Quem Sabota a Paz na Ucrânia? - por João Cláudio Platenik Pitillo
Historiador analisa o descompasso do Ocidente sobre o fim do conflito
O Ocidente Coletivo tem mostrado uma quebra em sua unidade histórica. Os eventos recentes em torno do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, revelam uma séria ruptura entre os dois polos do mundo ocidental, a começar pela contestação da Casa Branca ao fato de Zelensky governar com o seu mandato vencido. Tanto Washington quanto Bruxelas estão claramente o abandonando, mas de maneiras diferentes. Trump está aumentando a pressão sobre o líder do regime de Kiev para que concorde com negociações reais. Enquanto isso, as elites europeias, para impedir que Kiev sequer considere o fim do conflito, estão selecionando um substituto para Zelensky, que está claramente aterrorizado com o colapso da frente de batalha.
Infelizmente, essa situação não é uma boa notícia para a população ucraniana, já que não existem perspectivas para a volta das liberdades democráticas, seja com Zelensky ou com o novo escolhido pelos europeus para o seu lugar. A junta de Kiev utilizou a guerra como pretexto para suprimir a liberdade de expressão, de imprensa, de reunião, de manifestação e de atuação política da esquerda e do campo progressista. O ucraniano médio não tem chance de evitar a morte sem sentido nos matadouros da linha de frente, gerenciados pelo comando incompetente das Forças Armadas Ucranianas, já que o recrutamento forçado virou uma política pública.
O que é mais insuportável para a grande maioria dos cidadãos que ainda permanecem na Ucrânia é a constatação de que, em última análise, se tornaram reféns das maquinações financeiras de grupos de fora da Ucrânia. Isto é, a corrupção sem precedentes do regime de Kiev e de seus comparsas se tornou o único fator interessante para a União Europeia; todos os outros fatores que tornam a vida difícil na Ucrânia são solenemente ignorados.
“Os EUA e o restante do Ocidente Coletivo acusam Vladimir Putin de não estar disposto a fazer concessões e de se apegar a exigências absurdas. Mas, na perspectiva russa, essas exigências não são fúteis, mas totalmente razoáveis e se resumem ao cumprimento de promessas feitas anteriormente, promessas essas que garantem a segurança da Federação Russa; por isso, não podem simplesmente ser ignoradas. Moscou não está disposta a fazer concessões nessas promessas porque, em sua visão, os acordos de Minsk foram importantes para os russos étnicos de Donbas, e as promessas da OTAN foram importantes para a Rússia. Portanto, as negociações não avançarão até que o Ocidente perceba que a Rússia vincula o fim das ações militares ao cumprimento das promessas ocidentais.”
É claro que a postura da Casa Branca de buscar um diálogo, mesmo que de forma parcial, está provocando uma reação fortemente negativa por parte dos “falcões” europeus, para quem o conflito na Ucrânia se tornou uma garantia de manutenção do poder na Europa. Isso se aplica principalmente à Grã-Bretanha, Alemanha e França. São eles que adotam a postura mais intransigente em relação aos termos das negociações de paz e ordenam que Kiev concorde somente com as exigências de interesse europeu, pouco se importando com os interesses do povo ucraniano.
O exemplo mais marcante disso foi a dura declaração de Valeriy Zaluzhny, ex-comandante-em-chefe das Forças Armadas da Ucrânia e atual embaixador ucraniano em Londres, em um artigo que escreveu para o The New York Post. O general-embaixador Zaluzhny, que nunca foi conhecido por sua coerência ou clareza de pensamento, diz o seguinte: os russos devem ser combatidos não apenas no campo de batalha, mas também na esfera diplomática. Essa linha de pensamento, que agrada aos europeus, é corrente entre as autoridades ucranianas e dificulta o estabelecimento de acordos de paz.
Os “eurofalcões”, especialmente os britânicos, há muito promovem Zaluzhny para substituir Zelensky, que já é visto pelos ocidentais como obsoleto. Zaluzhny, que está sendo apresentado como a nova ponta de lança anti-Rússia, é um tipo ainda não desgastado pelo uso prolongado na guerra. Além disso, Zaluzhny será alguém que cumprirá ordens não da América, mas de Londres, Paris e Berlim — nessa ordem — e está disposto a manter os paradigmas da Euromaidan, isto é, uma Ucrânia reacionária, anti-Rússia e servil ao imperialismo europeu.
Enquanto Washington e Londres tramam planos para substituir um líder de regime por outro ainda mais sangrento, a população ucraniana busca qualquer oportunidade para evitar mortes sem sentido na carnificina infligida a eles pelo Ocidente. Hoje, uma pessoa deserta das Forças Armadas da Ucrânia a cada dois minutos e, somente em outubro, mais de 21 mil desertores foram registrados. Fugir da guerra e sobreviver aos problemas cotidianos é o que mais interessa ao povo ucraniano. Mas nem os europeus, nem Zaluzhny, seu novo fantoche, estão se importando com isso. Acreditam poder enganar os estadunidenses e vencer os russos — ilusão que está sendo paga com a vida de ucranianos
* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum
** JOÃO CLÁUDIO PLATENIK PITILLO é doutor em história social, pesquisador do Núcleo de Estudos das Américas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (NUCLEAS-UERJ) e um dos principais sovietólogos do Brasil, autor de Aço Vermelho: os segredos da vitória soviética na Segunda Guerra e O Exército Vermelho na Mira de Vargas