Pesquisa Fórum revela que 78,4% apoia aborto de menina estuprada

O caso foi conhecido por quase toda a população brasileira: 92,2%

Grupo religioso, em frente a hospital de Recife, tenta evitar aborto de menina de 10 anos (foto: Twitter)



A despeito das agressões e manifestações raivosas tanto em redes sociais quanto no hospital onde o aborto foi realizado, a maioria expressiva dos brasileiros, 78,4%, se disseram favoráveis ao direito de a menina de 10 anos e sua família terem interrompida a sua gravidez, que foi consequência de um estupro.

O caso, ocorrido neste mês, ganhou repercussão nacional e foi incluído na 5ª Pesquisa Fórum, realizada em parceria com a Offerwise sob consultoria de Wilson Molinari. O levantamento ouviu a opinião de mil pessoas, em todas as regiões do país, entre os dias 21 e 24 de agosto.

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O resultado mostra que, embora a situação tenha gerado uma falsa polarização, a maioria da população reconhece que a criança foi vítima de violência e sua família tinha direito a interromper a gestação.

O caso ganhou tanta repercussão nas redes e na mídia que foi conhecido por quase toda a população brasileira: 92,2% dos entrevistados disseram que ficaram sabendo.

A aprovação do direito da menina de abortar foi maior entre as mulheres: 81,6% delas disseram serem favoráveis ao procedimento. E, entre os homens, colocaram-se a favor do direito da família 74,8% dos entrevistados.

Por faixa etária, a decisão de interromper a gravidez encontrou maior apoio entre as pessoas com 60 anos ou mais: 87,4% foram favoráveis a esse direito. Na sequência, aparece a faixa daqueles que têm entre 16 e 24 anos, dos quais 79,5% são a favor do procedimento nesse caso.

Mesmo a “menor” aprovação considerando a idade do entrevistado ficou alta. Ela foi constatada entre as pessoas de 45 a 59 anos, dos quais 73,6% se disseram favoráveis ao direito da família de abortar.

Entre as regiões do país, o Sudeste é a mais favorável ao direito da menina abortar nessa situação. Foram 83,1% que afirmaram concordar. Já a região Norte é a que menos se diz favorável, com 71,8%.

Quem tem ensino superior também é mais favorável ao aborto nessa situação (87,3%). Entre os entrevistados com ensino médio, 79,2% disseram ser a favor e entre os com ensino fundamental, 71,7%.

O caso

Órfã de mãe e com o pai preso, a menina morava com os avós na cidade de São Mateus (ES). Ela foi ao hospital no dia 7 de agosto com dores abdominais. Foi constatado, então, que estava grávida. Diante disso, a criança revelou que era estuprada pelo tio desde os 6 anos de idade.

A Justiça do ES deu autorização para que ela abortasse no dia 15 de agosto. No entanto, um hospital estadual capixaba alegou não ter capacidade para fazer o procedimento por causa da idade gestacional do feto.

Por isso, ela teve de ser levada a Pernambuco para passar pelo procedimento. Mas o local foi divulgado em redes sociais e acabou cercado por ativistas antiaborto, que queriam evitar a interrupção da gravidez e gritavam que a menina era “assassina”. Nenhuma palavra foi gritada contra o abusador.

O tio da criança foi preso na semana passada e virou réu por estupro de vulnerável na Justiça capixaba nesta terça-feira (25).

Pesquisa inova com metodologia

A 5ª Pesquisa Fórum foi realizada entre os dias 21 e 24 de agosto e ouviu 1000 pessoas de todas as regiões do país. A margem de erro é de 3,2 pontos porcentuais, para cima ou para baixo. O método utilizado é o de painel online e a coleta de informações respeita o percentual da população brasileira nas diferentes faixas e segmentos.

O consultor técnico da Pesquisa Fórum, Wilson Molinari, explica que os painelistas são pessoas recrutadas para responderem pesquisas de forma online. A empresa que realiza a pesquisa, a Offerwise, conta com aproximadamente 1.200.000 potenciais respondentes no Brasil. “A grande vantagem é que o respondente já foi recrutado e aceitou participar e ser remunerado pelas respostas nos estudos que tenha interesse e/ou perfil para participar. No caso da Pesquisa Fórum, por ser de opinião, não existe perfil de consumidor restrito, como, por exemplo, ter conta em determinado banco, ou possuir o celular da marca X. O mais importante é manter a representatividade da população brasileira, tais como, gênero, idade, escolaridade, região, renda, etc.”

Molinari registra que pesquisas feitas em ruas ou nos domicílios costumam ter margem de erro menor. “Porém sabemos que 90% da população brasileira possui acesso à telefonia celular e, especificamente na situação de quarentena que estamos vivendo, o método online é mais seguro do que o pessoal e sempre é menos invasivo que o telefônico”, sustenta.

Pouco usado para pesquisas de opinião no Brasil, os painéis online são adotados como método de pesquisa no mundo todo, segundo Molinari. E regulamentados pelas principais associações de pesquisa. “Os painéis hoje são amplamente utilizados para pesquisas de satisfação, imagem de marca, qualidade de produtos e serviços, opinião, etc”, acrescenta.

Este post foi modificado pela última vez em 27 ago 2020 - 16:57 16:57

Fabíola Salani: Graduada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo. Trabalhou por mais de 20 anos na Folha de S. Paulo e no Metro Jornal, cobrindo cidades, economia, mobilidade, meio ambiente e política.