Michellismo: Michelle cria movimento fundamentalista com Bolsonaro na prisão e mira o Planalto
Financiada por Valdemar da Costa Neto, Michelle comanda o eleitorado feminino conservador, essencial para a disputa presidencial em 2026, e prega uma desejada autocracia evangélica no Brasil no livro Edificando a Nação.
A guerra declarada por Michelle Bolsonaro (PL) aos enteados Flávio, Carlos, Eduardo e Jair Renan, uma semana após Jair Bolsonaro (PL) ser encarcerado em uma cela na Superintendência da Polícia Federal (PF), em Brasília, para cumprimento dos 27 anos e 3 meses de prisão por liderar um golpe de Estado, expõe um movimento - perigoso - que já era acompanhado nos bastidores da política e pelo próprio clã do ex-presidente.
Michelle nunca escondeu suas pretensões políticas. E, desde que Bolsonaro deixou o Planalto, vem sendo financiada por Valdemar da Costa Neto para construir seu próprio movimento, cooptando aliados e construindo um capital de votos usando vultosos recursos do PL.
Ao assumir a presidência do PL Mulher, com salário que ultrapassa os R$ 40 mil mensais, a ex-primeira-dama passou a perambular pelo Brasil comandando atos eleitoreiros travestidos de um verniz religioso, com discursos que combina ataques ferozes a adversários políticos a pregações, sempre iniciando com orações, mãos em prece e olhar singelo - ao melhor estilho "Santinha do pau oco", como definiu a ex-aliada Joice Hasselmann.
Em cada capital ou grande centro, Michelle reúne mulheres e usa o nome de Bolsonaro e de Deus para defender uma "submissão saudável" aos maridos, enquanto incita influenciadoras da burguesia local a se lançarem candidatas para ajudarem os "homens de bem" - quase sempre caciques da política ou do empresariado na região.
Tudo isso bancada por Costa Neto, que destina, desde 2023, o robusto orçamento de cerca de R$ 860 mil mensais do fundo partidário do PL para Michelle para participar dos atos, com deslocamentos em jatinhos pagos à parte - o que causou inveja e ciúme na sigla e no próprio clã, como em Eduardo, que reclamou de não receber ajuda do partido em sua conspiração nos EUA.
Os resultados puderam ser visto nas eleições municipais. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que o número de mulheres filiadas ao PL aumentou 14% entre 2023 e 2024, chegando a 995 mandatárias — mulheres que ocupam cargos eletivos.
Nos bastidores, a avaliação é que Valdemar Costa Neto viu em Michelle uma figura carismática, de apelo popular, mas considerada politicamente inexperiente e, portanto, mais facilmente controlável. A estratégia seria fortalecer seu nome como um dos principais ativos eleitorais do PL, especialmente com Bolsonaro preso.
No entanto, o que se está vendo é a criatura engolindo o próprio criador. Em junho, lançou, com financiamento do PL e ao lado do presidente do PL, o livro "Edificando a Nação: sobre Bases e Valores", em que sinaliza as estruturas de uma desejada autocracia evangélica no Brasil.
Na divulgação dos e-books em um hotsite dentro do endereço do PL, Michelle sinaliza o seu projeto político, que envolve a filiação de mulheres conservadoras à sigla "para a realização do sonho de um Brasil com estruturas políticas voltadas para o serviço a pátria e para a formação de uma sociedade justa e cristã".
O que se viu em Fortaleza, onde declarou guerra aos enteados, foi a concretização do movimento, com Bolsonaro calado dentro da cela. Michelle orou ao lado de Eduardo Girão (Novo-CE), seu candidato ao governo do Estado, antes de detonar sua metralhadora giratória humilhando publicamente o deputado federal André Fernandes (PL-CE), que teve aval do ex-presidente para uma costura política com Ciro Gomes, recém embarcado no PSDB de Tasso Jereissati.
Além de Girão, Michelle apoia Priscila Costa, vereadora de Fortaleza, ex-deputada federal e atual vice-presidente nacional do PL Mulher, para a candidatura ao Senado. Na costura feita com Ciro, André colocou o pai, o deputado estadual Alcides Fernandes (PL-CE) como candidato ao Senado. E foi desautorizado por Michelle.
Após acionar a bomba no Ceará e virar alvo dos enteados, que reclamaram da postura autoritária da madrasta, a ex-primeira-dama viu a janela de oportunidades para criar o Michellismo, seu próprio movimento político, e ir à forra.
É público e notório que Michelle não suporta os filhos de Jair Bolsonaro, especialmente Jair Renan e Carlos Bolsonaro, com quem teve desavenças públicas.
Tampouco, a madrasta se importa com Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que está isolado politicamente em sua fuga conspiriacionista aos EUA. Faltava Flávio, com quem nutria um relacionamento amistoso, até o ataque desferido pelo senador nesta segunda-feira.
Foi ele quem classificou a madrasta como "autoritária" - sendo ecoado pelos irmãos - e afirmou que a madrasta "não é política e precisa entender que a forma de tomar uma decisão às vezes é mais importante do que a própria decisão”, em declaração machista e misógina, tal qual o pai preso.
Na nota, Michelle rebate especialmente esse ponto ao dizer que "antes de ser uma líder política, eu sou mulher, sou mãe, sou esposa", em aceno às milhares de mulheres que comanda atualmente e que vai apresentar como trunfo ao PL para evitar qualquer reprimenda institucional.
Michelle sabe que hoje controla o eleitorado feminino, que foi o grande responsável pela vitória de Lula em 2022 e será essencial para a disputa presidencial de 2026.
Mesmo entre as conservadoras, muitas mulheres sentem ojeriza do machismo que recrudesceu com a ultradireita neofascista, que tem em Bolsonaro sua principal face.
Com Bolsonaro preso e a direita se alinhando ao projeto de Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) na terceira via, a ex-primeira-dama busca trazer para o colo do Michellismo os órfãos do bolsonarismo, se apresentando como mãe para os milhões de eleitores ceivados com ódio e mentiras por Jair Bolsonaro.