OPINIÃO

O outro negacionismo: como a Globo reescreve seu próprio passado - Por Francisco Fernandes Ladeira

Principal conglomerado midiático brasileiro segue reescrevendo a história. Infelizmente, boa parte da esquerda negligencia essa questão, direcionando todas as suas munições contra a extrema direita

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Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Professor da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Especialista em Jornalismo pela Faculdade Iguaçu (FI). Autor de quinze livros, entre eles "A ideologia dos noticiários internacionais" (Editora CRV).
O outro negacionismo: como a Globo reescreve seu próprio passado - Por Francisco Fernandes Ladeira
Logo da Globo. Reprodução

Quando se fala em negacionismo histórico ou em reescrever o passado para atender a interesses de um determinado viés ideológico, muitos pensam na produtora de extrema direita Brasil Paralelo. De fato, eles prestam um enorme desserviço ao divulgarem suas versões sobre fatos emblemáticos da história do Brasil, como a escravidão e a matança de indígenas.

No entanto, um outro negacionismo histórico está em curso no Brasil. Este, travestido de jornalismo profissional e entretenimento. Trata-se das narrativas divulgadas pelo Grupo Globo sobre acontecimentos recentes, visando principalmente ocultar seu próprio viés golpista.

O filme "Ainda Estou Aqui" – primeiro original Globoplay no gênero – tem se transformado aos poucos em uma espécie de "memória coletiva da ditadura". A truculência militar é até abordada, porém nada se diz sobre o apoio da grande imprensa ao golpe de 1964 e ao regime autoritário que durou duas décadas. Assim, o conglomerado midiático da família Marinho é, de certa forma, absolvido por seu apoio à ditadura.

Por falar nisso, na primeira eleição direta para presidente da República após o regime de exceção, em 1989, o Grupo Globo apoiou claramente o candidato eleito, Fernando Collor de Mello. No entanto, esse apoio é ocultado no documentário "Caçador de Marajás". Na produção, Collor é apresentado como um político de ascensão meteórica: de um desconhecido governador de Alagoas ao Palácio do Planalto. Evidentemente, naquele cenário informacional, isso não seria possível sem o aval da Rede Globo – o que, estrategicamente, é omitido na produção da Globoplay.

Uma década atrás, o Grupo Globo teve papel fundamental nos acontecimentos que desencadearam o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff.

Porém, nos últimos anos, o único "golpe" que os noticiários mencionam é a "trama golpista" de Bolsonaro e seus comparsas. Mais uma vez, a família Marinho tem sido bem-sucedida em negar sua veia antidemocrática.

Ainda sobre o "mito", em 2018, o Grupo Globo – de maneira envergonhada, é verdade – apoiou Bolsonaro em sua aventura para ocupar a presidência da República. O mais importante era impedir a volta do PT ao poder. Na época, o termo utilizado para se referir a Bolsonaro não era "extrema direita", mas o eufemismo "conservador".

Com o previsível desastre do governo Bolsonaro, o Grupo Globo direcionou seu jornalismo para construir a narrativa de que jamais o apoiara. Só faltou lançar um editorial com o título "A culpa não é minha, eu votei no Amoedo". Filho feio não tem pai.

Dessa forma, o principal conglomerado midiático brasileiro segue reescrevendo a história. Infelizmente, boa parte da esquerda negligencia essa questão, direcionando todas as suas munições contra a extrema direita. Eles são inimigos, mas nem de longe são os mais poderosos. Se não fosse o antipetismo impulsionado pela imprensa hegemônica, a Brasil Paralelo e congêneres não teriam tanto sucesso, e a extrema direita ainda estaria no esgoto. De onde, aliás, nunca deveria ter saído.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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