Blog do Mouzar

11 de maio de 2016, 14h33

Ora, Excelência, vai…

É interessante acompanhar as sessões do Senado e da Câmara Federal (cujos membros, com raras exceções, fazem lembrar de vereadores dos mais profundos grotões). O que acho mais divertido é ver os nobres parlamentares com cara de quem quer fuzilar o adversário e chamar o dito-cujo de Excelência.

Não vou sugerir tiroteios ou troca de tapas, nem mesmo xingamentos mais pesados para eles. Só dicas para pelo menos dar um chega-pra-lá nos desafetos chatos.

Algumas pessoas, quando querem dar um chega-pra-lá em outras diz apenas isso: “Ora, vai…”. A gente pode imaginar o restante da frase.

Não é uma situação que você queira xingar alguém com uma carga ofensiva equivalente a “vai pra p. q. p.!”. É, como já disse, um mero “chega-pra-lá”, mandar parar de encher o saco, por aí.

E como eu disse, a gente pode completar o restante da frase de diversas maneiras. A mais comum, “antigamente”, era “vai plantar batata!”, ou “vai plantar fava!”. Dizem que o “vai plantar batata” originou-se em Portugal, nuns tempos em que batata não valia quase nada por lá.

Antes de continuar, sei que algumas pessoas vão querer corrigir o uso do verbo ir aí: “Deve ser vá plantar…”. Mas xingamentos têm suas próprias regras gramaticais. Ninguém (ou quase ninguém) fala “Vá plantar batata!”. Fala “vai” mesmo. E raramente se coloca o r no final do verbo plantar. Geralmente é “plantá” ou, entre nós caipiras, “prantá”.

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Continuo. Tentei lembrar o máximo de frases com o mesmo sentido, sempre começadas por “vai”. E para não ficar repetitivo, vou dispensar o ponto de exclamação no final de cada uma. Mas esses xingamentos têm que ser ditos com força, e, normalmente, escritos com o ponto de exclamação. E vou colocar o “r” no final dos verbos, mesmo sabendo que nos xingamentos ele raramente é pronunciado. Então, aí vai.

Nuns tempos mais recentes tem gente que usa “vai catar coquinho” e “vai se catar”.

No interior, era comum alguém dizer “vai amolar o boi”, “vai cagar no mato” e “vai caçar sapo com bodoque” ou, simplificando, apenas “vai caçar sapo”. E também “vai lamber sabão”.

Acho que pode-se dizer que são xingamentos genéricos, usados (não tanto, mais) o “vai pentear macaco”; “vai encher outro” e “vai tomar banho na soda”, reduzido em alguns lugares por simplesmente “vai tomar banho”.

Tem também o “vai ver se eu tô na esquina”. Mas, dependendo de quem fala isso, pode ouvir uma resposta que ouvi um roceiro dar para um metido a gozador da cidade: “Então me empresta o cabresto, que se ocê estiver lá eu já te trago”.

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Continuando, tem o “vai peidar n’água pra fazer borbolha”, mas muita gente dispensa o final, diz só “vai peidar n’água”. Um intervalo aqui: quando a moçada de São Luiz do Paraitinga decidiu peitar o padre que proibia o carnaval lá e recriar a festa, um dos blocos criados para isso foi o “Peida n’água”, de que tive a honra de participar. Mas ele só existiu antes do carnaval lá virar aquele exagero que é há muitos anos.

No Nordeste, tem quem diga “vai enfiar bufa no cordão” ou “vai se lascar”.

No Pasquim, o jornalista Ivan Lessa criou e popularizou bastante o “vai se roçar nas ostras” e o “vai enfurnar um robalo”. Um que tenho quase certeza que surgiu entre os estudantes de Geografia da USP, no final dos anos 1960, é “vai se morder na bunda”, que depois ficou sendo só “vai se morder”.

Uma frase dessas eu aprendi com um rapaz da minha terra, em uma cidade vizinha, quando foi abordado por um policial pedindo documentos (coisa inédita por lá, na época). O rapaz olhou feio pro policial e disse: “Vai beliscar noutro anzol”.

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E já que citei minha terra, lembrei-me também de um xingamento desses que acho que era (não usam mais, pelo menos nunca mais ouvi), exclusivo da região. Tem a ver com a rivalidade entre duas cidades vizinhas, Guaxupé e Guaranésia. Havia muita gozação entre moradores delas, desqualificando a cidade dos “adversários”. Por exemplo: quando instalaram o primeiro semáforo em Guaxupé, na avenida principal, puseram uma placa na estrada de Guaranésia para lá, com o dístico “A 11 km, semáforo”.

Pois o xingamento que me lembrei, apesar de usado também em Nova Resende, tenho certeza que foi criado por algum guaxupeano: “Vai rebentar na Guaranésia”.

Paro por aqui, pensando que algum leitor está ruminando: “Ora, vai à merda!”.

Foto de capa: Agência Câmara

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