ELA É DE LUTA

Quem é Vivian Mendes, presidente da UP presa pela PM de Tarcísio

Militante que protestava contra a privatização da Sabesp quando foi detida na Alesp tem origem operária em São Paulo e defende punição aos crimes do bolsonarismo

Vivian Mendes detida na Alesp ao lado de outros dois militantes da UP.Créditos: Reprodução/Rede X
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Vivian Mendes, presidente da Unidade Popular (UP), foi detida durante ação truculenta da Polícia Militar na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) no começo da noite desta quarta-feira (6). Ela estava com um grupo de manifestantes que vinha comparecendo na casa legislativa nas últimas semanas para protestar contra a aprovação do PL 1501/23, que prevê a privatização da Sabesp. Após o incidente e sem a presença da oposição, o projeto foi aprovado por 63 votos a 1.

A confusão começou por volta das 19h e até o fechamento dessa matéria ainda não há maiores informações sobre a situação de Vivian e de outros 3 militantes da UP que também foram detidos. A última atualização, via página da própria UP nas redes sociais, é de que estariam sendo mantidos na própria Alesp, para onde o partido convocava a militância para marcar presença em favor da sua soltura.

Nesse meio tempo, seu nome tem circulado na imprensa hereditária com uma informação verdadeira, porém incompleta, que tem como efeito desqualificar Vivian e sua organização perante o debate público. O seu nome veio junto com a credencial de ex-candidata ao Senado por São Paulo nas últimas eleições. E somente isso. Na ocasião, ela recebeu 280 mil votos e não foi eleita.

Mas Vivian Mendes é muito mais do que uma ex-candidata que acabou detida em um protesto. Aos 42 anos ela carrega uma enorme trajetória de luta - desde o berço na periferia da zona leste de São Paulo. Filha de operários nordentinos, se formou no ensino médio técnico e trabalha desde os 16 anos. Já adulta, cursou e se formou em Comunicação Social pela Unesp.

Começou sua militância ainda bem jovem, nas comunidades eclesiais de base. Em seguida passou pelo Movimento de Luta nos Bairros e pelo Movimento de Mulheres Olga Benário. Em 2020, quando entrevistada pelo jornal A Verdade [veículo da própria UP], ela falava sobre a construção do partido.

“Em São Paulo estamos construindo os núcleos da UP principalmente nas periferias e nas regiões de grande concentração da classe trabalhadora, que são onde nossos militantes residem e trabalham. Jardim Pantanal, Lajeado, São Miguel, Brasilândia, Pirituba, Jaguaré, Brás e outros. Por aí os núcleos estão se organizando e se fortalecendo”, declarou à época.

Já naquele momento ela apontava que entre as principais preocupações da UP, ao lado da luta por moradia e em defesa do SUS, constava a luta contra a privatização da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).

“São Paulo é uma cidade dominada pelos interesses do capital, dos especuladores, dos banqueiros.  A cidade está sendo toda privatizada, praticamente entregue gratuitamente para aumentar os lucros dos empresários, que são amigos dos poderosos. O número de pessoas vivendo nas ruas cresce exponencialmente. A reforma da previdência do município é uma vergonha, enfraquece os serviços públicos essenciais à população, principalmente a mais pobre”, declarou em outro trecho da entrevista.

Crimes da ditadura e do bolsonarismo

Entre as pautas que têm defendido publicamente está a retomada dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, que busca punir os agentes da ditadura civil-militar instalada em 1964 no país que cometeram crimes contra a humanidade, como a tortura. Nesse sentido, foi assessora da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo - que por sua vez foi crucial para a instalação da CNV.

“Fizemos a campanha contra a impunidade do Estado; que manteve impune os torturadores da ditadura e que mantém até hoje impune a polícia que mata e oculta cadáveres”, disse em entrevista ao Jacobin Brasil.

E nesse sentido, relacionando a impunidade de ontem com a de hoje, Vivian tem feito consistentes defesas públicas da punição aos crimes do Governo Bolsonaro e do bolsonarismo no Brasil, em especial os cometidos durante a pandemia de Covid-19.

“Nós temos que lembrar, para deixar claro já no começo, que existem provas documentais para apontar os crimes cometidos por (Jair) Bolsonaro. Como as fake news são uma coisa muito presente, às vezes a gente meio que acredita que faltam elementos, mas eu queria resgatar aqui que, no ano passado, nós tivemos o Tribunal Permanente dos Povos, que aconteceu aqui em São Paulo e em Roma ao mesmo tempo, que julgou os crimes de Bolsonaro durante a pandemia, porque nós podemos falar de vários crimes, mas vamos falar desse para simplificar. Esses crimes estão documentados a partir de uma CPI que já aconteceu,” declarou no último mês de julho ao Opera Mundi.