Noite de sol – Por Luis Cosme Pinto
A sandália dourada, em contraste com o pálido concreto, é faísca na escuridão
O motoqueiro entregou a última pizza, a porta de aço do boteco baixou, o juiz trilou o apito final no jogo da TV. Só mais um zero a zero naquela noite que já vestia pijama e pantufas para virar madrugada.
Dois ou três minutos nos separavam da meia-noite. “É tarde para bater perna”, me avisaram. “Esconde o celular bem escondido”, insistiram. Sigo as recomendações, mas o que sinto e enxergo são esquinas plácidas e a suavidade do vento.
Vejo mais. Atrás do vidro, o vigilante. Dentro do carro, o motorista a digitar seu telefone. A mulher esbaforida com uma criança no colo e suas sacolas a caminho do metrô.
Sigo dois homens de copos descartáveis na mão. Está claro como a lua que os dois têm mais sede que sono. A dupla anda rápido, desconfio que vai em busca de música, de alegria, de novidade. De vida, dá para resumir. Sigo por seguir, apenas porque vamos para o mesmo lado.
Então, a surpresa: tal qual pepita, algo reluz. Douradas e brilhantes, lá estão duas sandálias de salto alto e fino. Dessas de casamento, dessas que as mulheres só calçam depois de pintar unhas e limar calcanhares. As sandálias não estão jogadas, foram arrumadas ali. Uma ao lado da outra. Podiam rodopiar na pista de dança, enfeitar vitrine ou desfilar em lindos pés 37, no máximo 38...mas repousam no piso duro e sujo.
Contemplo, solitário, o tesouro que cruzou meu caminho. A sandália dourada em contraste com o pálido concreto é raio de sol no fim da noite.
Minha mãe, que adorava sandália de salto, tinha uma expressão para essa tonalidade de cinza moribundo: “é cor de burro quando foge”. Se o burro fugiu, o ouro, estático, me encara. Olho com mais atenção. São novas, as sandálias. Sola quase intacta, salto pouco rodado, tiras e fivelas cintilantes e o mais incrível: não estão sozinhas. A poucos metros, na mesma calçada, outro par de sandálias douradas quebra de vez a monotonia.
Não sei você, querida leitora e camarada leitor, mas eu me senti e ainda me sinto diante de um mistério: quem abandonou as sandálias? Por quê? Como os pés enfrentaram as calçadas sujas e ásperas? As donas das sandálias caminharam descalças pra casa, pediram um carro de aplicativo? Sempre ouvi histórias sobre a paixão feminina por sapatos...o que aconteceu?
O jornalismo me ensinou que o melhor a fazer diante de notícia nebulosa é perguntar a quem entende.
Juan, 56 anos, uruguaio de Montevidéu, é o homem certo. Há vinte anos recupera malas, bolsas e sapatos. Cobra pouco, dá garantia e freguesia não falta.
Ele interrompe o conserto de um cinto para me atender. Diante da foto das sandálias na calçada, põe e tira os óculos, analisa e então responde com a segurança de um detetive de histórias policiais: “Duas amigas saem juntas. Eufóricas com o encontro bebem, paqueram, repetem as doses, se divertem. Ao deixar o bar, percebem que o equilíbrio sobre o salto agulha não é mais o mesmo. Se desfazem do incômodo. Voltam descalças e livres”.
Será que estavam acompanhadas? “Nada, as mulheres não precisam mais de namorado pé-de-chinelo para curtir a boemia”, o sapateiro enfatiza a frase de efeito em fluente portunhol e se concentra na fivela, também dourada, do cinto caramelo.
*Luis Cosme Pinto é autor de “Acabou, mas continua”, da editora Cachalote.
**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.