem de comprar alguma.

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