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20 de agosto de 2017, 11h58

Os Tribalistas são melhores quando não são os Tribalistas

“Diáspora” é uma canção lânguida que causa certa estranheza, sobretudo para quem não tira da memória a foto do menino Aylan, morto em uma praia da costa da Turquia. Por Julinho Bittencourt Os Tribalistas estão de volta. Para a “inteligência” nacional isso pode soar como má notícia, dado ao excesso de gemidos, grunhidos e excessos afetivos do disco de quinze anos atrás. Há, no entanto, nesta volta, uma preocupação um tanto mais auspiciosa do que sonhos e beijos de língua. O trio formado por Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, por ordem de cavalheirismo, acaba de lançar, numa estratégia...

“Diáspora” é uma canção lânguida que causa certa estranheza, sobretudo para quem não tira da memória a foto do menino Aylan, morto em uma praia da costa da Turquia.

Por Julinho Bittencourt

Os Tribalistas estão de volta. Para a “inteligência” nacional isso pode soar como má notícia, dado ao excesso de gemidos, grunhidos e excessos afetivos do disco de quinze anos atrás. Há, no entanto, nesta volta, uma preocupação um tanto mais auspiciosa do que sonhos e beijos de língua.

O trio formado por Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, por ordem de cavalheirismo, acaba de lançar, numa estratégia de marketing minuciosa, quatro canções do álbum que deve chegar às lojas no final do mês.

Ao lado dos três estão, tanto em participações nas composições quanto executando instrumentos, Dadi, Pedro Baby, Pretinho da Serrinha e Cezar Mendes.

A canção de trabalho se chama “Diáspora” e causa alguma surpresa para quem esperava pouco ou quase nada dos Tribalistas.

 

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Em homenagem aos refugiados, drama que atordoa o planeta, Arnaldo Antunes – provavelmente ele – em um de seus melhores momentos, dispara, espremido entre Sousândrade e “Vozes d’África, de Castro Alves:

“Atravessamos o mar Egeu
O barco cheio de fariseus
Com os cubanos, sírius, ciganos
Como romanos sem Coliseu
Atravessamos ‘pro’ outro lado
No Rio vermelho do mar sagrado
Os Center shoppings superlotados
De retirantes refugiados”

A canção lânguida causa certa estranheza, sobretudo para quem não tira da memória a foto do menino Aylan morto em uma praia da costa da Turquia. Estão por ali os mesmos sons de antes, a melodia excessivamente açucarada, o pop escancarado, enfim, a mesma fórmula, desta vez a lidar com um tema tão contundente.

Logo em seguida vem “Um Só”, canção que aos incautos pode parecer, principalmente vinda logo após “Diáspora”, que se refere à raça humana. Qual nada. São apenas paradoxos autorreferentes a lidar com o próprio umbigo e mais nada.

 

“Somos comunistas
E capitalistas
Somos anarquistas
Somos o patrão
Somos a justiça
Somos o ladrão
Somos da quadrilha
Viva São João”

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Um tantinho mais do mesmo e só. Ou um só.

“Fora da Memória”, esta sim, parceria dos três com Pedro Baby e Pretinho da Serrinha, talvez seja a melhor das quatro canções. Com uma letra extremamente concisa, melodia delicada e bonita, a canção despretensiosa joga com palavras, sons e signos afetivos que estariam, pretensamente, fora da memória. Muito bonito.

 

“Fora da memória tem
Uma regalia
Para quando você acordar todo dia
Fora da memória tem
Uma fantasia
Para você recordar todo dia
De esquecer”

No final das contas, em outra parceria com Pedro Baby e Pretinho da Serrinha, uma canção que poderia muito bem ter atravessado o túnel dos últimos quinze anos e pulado do disco anterior para este. Uma tola e agradável canção de amor.

“Se um dia eu te encontrar
Do jeito que sonhei
Quem sabe ser seu par perfeito
E te amar
Do jeito que eu imaginei”

Passado a limpo, antes mesmo do lançamento do disco cheio, este novo Tribalistas e tão velho quanto o outro, deixa a sensação de que tanto Marisa Monte quanto Carlinhos Brown e, sobretudo, Arnaldo Antunes se tornam muito melhores quando deixam de ser Tribalistas.

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Foto: Facebook de Marisa Monte

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