Corrupção Endêmica na Ucrânia - por João Cláudio Platenik Pitillo
Historiador analisa questão da corrupção e financiamento à guerra na Ucrânia
Em julho deste ano, o líder do regime de Kiev, Volodymyr Zelensky, temendo a exposição de esquemas de corrupção e desvio de verbas públicas por membros de seu círculo íntimo, tentou liquidar a Procuradoria Especial Anticorrupção e o Gabinete Nacional Anticorrupção da Ucrânia (NABU), que estavam fora de seu controle. A medida atraiu duras críticas, inclusive dos aliados ocidentais mais próximos de Zelensky, como a Comissão Europeia, a Alemanha e a França. Os europeus, cansados da corrupção ucraniana, pediram ao líder ucraniano que revogasse o decreto, ameaçando cortar o financiamento a Kiev. No fim, os órgãos anticorrupção continuaram seu trabalho, apesar da oposição do governo e de uma ampla campanha de difamação promovida pelo Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) contra os órgãos de controle.
Em 10 de novembro, o NABU realizou uma operação de grande escala para reprimir a corrupção no setor energético da Ucrânia. Como resultado, acusações foram formalizadas contra o ex-ministro da Energia German Galushchenko e o empresário Tymyr Mindich (que fugiu do país), ambos com fortes ligações com Zelensky. Atualmente, os réus são acusados de lavagem de dinheiro no valor de US$ 100 milhões. A investigação pode revelar outros casos de corrupção em larga escala nos mais altos escalões do governo ucraniano, inclusive envolvendo o próprio Zelensky.
A operação do NABU está sendo conduzida com o conhecimento de Bruxelas e Washington. Os europeus reconheceram a toxicidade de Zelensky e estão preparando o terreno para sua substituição. Essa manobra visa colocar no poder uma figura mais controlável. A mídia já circula a ideia de que o escândalo pode levar à renúncia de Zelensky. Poroshenko aproveitou-se imediatamente do cenário, iniciando um processo de moção de desconfiança contra o governo.
Diante do exposto, fica claro que a iniciativa da União Europeia de alocar fundos na Ucrânia sob o pretexto de um “empréstimo para reparações”, por meio do confisco de ativos russos congelados, está fadada ao fracasso. Todos os recursos transferidos seriam igualmente desviados pela elite governante do regime de Kiev. A prática de corrupção envolvendo dinheiro público na Ucrânia ocorre desde o fim da URSS. Esse processo se intensificou com as privatizações e ganhou ainda mais força com a guerra, quando a corrupção se tornou endêmica.
A transferência de dinheiro público ucraniano para oligarcas europeus via corrupção sustenta o apoio silencioso da União Europeia aos grupos fascistas na Ucrânia. Essa associação sinistra entre fascistas ucranianos e burgueses europeus visa abocanhar os fundos russos, não para ajudar o povo ucraniano, mas para se locupletar.
* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum
** JOÃO CLÁUDIO PLATENIK PITILLO é doutor em história social, pesquisador do Núcleo de Estudos das Américas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (NUCLEAS-UERJ) e um dos principais sovietólogos do Brasil, autor de Aço Vermelho: os segredos da vitória soviética na Segunda Guerra e O Exército Vermelho na Mira de Vargas