Mamãe Falei, Beauvoir e a minha boca - Por Thaís Cremasco
O que aprendi ao confrontar o machismo raso com a profundidade que ele jamais entenderá — um retrato do Brasil que ainda transforma ignorância em argumento e ódio em liberdade de expressão.
Participei de um debate com Arthur do Val, o “Mamãe Falei”. E confesso: foi uma experiência tão reveladora quanto desconcertante. Reveladora porque confirmou tudo o que o feminismo vem dizendo há décadas. Desconcertante porque, em pleno 2025, ainda há homens incapazes de distinguir crítica de ataque, pensamento de provocação e igualdade de afronta. A reação diante de uma mulher que pensa continua sendo a mesma: tentar ridicularizar o que não conseguem compreender.
Antes mesmo do debate, ele havia me pesquisado e se incomodado com um vídeo em que explico, de forma simples e acessível, parafraseando Simone de Beauvoir, que homens inseguros em relação ao próprio falo tendem a reagir com violência simbólica e moral contra as mulheres. Nesse vídeo, tento traduzir a filosofia para quem talvez nunca tenha lido uma página de filosofia. Mas é impossível que pessoas como ele entendam. Afinal, como explicar Beauvoir a quem ainda não compreendeu o conceito básico de direitos humanos?
Durante o debate, ele demonstrou não ter a menor ideia de quem foi Beauvoir. Quando citei a filósofa, reagiu com deboche, como quem ouve um nome exótico e incômodo. Enquanto eu falava sobre estruturas de poder e desigualdade, ele tentava justificar violências com falsas equivalências, aquele tipo de argumento desonesto que compara realidades incomparáveis, distorce fatos e falseia o debate. O exemplo mais claro disso foi quando afirmou, sem constrangimento algum, que a culpa pelas mortes em operações policiais seria das mães que “escolheram homens com cara de bandido”. Uma frase que sintetiza tudo o que o feminismo combate: a mistura de misoginia, preconceito racial e ignorância histórica travestida de opinião.
Mas o mais revelador foi o comportamento da sua torcida. Durante o programa, tentavam me ridicularizar pela aparência, pela idade, pela firmeza da minha fala. E agora, estão nas minhas redes sociais dizendo que eu “apanhei” no debate, uma performance típica do teatro político da extrema direita, em que mesmo quando perdem, fingem que venceram, e sua plateia comemora como se a mentira fosse conquista. É o que chamo de desonestidade performática: um espetáculo em que a ignorância é encenada como coragem e o deboche substitui o raciocínio.
O que aprendi naquele momento é que muitos homens não têm raiva do feminismo, têm medo. E com medo, comportam-se de forma reptiliana, guiados pelo instinto mais primitivo de defesa: atacar o que os ameaça, ainda que o que os ameace seja apenas uma mulher pensando. Talvez por isso tantos feminicídios sejam “justificados” por eles sob o argumento de traição ou abandono, como se a autonomia feminina fosse uma provocação intolerável. Essa insegurança, quando não elaborada, se torna perigosa, e é ela que mata mulheres todos os dias.
Simone de Beauvoir dizia que o homem se coloca como o “sujeito universal” e define a mulher como o “outro”. Mas quando o “outro” começa a falar, o centro desaba. É aí que nasce o ressentimento masculino, o ódio disfarçado de racionalidade, o deboche como forma de defesa.
E foi ali que entendi algo essencial: o machismo não suporta a minha boca, não pelo tamanho dela, como eles dizem, mas pelo que ela significa. Minha boca fala, questiona e nomeia o que sempre quiseram calar. E é exatamente isso que assusta.
A misoginia raramente se assume como tal. Ela se esconde no riso irônico, na interrupção constante, nas provocações disfarçadas de humor. É o “mansplaining” travestido de debate. É a “liberdade de expressão” usada como licença para o discurso de ódio. É o método da extrema direita: transformar o diálogo em duelo e o pensamento em espetáculo. No teatro político deles, ouvir ideias parece loucura, reflexão soa como ameaça e a complexidade é tratada como desconexão. Afinal, pra quem vive de superficialidade, ideias profundas soam como heresia.
O feminismo ensina a nomear o que antes era naturalizado: o desrespeito, a interrupção, o riso condescendente. Ensina que não é falta de humor, é autodefesa. Que não é ódio aos homens, é amor à dignidade. Estudar o feminismo é, antes de tudo, um ato de humanidade, inclusive para os homens, que poderiam ser mais livres se não vivessem reféns de provar a própria virilidade.
O debate terminou, mas a lição ficou. Descobri que não há nada mais perigoso para um homem inseguro do que uma mulher pensante, porque diante de ideias, eles derretem como mitos diante da luz. Enquanto eles me analisavam pra tentar me atingir, eu os observava pra compreendê-los, e percebi que aprendi mais sobre a fragilidade do patriarcado do que eles aprenderão sobre filosofia em toda uma vida de certezas vazias.