Estudo liderado pela UFRJ indica que Salles aproveitou a pandemia para “passar a boiada”

Ministro cunhou o termo na reunião ministerial de abril de 2020 e, segundo pesquisadores brasileiros, britânicos e estadunidenses, cumpriu a promessa enfraquecendo a legislação e produzindo queda de 70% no número de multas

Jair Bolsonaro e Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente (Reprodução/YouTube)
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Um estudo realizado por um grupo de pesquisadores de três países apontou que o governo de Jair Bolsonaro realizou com sucesso a proposta do ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, de usar a pandemia para “passar a boiada” na legislação ambiental do país.

O ministro Salles, membro do Partido Novo, criou a expressão durante a famosa reunião ministerial de abril de 2020 – cujo vídeo foi divulgado após polêmica surgida pela saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça –, quando ele defendeu justamente que o governo deveria aproveitar que a imprensa estava mais preocupada com a pandemia e aproveitar para “ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”, em declaração que dava a entender que defendia essa ideia para a área ambiental e também para medidas impopulares em outros setores.

O estudo foi realizado por pesquisadores do Brasil, do Reino Unido e dos Estados Unidos, e liderado por suas professoras Mariana Vale e Rita de Cássia Portela, do Departamento de Ecologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Segundo a pesquisa, a partir do mês de março, quando a pandemia se instalou definitivamente no Brasil, o governo de Bolsonaro intensificou sua política de desregulamentação ambiental.

O estudo mostra que das 57 medidas adotadas pelo governo Bolsonaro para enfraquecer a legislação ambiental ou os organismos regulares, ao menos metade delas foram promulgadas entre os meses de março e setembro de 2020, período que os pesquisadores consideram que foi quando “passou a boiada”, usando os termos do ministro Salles.

No mesmo período, também segundo o estudo, houve uma redução de 72% em multas ambientais, apesar de um aumento no desmatamento registrado em regiões como a Amazônia e o Pantanal. Os estudiosos apontam os cortes no financiamento de órgão como Ibama e ICMBio como fatores responsáveis pela diminuição do número de multas.

“Pelos dados, a gente vê evidências de que a pandemia teve um efeito. O ministro (Salles) deixou bastante clara qual era sua intenção. Se essa reunião não tivesse vazado, talvez a gente não estivesse nem prestando atenção”, disse a professora Rita de Cássia Portela, em entrevista para a jornalista Flávia Said, do Metrópole.

O estudo liderado pela UFRJ tem como título “A pandemia de Covid-19 como uma oportunidade para enfraquecer a proteção ambiental no Brasil”, e deve ser publicado na revista estadunidense Biological Conservation.