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03 de maio de 2019, 16h47

Orban e Salvini, a pior face da “nova Europa” – Por Fabio Porta

A reunião em Budapeste entre os dois líderes da extrema-direita europeia selou a aliança entre soberanistas e xenófobos às vésperas da próxima eleição do Parlamento Europeu, que acontece em 26 de maio

Viktor Orban (direita) e Matteo Salvini (esquerda) / Reprodução
Por Fabio Porta* A caminhada de Matteo Salvini e Viktor Orban ao longo do muro “anti-imigrantes” construído pelo primeiro-ministro húngaro na fronteira com a Sérvia não é um simples momento da viagem à Hungria do atual ministro do interior italiano e líder da Liga (partido de extrema-direita do país): é a foto do que poderia ser a “nova Europa” se esses partidos prevalecerem nas próximas eleições do Parlamento Europeu. Depois de quase dez anos de governo ininterrupto de Viktor Orban, a Hungria é o único entre os 28 países da União Europeia que não é definido como “democrático” pelo “Índice...

Por Fabio Porta*

A caminhada de Matteo Salvini e Viktor Orban ao longo do muro “anti-imigrantes” construído pelo primeiro-ministro húngaro na fronteira com a Sérvia não é um simples momento da viagem à Hungria do atual ministro do interior italiano e líder da Liga (partido de extrema-direita do país): é a foto do que poderia ser a “nova Europa” se esses partidos prevalecerem nas próximas eleições do Parlamento Europeu.

Depois de quase dez anos de governo ininterrupto de Viktor Orban, a Hungria é o único entre os 28 países da União Europeia que não é definido como “democrático” pelo “Índice de Democracia”, que examina todos os anos o estado da democracia em até 167 países do mundo todo. A Hungria se enquadra no que o índice da revista The Economist chama de “regimes híbridos”, e que eu – em referência a Eduardo Galeano e Predrag Matvejevic – prefiro definir como “democratura”.

Países onde a democracia existe formalmente, mas a liberdade de imprensa é negada ou fortemente comprometida pelo controle que o governo direta ou indiretamente mantém sobre a mídia;  “democracias não-liberais”, como o próprio Orban. Um dos poucos chefes de Estado presentes na posse de Jair Bolsonaro, o primeiro-ministro da Hungria definiu seu modelo de governo, em que até os direitos humanos e civis devem se curvar à vontade de um Estado “bruto e autoritário” (definição do professor universitário húngaro Beda Magyar, no jornal alemão Die Zeit).

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É para esse modelo de Estado que a Liga italiana, de Matteo Salvini – visitado por Eduardo Bolsonaro há cerca de um mês – está olhando, e que aparece hoje com mais de 30% de intenção de votos em todas as pesquisas eleitorais da Itália;  partido político nascido nos anos 90 como “Liga do Norte”, na onda do impulso divisionista do norte contra o centro-sul e de hostilidade para com os sulistas, o “inimigo” não é mais o “terroni” (assim, os trabalhadores imigrantes que emigraram do sul da Itália foram definidos no norte, de forma depreciativa);  hoje a ameaça vem da imigração estrangeira, continuamente evocada por Salvini como uma invasão real do país.

O slogan é simples e sempre o mesmo: “América primeiro!”, grita Donald Trump;  “Primeiro a Hungria!”, foi o lema de Viktor Orban nos últimos anos; e hoje “primeiro os italianos!” é o slogan da Liga.  Pena que, nessa definição, por mais patriótica que seja, o governo da Itália continua a esquecer os milhões de italianos que vivem no exterior, sistematicamente excluídos de todas as principais medidas desse governo.

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As duas ações simbólicas do atual governo italiano (nascido do acordo entre o Movimento 5 Estrelas e a Liga) de fato destacaram sua distância das grandes comunidades italianas no mundo: a “renda de cidadania”, medida de apoio para pobres e desempregados, cobrirá apenas “residentes na Itália por pelo menos dez anos”;  o “decreto de segurança”, uma disposição criada para combater a imigração ilegal e o terrorismo, tornou os ius sanguinis (direito sanguíneo de cidadania de descendentes de italianos) e os procedimentos conjugais mais longos e complexos.

Apertando a mão de Salvini e referindo-se às próximas eleições europeias, Orban disse: “Estou convencido de que a União Européia precisa de uma aliança contra a imigração”.  Este é o cimento do ódio e da intolerância em que a pior direita européia está se preparando para a batalha após a votação de 26 de maio.  Mesmo dentro do EPP, o Partido Popular Europeu ao qual a FIDESZ ainda pertence (partido de Orban) e do qual foi suspenso no ano passado, precisamente por causa de posições extremistas sobre a imigração.

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A Europa, nascida depois da Segunda Guerra Mundial, em torno dos valores da paz, da tolerância e da liberdade, não pode voltar atrás, cultivando a nostalgia anti-histórica por regimes despóticos e autoritários. É isso que está em jogo. A foto de Orban e Salvini ao longo daquela parede nos lembra outras paredes, que na Europa foram derrubadas pela força da esperança e da democracia.  O povo europeu, em sua grande maioria, não quer voltar atrás e irá demonstrá-lo em poucas semanas com seu voto.

*Fabio Porta é secretário do Partido Democrático (PD) Italiano no Brasil, ex-deputado do parlamento italiano (2008-2018)

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