Opinião

“O Brasil no espelho”: Quais lições podemos tirar da pesquisa Quest? - Por Rodrigo Perez

O livro divide o Brasil em nove identidades políticas e cada uma delas apresenta opiniões divergentes sobre os principais temas de interesse nacional

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Nasceu no Rio de Janeiro em 30/01/1986, é historiador, tendo se formado na educação pública das primeiras letras ao doutorado. Vivendo em Salvador desde 2017, onde atua como professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia, o autor pesquisa a história do pensamento político brasileiro e os usos do passado no texto historiográfico e nas narrativas políticas, temas que foram explorados nos livros “As armas e as letras: a Guerra do Paraguai na memória oficial do Exército brasileiro”, publicado pela editora Multifoco em 2013, e “Conversas sobre o Brasil: ensaios de síntese histórica”, pela editora autografia em 2017.
“O Brasil no espelho”: Quais lições podemos tirar da pesquisa Quest? - Por Rodrigo Perez
Imagem ilustrativa. Pixabay Free

Acaba de ser publicado pela Globo Livros a obra “O Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros”, assinada pelo cientista político Felipe Nunes, CEO da Quest, uma das mais prestigiadas empresas especializadas em pesquisas de opinião pública que temos no Brasil. O livro apresenta os dados de um ambicioso trabalho de investigação sobre os valores da sociedade brasileira. Os dados são muitos e complexos, e incontornáveis para intelectuais e lideranças políticas que tenham o interesse em entender o país fora da histeria ideológica que na última década pautou o debate político entre nós, à esquerda e à direita.

O livro divide o Brasil em nove identidades políticas: conservadores cristãos (27%), dependentes do Estado (23%), agro (13%), progressistas (11%), militantes de esquerda (7%), empresários (6%), liberais sociais (5%), empreendedores individuais (5%), extrema-direita (3%). Cada uma delas apresenta opiniões divergentes sobre os principais temas de interesse nacional, como economia, assistência social, segurança pública, democracia, ditadura, costumes etc. Essas “bolhas” (termo usado pelo próprio Felipe Nunes) possuem considerável grau de “calcificação”, ou seja, as possibilidades de trânsito entre elas são restritas, o que sugere o estreitamento da retórica, entendida como técnica de convencimento através da palavra. Todos estão tão confortáveis nas suas bolhas que têm pouco interesse em ouvir opiniões diferentes.

É certo que toda classificação demanda critérios que não são imunes às premissas ideológicas e que sempre podem ser questionados, discutidos e criticados. Por ora, desejo me concentrar em um aspecto específico da pesquisa, justamente aquele que me parece ser o mais importante e urgente para a esquerda. O cruzamento das informações nos permite pensar o “brasileiro médio” como um tipo ideal, no sentido em que Max Weber utilizava a categoria: um modelo abstrato que não necessariamente existe na realidade neste formato, mas nos ajuda a compreender o fenômeno analisado. Dito isso, sim, o “brasileiro médio” é conservador nos costumes, o que não quer dizer que seja “fascista”, ofensa usada e abusada pela esquerda nos últimos anos. A extrema-direita puro sangue contempla apenas 3% da população, bem menor do que o capital eleitoral de Jair Bolsonaro nas duas últimas eleições presidenciais. Se é verdade que toda a extrema-direita vota em Bolsonaro, também é verdade que nem todo eleitor de Bolsonaro é de extrema-direita. Já sabíamos, ainda que intuitivamente. É bom ver a intuição confirmada nos números.

Mas o que significa ser “conservador nos costumes”? A interpretação dos dados apresentados pela Quest permite ensaiar uma resposta. “Conservador nos costumes” é aquele que vê na casa, no espaço doméstico, um lugar que precisa estar seguro da criminalidade e das ideias consideradas desestabilizadoras da estrutura familiar. Isso, porém, não significa, necessariamente, negar direitos fundamentais para as minorias sexuais, raciais e de gênero. Para o brasileiro médio, direitos como adoção de crianças, união civil e igualdade no mercado de trabalho devem ser universalizados. Entretanto, “ideologia de gênero”, intervenção hormonal em crianças para fins de transição de gênero, ameaça aos espaços femininos de intimidade e a ampliação da política de cotas para além do acesso de pobres e negros aos cursos de graduação nas universidades públicas são projetos potencialmente rejeitados e profundamente identificados com a esquerda, o que explica a deterioração do prestígio desse campo político junto à maioria da população.

O brasileiro médio deseja viver em um país onde os direitos fundamentais estejam universalizados, mas não quer se sentir prejudicado neste processo, não deseja ser um perdedor na competição social. A lição me parece muito explícita: a estratégia que deve conduzir a atuação da esquerda precisa estar focada na universalização de direitos, sem ceder à tentação de tensionar nos costumes. Na casa, entre quatro paredes, cada um faz o que quiser. Na praça, no espaço público, todos precisamos ser contemplados pelos mesmos direitos. É a velha e boa utopia republicana.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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