Reflexões

Futebol é um universo paralelo ou representação fiel do mundo real? – Por André Lobão

Com o tempo, tudo que era absurdo e violento no universo do futebol foi sendo aceito e naturalizado

Escrito en Opinião el
Jornalista de formação, especialista em Mídias Digitais, escritor e videomaker. Atualmente é jornalista do Sindipetro-RJ.
Futebol é um universo paralelo ou representação fiel do mundo real? – Por André Lobão
Imagem Ilustrativa. Pixabay

O escritor Nelson Rodrigues era um notório torcedor do Fluminense, tendo publicado em sua coluna no jornal Última Hora, entre os anos de 1951 e 1961, a série de contos “A vida como ela é”, retratando o universo da vida real do cotidiano das pessoas comuns a partir de suas observações.

Começo citando Nelson Rodrigues, pois não há como não falar sobre o universo do futebol a partir da referência que foi a obra do cronista e sua paixão e observação da realidade do tempo em que viveu. Era um Brasil e um Rio de Janeiro do meio do século XX, um país e uma cidade em que a sociedade já vivia suas contradições morais.

Os falsos puritanos

O futebol nunca foi o universo dos puritanos. Das arquibancadas e gramados, o esporte é um recorte fiel do contexto de qualquer época. Malandragem, deslealdade e preconceito sempre foram naturalizados. Meu amigo filósofo e pesquisador, Lúcio Massafferri, editor dos canais Flu Press e Portal Fio do Tempo, sempre cita a naturalização da violência no universo dos estádios quando cita o “saco de mijo” que era despejado contra a multidão na geral do Maracanã e a agressão verbal às mulheres que iam de short ao estádio nos anos 1970. Eu ainda lembro das “gracinhas” que minha mãe ouvia dos desbocados nas arquibancadas quando me levava, ainda criança, ao velho Maracanã em dias de jogos do Fluminense.

Com o tempo, tudo que era absurdo e violento no universo do futebol foi sendo aceito e naturalizado. Xingar jogadores, treinadores, juízes e torcida adversária, até hoje é considerado normal. Até a morte de alguém por briga entre torcidas organizadas é considerado já normal.

O chincheiro

Lembro de um centroavante que jogou no Fluminense, na chamada Máquina Tricolor, entre os anos de 1976/78. Quando o argentino Doval pegava na bola a torcida adversária o chamava de “chincheiro”. Já adulto, fui descobrir que era o termo usado para usuário de drogas.

Anos depois assisti ao jogador sendo chamado de assassino pela torcida do Flu, um verdadeiro linchamento moral. E quantos juízes eu também já xinguei e ainda xingo por prejudicarem o Fluminense.

Me lembro, mais uma vez, de Nelson Rodrigues quando recordo que ele uma vez disse que no Maracanã ninguém respeita nem um minuto de silêncio, o que é verdade até hoje. E também lembro que nem o hino nacional brasileiro é reverenciado.

Mulambos e tricoletes

Hoje, esse universo hostil é questionado, entidades que dirigem o futebol tentam impor punições contra cânticos homofóbicos e preconceituosos. Os tricolores cariocas chamam os flamenguistas de “mulambos”, termo classificado no Aurélio como pessoa que usa pano velho, farrapo, uma pessoa pobre e desclassificada socialmente. Já a torcida do rubro-negro se refere aos torcedores do Flu como “tricoletes”, que significam homens afeminados, torcedores de orientação sexual gay, da mesma forma que os corintianos e palmeiras se referem aos torcedores do São Paulo. Em Belo Horizonte é a mesma coisa entre as duas maiores torcidas, dos clubes Atlético Mineiro e Cruzeiro, sempre no tratamento recíproco por meio da homofobia. E por aí vai na rivalidade entre torcidas. Um universo machista e preconceituoso que é ainda naturalizado.

Um universo hostil

Dirigentes, treinadores e jogadores também absorvem essa hostilidade. A final da Libertadores, recentemente, conquistada pelo Flamengo, em Lima, na vitória por 1 a 0 contra o Palmeiras, mostrou a face canalha do futebol. Faltas desleais, encenações de faltas recebidas e hostilidades verbais entre jogadores passam ao vivo na tela da TV, sendo consideradas situações normais. Aliás, pelo visto, a grande mídia abraçou de vez a polarização, criando a rivalidade da vez, que dá lucro, entre Flamengo e Palmeiras.

No contexto do domínio das narrativas pela extrema direita, essas imagens são celebradas como mostra e fundamentação da masculinidade na sua essência; as batalhas e seus heróis surgem no universo do futebol. O gol e a defesa são celebrados da mesma forma que uma falta violenta ou um ato de intimidação contra um adversário. Alguém lembra da intimidação do então jogador do Fluminense, Felipe Melo contra o jogador do River Plate, De la Cruz, atualmente no Flamengo, em uma partida em Buenos Aires, na Libertadores de 2023, conquistada pelo tricolor carioca?

O racismo no futebol

Em diversas partidas entre times brasileiros contra equipes de países de língua espanhola na América do Sul há situações de racismo explícito, que são denunciadas por jogadores brasileiros. Porém, do lado adversário, são normalizadas. Torcedores argentinos, chilenos e uruguaios que vêm acompanhar seus times são, invariavelmente, espancados pelas forças de segurança dos estádios brasileiros, sob alegação de repressão aos atos de ofensa racial promovidos pelos estrangeiros.

Um estádio de futebol, hoje, é o que foi um dia o Coliseu de Roma, em suas batalhas de morte. A necessidade de humilhação do adversário, o jogo da vida ou morte ganha repercussão na grande mídia. Não há espaço para derrotados, injustiçados e bobos.

Abel Braga e a homofobia gratuita

Quando o treinador Abel Braga, novo técnico do Internacional-RS, diz que quer seus jogadores jogando como “homens”, dizendo que não quer que usem camisa de treino cor de rosa, e é ovacionado em mídias sociais, como um cara “raiz”, o contexto revela o quanto o mundo do futebol reflete o tempo e a sociedade que vivemos.

O técnico anterior do time gaúcho, o argentino Ramón Diaz, já havia soltado que o futebol não era ambiente para mulheres, expondo seu machismo.

Campanhas não podem ser somente feitas com faixas ou camisas alusivas. É preciso ir além, e o buraco, como dizia João Saldanha, é mais embaixo.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.

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