CRIMES NO "ANDAR DE CIMA"

Por que a conversa entre Lula e Trump apavora políticos e forçou recuo de Eduardo Bolsonaro

Lula diz que enviou a Trump documentos sobre crime organizado. Investigações da PF avançam sobre conexão entre drogas, armas, combustíveis, Faria Lima e políticos que fazem lobby para o sistema financeiro e a indústria de armamentos.

Escrito en Opinião el
Plínio Teodoro é jornalista formado pela PUC-Campinas, com pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela FESPSP e em Psicologia Transpessoal pelo Ipec-Campinas. Com mais de 30 anos de experiência, já atuou em redações de veículos como Folha de S.Paulo, O Estado de Minas, O Globo, G1, iG, Terra, CBN e Jornal da Tarde, tendo se dedicado principalmente ao jornalismo político, cobertura de eleições e pautas de governo, tanto como repórter quanto como editor.
Por que a conversa entre Lula e Trump apavora políticos e forçou recuo de Eduardo Bolsonaro
Eduardo Bolsonaro em videoconferência na Câmara e Donald Trump com Lula. Renato Araújo Ag Câmara / Ricardo Stuckert PR

A declaração do ministro da Fazenda Fernando Haddad, na semana passada, após o desencadeamento da Operação Poço de Lobato, que revelou que a Refit, do megafraudador Ricardo Magro, teria usado ao menos 15 offshores registradas em Delaware, paraíso fiscal nos EUA, para lavagem de R$ 1 bi, causou um clima de pavor entre políticos, especialmente da direita e da ultradireita, ligados ao sistema financeiro e ao lobby da indústria armamentista no Congresso Nacional.

Após relacionar o setor de combustíveis à lavagem de dinheiro das drogas, por meio de uma engenharia financeira entre fintechs da Faria Lima e facções como Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC), Haddad revelou os próximos passos da investigação, conduzida pela Receita e Polícia Federal, em parceria com ministérios públicos e fiscos estaduais.

“Armas estão chegando no Brasil de contêineres de lá, vêm peças de reposição ou o próprio armamento, ilegalmente. Pedi para o [secretário da Receita, Robson] Barreirinhas fazer um relatório documentando com fotografias, número de contêineres. Demonstrando que a parceria é fundamental. Se queremos impedir que a droga chegue lá [nos EUA], é fundamental que iniba o crime nos territórios impedindo que o armamento pesado chegue ao Brasil", disse, antecipando que o tema faria parte da conversa que aconteceu entre Lula e Donald Trump nesta terça-feira (2).

Pelas redes, Trump elogiou Lula e a conversa de cerca de 40 minutos que tiveram por telefone. Mais prático, o presidente brasileiro divulgou nota confirmando que as questões envolvendo o crime organizado e o fornecimento de armas foi pauta da reunião com o mandatário dos EUA.

"Disse a ele (Trump) que era importante que a gente discutisse a questão do crime organizado, porque é preciso combater o crime organizado. E nós temos gente importante que pratica crime aqui no Brasil, que mora em Miami. Eu mandei documento para ele dizendo o que nós tínhamos que fazer", afirmou Lula nesta quarta-feira (3) sobre a conversa.

"Vamos usar a inteligência dos EUA e dos países que fazem fronteira com o Brasil para derrotar as facções criminosas e o narcotráfico. Não precisa de arma", emendou, sinalizando o trunfo sobre a política contra as drogas de Trump, que tem bombardeado, sem provas, barcos de supostos traficantes na América Latina.

A conversa entre os dois presidentes forçou um recuo de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que se encontra cada dia mais isolado nos EUA após a fracassada tentativa de fazer um conspiração com Trump para evitar que o pai, Jair Bolsonaro (PL), fosse preso por liderar a tentativa de golpe.

Um dos principais lobistas da indústria de armamentos no Congresso Nacional, Eduardo correu às redes sociais na noite desta segunda-feira (2) a nova conversa entre Lula e Trump.

"Recebemos com otimismo a notícia da conversa entre o Presidente Donald Trump e Lula. Um diálogo franco entre os dois países pode abrir caminhos importantes, desde que guiado por princípios claros. Sanções nunca são um fim em si mesmas; são instrumentos legítimos para corrigir violações graves quando outras vias foram bloqueadas", escreveu o deputado ao compartilhar uma postagem de Trump elogiando Lula.

"Confiamos na liderança do Presidente Trump para negociar com o Brasil um entendimento que proteja os interesses estratégicos dos Estados Unidos no hemisfério e, ao mesmo tempo, reconheça a urgência da restauração das liberdades civis e do Estado de Direito para o povo brasileiro. Qualquer avanço real nas relações bilaterais exige enfrentar, com honestidade, a atual crise institucional do Brasil e reafirmar a liberdade como fundamento essencial entre nações democráticas", emendou, contradizendo à declarações anteriores, em que torcia para Trump não negociar com Lula.

O que há nos documentos?

O documento entregue por Lula a Donald Trump tem um resume das investigações da Polícia Federal que mostram um intrincado esquema que conecta drogas, armas e o setor de combustíveis às fintechs no sistema financeiro e a grupos políticos da direita que atuam em lobbys no Congresso Nacional.

Como Haddad antecipou, os próximos passos das investigações da Polícia Federal vão se voltar ao "andar de cima", em relação aos ricaços e lobbys políticos que sustentam o bilionário esquema criminoso.

“É o andar de cima que irriga com bilhões as atividades criminosas. Não estamos falando de milhões, mas de bilhões. Hoje estão sendo bloqueados R$ 8 bilhões de fundos”, disse o ministro.

Dados divulgados pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, na sigla em inglês) em 2021 já revelavam que havia no Brasil cerca de 8 milhões de armas ilegais, sendo que mais da metade delas era contrabandeada dos EUA. O estudo estimava que só no Rio de Janeiro chegam cerca de 4 mil armas por dia, sendo 25% delas fuzis.

Antes de chegarem às mãos de jovens e até mesmo crianças aliciadas pelos traficantes nas comunidades - e que, geralmente, são mortos nas operações policiais -, esse armamento pesado abastece a vida de luxo de "empresários" que vivem em mansões na Barra da Tijuca, zona Sul do Rio, ou comandam clubes de tiros no rico interior de São Paulo.

Todo esse estratagema que une tráfico de drogas e armas aos setores de combustíveis e às fintechs da Faria Lima, no entanto, só foi construído a partir da cumplicidade de lobistas no mundo político, que ecoam o discurso de "bandido bom é bandido morto", propagado por Jair Bolsonaro por 30 anos nas hostes do Congresso - mas que só vale quando o alvo é pobre, preto e morador de favelas.

A política armamentista do ex-presidente - preso por articular um golpe de Estado - colocou em circulação 1.354.751 armas entre os anos de 2019 e 2022, segundo dados oficiais. Desse total, 431.137 foram adquiridos pelos chamados Colecionadores, Atiradores Desportivos e Caçadores (CACs), alcunha turbinada durante os quatro anos de seu governo, formada por amantes dos falos fumegantes que ainda se reúnem em clubes de tiros que servem de entreposto para os fuzis vendidos a organizações como Comando Vermelho e PCC.

Em 2024, dados da Polícia Militar do Rio de Janeiro, estado governado pelo bolsonarista Cláudio Castro ((PL-RJ), mostram que dos 638 fuzis apreendidos no ano pela corporação, 604 (94,68%) foram fabricados no exterior, sendo que 60% deles têm como origem os EUA.

Segundo a própria PM fluminense, muitos fuzis chegaram ao território nacional em peças avulsas, também compradas nos Estados Unidos ao custo de aproximadamente R$ 6 mil, na cotação atual do dólar. Depois de montados, os fuzis são vendidos às facções criminosas por cerca de R$ 50 mil.

Barra da Tijuca e Clube de Tiro em Americana

Segundo investigações da Polícia Federal e de polícias estaduais, como a do Rio de Janeiro, as peças e fuzis já montadas são contrabandeadas dos EUA por duas rotas. Uma delas passa por Paraguai e Bolívia. Uma segunda rota entra por meio dos aeroportos e portos, inclusive na Baía de Guanabara, com armas maquiadas em contêineres, citados por Haddad, em meio a outras mercadorias.

Em março deste ano, a PF desencadeou a operação Cash Courier que colocou atrás das grades Josias João do Nascimento, um agente aposentado da própria PF que foi classificado como "Senhor do Senhor das Armas", por ser o chefe do brasileiro Frederick Barbieri, condenado por tráfico internacional de armas pela Justiça dos EUA, e que até então sustentava o título de "Senhor das Armas" no Brasil.

Nascimento foi preso em sua mansão no Alphaville, um condomínio de alto luxo na Barra da Tijuca, bairro nobre da Zona Sul do Rio, onde o clã Bolsonaro tem casas no condomínio Vivendas da Barra.

Segundo as investigações, cerca de 2 mil fuzis, a maioria com a remuneração raspada, foram enviados dos EUA para o Rio entre 2011 e 2018 pela quadrilha. Em meio a cargas de equipamentos pesados como motores, aquecedores de piscina e aparelhos de ar-condicionado, foram despachadas armas como AK-47 e AR-10, usadas por tropa de elite da polícia e que foram parar, em sua maioria, nas mãos do Comando Vermelho.

Com a farra dos CACs e dos Clubes de Tiro no governo Bolsonaro, o contrabando de armas foi turbinado e pulverizado para montagem em outras regiões do país, antes de serem entregues às facções criminosas.

Em maio deste ano, a PF prendeu o CAC Eduardo Bazzana, 69 anos, tido até então como um bem sucedido empresário, dono do Clube Americanense de Tiro e sócio de quase uma dezena de empresas em Americana, no interior de São Paulo.

Na mansão de Bazzana, foram apreendidas mais de 200 armas, 40 mil munições e carros de luxo, como um Cadillac de mais de R$ 2 milhões. Entre os 7 mil sócios do Clube de Tiro haviam empresários, policiais e políticos - cujos nomes não foram revelados.

No entanto, nas contas do Tribunal Superior Eleitoral em 2018, o empresário aparece como doador de parcos R$ 510 à campanha de Aloísio Bueno, então candidato a deputado estadual pelo PSL, partido pelo qual Jair Bolsonaro foi eleito presidente da República.

Em 2023, quando já estava na mira da PF, Bazzana foi recebido na Câmara Municipal de Americana pelo vereador e pastor evangélico Marcos Caetano, do PL. “Recebendo em nosso gabinete a diretoria do CAT, o Eduardo Bazzana”, escreveu o bolsonarista nas redes, juntamente com foto ao lado do empresário.

Bazzana tinha autorização do Exército para o Clube de Tiro e para a PHVB Armas, empresa que recebeu Pix milionários do Comando Vermelho. As armas viriam da PH Bazzana Investments LLC, uma das empresas que o empresário teria nos EUA.

O empresário paulista tinha como interlocutor no Comando Vermelho Carlos Bandeira Rodrigues, o Zeus Muzema ou Da Roça, acusado de tráfico em Rondônia que passou meses refugiado no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio.

Durante a operação, Da Roça foi identificado como chefe do Comando Vermelho na Muzema, um complexo de favelas na Zona Oeste do Rio que a facção tomou de milicianos.

A Muzema ficou conhecida em 2019, em meio às investigações das chamadas "rachadinhas", esquema de corrupção que funcionava no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

Segundo investigações do Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ), paralisadas pelo clã Bolsonaro no Superior Tribunal de Justiça (STJ), parte do dinheiro das "rachadinhas" teria financiado a construção de prédios irregulares em Rio das Pedras, área até então controlada pela mesma milícia que comandava a Muzema.

Na mesma região, Fabrício Queiroz, ex-policial e ex-assessor do filho zero um de Bolsonaro, teria se escondido após revelado o esquema de corrupção na Alerj. De lá, o ex-capitão do Bope, Adriano da Nóbrega, comandava o Escritório do Crime, braço de extermínio da milícia.

Morto em fevereiro de 2020 em uma emboscada da polícia baiana, Adriano da Nóbrega empregou a mãe, Raimunda Veras Magalhães, e a ex-mulher, Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, no gabinete de Flávio na Alerj. O ex-Bope também foi homenageado por Jair Bolsonaro e hoje assombra o clã.
 

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