Governo, parlamento e democracia - Por Emir Sader
Será mais fácil reeleger o Lula do que eleger um Congresso menos ruim que este
Será mais fácil reeleger o Lula do que eleger um Congresso menos ruim que este. O Lula tem aprovação alta agora, desde o Tarifaço do Trump, enquanto o clima político de despolitização favorece a reeleição dos deputados.
Assim que um deputado é eleito, o primeiro que passa a fazer e promover sua reeleição, através da política de favorecimentos do seu eleitorado. Mediante favores concretos, empregos, viagens e outras prebendas, para garantir que esse eleitorado se mantenha fiel. Não pela sua atuação em favor do povo e do pais em geral, mas voltado especificamente sobre os setores que votaram nele.
Dessa forma, a eleição para o Congresso aparece sempre como menos importante, com menor destaque, sem que estes mecanismos sejam destaque e tema de denuncia das formas de corrupção moral dos eleitores.
Os Congresso tendem assim a ser o contraponto dos presidentes eleitos com grande apoio popular e como expressão de grandes debates nos meios de comunicação. Não por acaso o Lula foi eleito de novo presidente e tende a se reeleger, pelo resultado do seu governo, das medidas sociais em favor da massa da população, dos discursos que priorizam os grandes temas nacionais e internacionais.
A grande politização e apelo à consciência do povo nas eleições majoritárias contrasta com sua ausência nas eleições parlamentares, sem espaço na mídia e sem interesse da população.
Essa diferença termina sendo constitutiva do funcionamento do sistema político. O presidente mais progressista e o Congresso mais conservador.
Os temas sociais costumam ser prioritários nas políticas de governo, enquanto o Congresso se concentra, em geral, nos interesses menores.
O debilitamento político das eleições parlamentares se estende também ao enfraquecimento dos partidos políticos, que tem bancadas parlamentares. A própria composição dos partidos tem o peso dos parlamentares e suas relações com o Congresso.
É um elemento de fraqueza da democracia esse nível baixo do Congresso, dos seus debates e das suas decisões. O sistema termina sendo presidencialista, concentrando no executivo grande parte das decisões e do peso na vida politica.
Mesmo sem maioria no Congresso, o Lula faz um bom mandato, conseguindo impor as prioridades dos governos do PT, negociando com os partidos do centro, mas principalmente retendo a iniciativa política, que acaba sendo determinante na vida política.
A reeleição do Lula é muito provável, enquanto que os dirigentes desgastados do Congresso não pode garantir quanto esse desgaste dificulta ou até mesmo impedirá sua reeleição.
Há parlamentares que se reelege há vários mandatos, mas quase sempre sem grande destaque das suas posições, concentrando os mecanismos nas políticas de favorecimento despolitizado do eleitorado.
Um sistema político com essas características não favorece a politização da massa da população e o fortalecimento dos próprios partidos políticos. O PT é o partido do Lula. Esta é a principal característica do principal partido do país.
Nada garante que as eleições do próximo ano revertam essa situação. Talvez esta vez o desgaste do Congresso dificulte a reeleição dos seus principais dirigentes. Mas mesmo isso não garante que se renove a representação parlamentar.
Para a esquerda é um grande desafio, mesmo se o presidencialismo hoje favoreça o Lula e o próprio PT. Mas a esquerda precisa na apenas de um Lula reeleito, mas de um PT renovado e fortalecido.
**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.