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18 de junho de 2019, 23h09

Os rumos do bolsonarismo, por Daniel Trevisan Samways

Momentos de crise e de incertezas, com um governo nas cordas e enfraquecido, podem ensejar saídas autoritárias. No atual cenário, essa saída pode ser encapada por diferentes atores. Cabe aos setores progressistas e democráticos fazer frente a essas investidas

Foto: Marcos Côrrea/PR
Por Daniel Trevisan Samways* Passados mais de cem dias do governo Bolsonaro, podemos afirmar que o chamado “bolsonarismo” fez água? Ainda é cedo para dizer que o movimento que arrebatou a sociedade brasileira na última eleição – elegendo não apenas um presidente, mas dezenas de deputados, senadores e governadores – desidratou. Mas é inegável que o tal movimento, se podemos chamá-lo assim, sofreu várias derrotas e demonstrou suas fraquezas. Jair Bolsonaro fez sua carreira política como um deputado do chamado baixo clero e nunca teve poder de barganha no chamado “centrão”. Sempre foi medíocre, no sentido mais estrito do termo. Mas...

Por Daniel Trevisan Samways*

Passados mais de cem dias do governo Bolsonaro, podemos afirmar que o chamado “bolsonarismo” fez água? Ainda é cedo para dizer que o movimento que arrebatou a sociedade brasileira na última eleição – elegendo não apenas um presidente, mas dezenas de deputados, senadores e governadores – desidratou. Mas é inegável que o tal movimento, se podemos chamá-lo assim, sofreu várias derrotas e demonstrou suas fraquezas.

Jair Bolsonaro fez sua carreira política como um deputado do chamado baixo clero e nunca teve poder de barganha no chamado “centrão”. Sempre foi medíocre, no sentido mais estrito do termo. Mas ele já estava em um determinado lugar quando a sociedade ainda se movia lentamente em direção a ele. Movimentos conservadores ganharam destaque na última década e Bolsonaro conseguiu surfar nessa onda, a qual fez confluir diferentes setores para o mesmo ponto, como empresários, religiosos, antipetistas, caminhoneiros e uma massa de pessoas afetadas pela crise.

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É difícil explicar a ascensão do bolsonarismo sem passar pela grave crise econômica e também de representatividade política pelas quais fomos duramente atingidos nos últimos anos. As pessoas perdiam seus empregos e, ao mesmo tempo, acompanhavam diariamente o derretimento da classe política, assolada pela operação Lava Jato. Crises não dão conta de explicar tudo, mas são janelas abertas pelas quais sentimentos represados conseguem escapar para a esfera pública. Crises são acompanhadas pelo medo, ansiedade e pela difusão de um discurso que traz à tona ameaças para a ordem até então estabelecida.

Após a Constituição de 1988, grupos até então marginalizados conquistaram mais direitos e presenciamos a diminuição da desigualdade. Em um país com uma tradição escravocrata e patrimonialista, não foi pouca coisa. Durante os governos do PT, as vitórias desses grupos foram ainda maiores e acompanhamos uma bela luta das mulheres, negros, quilombolas, indígenas, sem terras e dos mais pobres por direitos. Com o crescimento da economia, esses grupos também tiveram novas oportunidades de trabalho e estudo. O que era espaço exclusivo de uma classe, passava a ser compartilhado com uma diversidade de novos atores. E claro que isso incomodou de forma profunda o homem branco e de classe média, criando, como bem afirmou a antropóloga Débora Diniz, uma “politização de ressentidos”.

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O ressentimento político ganha força durante crises e atrai, como um vórtice, outros setores que, se não se sentem propriamente ameaçados, almejam obter alguma vantagem. Ressentidos e oportunistas formam o núcleo duro do bolsonarismo, o qual também é fortalecido pela adesão, ainda que temporária, de fiéis de diferentes denominações religiosas, militares, caminhoneiros e milicianos. Poderíamos incluir nessa lista também terraplanistas, olavistas e críticos de uma intervenção do Estado na vida cotidiana, inclusive quando ele regula cadeirinhas para crianças. Se dez de cada dez analistas apontam para os riscos de medidas que afrouxam leis de trânsito, muita gente aplaude em pé tais medidas. O presidente acredita que “ninguém é otário” para entrar em uma curva em alta velocidade. Ele está enganado. Existem muitos otários dirigindo um carro em alta velocidade e alguns fazem até lives.

O bolsonarismo se tornou governo e já fez muitos estragos, desde o desmonte de políticas ambientais, passando pela diminuição de recursos para a educação até a perseguição política. Não vivemos, ainda, em uma ditadura, mas estamos longe de viver na normalidade. Milícias virtuais promovem verdadeiros linchamentos nas redes sociais, expondo quem se coloca contra o governo. Milícias reais ameaçam de morte políticos e intelectuais, contando com pouca ou nenhuma ação do poder público e das forças de segurança. Professores são denunciados por “doutrinação” e muitos já evitam abordar temais mais sensíveis.

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Mas o bolsonarismo, apesar de sua força nas redes sociais, está longe de ser sólido e consistente do ponto de vista político. Bolsonaro foi eleito com uma votação expressiva, prometendo acabar com “isso daí” e confessando não saber nada de economia, saúde, gestão pública, meio ambiente… e mesmo assim foi eleito. Foi um verdadeiro cheque em branco. Sua popularidade beneficiou políticos inexpressivos e desconhecidos que tiveram enorme êxito simplesmente por se apresentarem como candidatos de Bolsonaro. Elegeu a segunda maior bancada e vários governadores, parecendo nadar de braçada em uma onda favorável.

Muitos analistas acreditaram que Bolsonaro conseguiria aprovar com rapidez várias medidas, contando também com a pressão de sua base sobre os congressistas. Mas, e sempre existe um mas quando se trata de Bolsonaro, a realidade se impôs. A bancada do PSL se mostrou frágil e incapaz de votar em conjunto em vários temas, chegando a brigar em plenário. A reforma da Previdência, grande promessa de Bolsonaro e Paulo Guedes, caminha, mas graças à articulação de Rodrigo Maia e ao apoio do “centrão”, os quais ainda não cobraram seu preço para o momento decisivo da votação. Tenham certeza, esse momento virá, mais cedo ou mais tarde. Bolsonaro, por outro lado, é refém da própria reforma.

Caso ela seja aprovada, será muito mais pela atuação de Maia e de sua base, do que pelo apoio do Planalto. Após sua aprovação, a permanência de Bolsonaro torna-se descartável. Caso a reforma não passe, e por enquanto o governo não tem os votos necessários, sua força, tão alardeada no início do mandato, pode minguar. Ainda é preciso saber como as Forças Armadas vão caminhar nesse processo. O desgaste causado pelo apoio incondicional começa a dar os primeiros sinais com a demissão de Santos Cruz da Secretaria de Governo e a já anunciada de Juarez Aparecido de Paula Cunha da presidência dos Correios, e a tensão do guru Olavo de Carvalho com muitos militares, incluindo o próprio vice-presidente. Resta ainda o movimento popular. Não é possível negar que Bolsonaro ainda possui certa capacidade de mobilização, como pudemos acompanhar no último dia 26 de maio. Se não foi tão grande como o governo esperava, não foi tão pequeno como a oposição achava que seria. Por outro lado, os setores mais pobres que aderiram ao bolsonarismo já dão sinais de arrependimento, como apontou Rosana Pinheiro-Machado.

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Os rumos do bolsonarismo ainda são incertos. As recentes revelações do The Intercept Brasil causaram um verdadeiro abalo na imagem da operação Lava Jato e no grande herói de seus adoradores, o ex-juiz e agora ministro Sérgio Moro. Bolsonaro o nomeou com a intenção de criar uma aura de combate à corrupção em seu governo. Não é o que dizem as investigações em relação ao seu núcleo familiar e miliciano. Queiroz continua sem prestar esclarecimentos e o caso de caixa dois da campanha em torno das mensagens de WhatsApp ainda precisa ser apurado. Moro era, em janeiro, um verniz ético para um governo recheado de figuras envoltas em tenebrosas transações. Como um verniz de má qualidade, descascou em pouquíssimo tempo.

Momentos de crise e de incertezas, com um governo nas cordas e enfraquecido, podem ensejar saídas autoritárias. No atual cenário, essa saída pode ser encapada por diferentes atores. Cabe aos setores progressistas e democráticos fazer frente a essas investidas. A democracia é frágil e corre imenso perigo em nosso país.

*Daniel Trevisan Samways é doutor e professor do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM)

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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