MÍDIA

Folha e Estadão dão palco para Bolsonaro e militares - Por Letícia Sallorenzo

Alteração de comportamento discursivo não se deu da noite pro dia. Veio num crescendo, desde o início da semana.

Jair Bolsonaro e Mauro Cid.Créditos: Alan Santos/PR
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A leitura dos jornais hoje (19/8) foi muito estranha, repleta de pressupostos, subentendidos e entrelinhas que mostram que exército e entorno de Bolsonaro estão se mobilizando. Mas a alteração de comportamento discursivo não se deu da noite pro dia. Veio num crescendo, desde o início da semana.

Esta semana ler, resumir e pinçar detalhes dos jornais foi tarefa bem complexa e entremeada de detalhes. Para vocês terem uma ideia, costumo resumir as notícias do dia em uma página do caderninho da irmã Selma (que eu já mostrei aqui a vocês), em período de férias e recessos de governo.

Quando a República está a pleno vapor, anoto tudo em duas páginas do caderninho. Dia 16, com o apagão, e dia 18, com o depoimento do Delgatti e a quebra dos sigilos do Djanho e da Coisada, foram 3 págs de anotações em cada dia. Tem muita coisa relevante a ser registrada nos meus alfarrábios.

Hoje foram 2 páginas – uma delas apenas pra prisão da cúpula da PMDF. Mas tem coisa que se articula de forma muito mais perigosa com essa prisão dos oficiais do DF.

A) Ibaneis blindado por Folha e Estadão

Vou começar a destacar o fato d q, de acordo com o Estadao, “aliados de Ibaneis [Rocha, governador do DF] correram para propagar que quem nomeou Klepter [Rosa Gonçalves, o comandantão da PMDF preso ontem) foi Ricardo Capelli, e não Ibaneis”.

O mesmo Estadão que informou à pág. 2 que se tratava de movimentação do entorno de Ibaneis e deu meia página para o assunto na página A12.

Ah, a Folha também destacou a “nomeação feita por Capelli”. Mas da Folha eu vou falar por último, porque a movimentação do jornal dos Frias é de longe a mais assombrosa e assustadora do dia. Fato é que o pessoal do Ibaneis está com receio de que o governador seja convocado a depor na CPI do 8/1, daí a movimentação – corroborada por Folha e Estadão (e não por 
Correio Braziliense ou O Globo).

B) Advogado de Cid acuado, e Bolsonaro humildão

Aí chegamos no recuo do advogado do Cid, transmitido ontem pela GloboNews.

Ficou muito claro que Cezar Bitencourt foi pressionado, na madrugada de quinta para sexta-feira, por Paulo Amador da Cunha Bueno, advogado de Bolsonaro no caso das joias, a recuar do que ele disse à Veja. Ainda não li o texto da Veja, mas já vi gente dizendo que está inconsistente. Mas o recuo de Bitencourt foi ponto fora da curva, para muito além de “Veja malvada manipulou o texto”.

Chamou a atenção a mudança radical de postura do advogado.

Uma notinha na coluna de Denise Rothenburg no Correio Braziliense de hoje afirma (e essa afirmação não saiu do nada, se não foi apuração foi plantação) que Cid recebia ordens também de Augusto Heleno e Luis Eduardo Ramos. “Logo, nem tudo pode ser atribuído como ordem direta do Presidente da República”.

O texto prossegue, afirmando sem modalizações ou suposições, que “o advogado Cezar Bitencourt vai seguir por essa linha, sem colocar tudo nas costas do presidente”.

Quem deu a Rothenburg tamanha certeza dessas ações? A notinha vem curiosamente ilustrada com chuvas e trovoadas sobre um Bolsonaro respingado, e um ventilador que, embora aponte para a nuvem carregada, também serve para “espalhar merda”.

Some a isso o Estadão mostrando (em vídeo de 12 minutos) um Bolsonaro humildão, “comendo pão com manteiga e café com leite numa padaria em Abadiânia”, e repercutindo o “fato” (criado e plantado) em suas páginas de hoje.

Ontem, o jornal (observe como eu vou escrever agora) *fez ser visto* um Bolsonaro falando baixo, respondendo educada e respeitosamente às perguntas feitas por 2 repórteres, num vídeo feito de forma amadora (1 celular gravando a conversa, não foi uma videorreportagem, com microfone a câmera profissional) que de fortuito não tem absolutamente NADA.

Nesse vídeo, para além do que já foi destacado pela imprensa, há duas falas de Bolsonaro que devem ser registradas e recortadas:

  1. Eu continuo pautando a mídia – pra mim, isso significa que ele vai continuar com o ecossistema de desinformação
  2. Pelo que eu sei ele [Delgatti] não foi recebido por ninguém [do ministério] da Defesa – Essa frase se articula com outra nota de Denise Rothenburg, na edição de ontem (18/8) do Correio Braziliense, que  informa que “a cúpula do ministério da Defesa (leia-se José Múcio) levantou, ***antes do depoimento de Delgatti***, todos os registros de presença do hacker no prédio e nada foi encontrado” (não foi encontrado ou foi apagado?)

C) Folha e a guinda pró-Bolsonaro; Monica Bergamo e os “apoiadores do ex-presidente”

Estou observando essa movimentação muito estranha da Folha desde o início da semana a partir da insuspeita Mônica Bergamo.

Mônica é jornalista de longa data, não é deslumbrada com o poder, sabe quando está sendo usada para passar recados e sabe se desvencilhar dessas saias justas.

Por isso, me chamou a atenção o excesso de notícias do entorno de Bolsonaro (“apoiadores do ex-presidente”) passando recados a torto e a direito via coluna de Mônica Bergamo.

Na terça-feira (15/8), a colunista informou que Bolsonaro discutiu com aliados a possibilidade de convocar manifestações de direita para o 7 de setembro, pois eles acreditam que ele é capaz ainda de “colocar milhões nas ruas”, mas o ex-presidente avaliou que é melhor ficar comportado, pois as manifestações podem pesar contra ele na Justiça”.

Bergamo também informou na terça que a história das joias “deixou o presidente baqueado” (pausa para você se lembrar quantas vezes, entre novembro e dezembro do ano passado, você leu que Bolsonaro estava deprimido, e as notícias de hoje deixam claro que ele estava é conspirando contra a República).

No dia seguinte (16/8), cinco dias depois da busca e apreensão contra Mauro Lourena Cid – o pai, Bergamo volta a falar de Bolsonaro:  “Mauro Lourena Cid começou a se afastar de Jair Bolsonaro depois que o filho foi pra prisão. O clima entre ele e Bolsonaro é de tensão. (...) apoiadores do ex-presidente creditam a frustração e atenção do general ao fato de ele não ter nenhuma noção de política e, portanto não entender os rumos que as coisas tomaram”.

Levando-se em conta os valores reacionários e machistas de Bolsonaro, ele busca se apresentar superior a Cid pai. Este, por sua vez, “não compreende e não tem noção de política”.

 Bolsonaro está tratando Cid pai como mulherzinha, e diminuindo sua importância. Construção discursiva com essa foi percebida por mim ao longo dos últimos três anos contra membros do Supremo Tribunal Federal.

Lembre do discurso de Bolsonaro contra Alexandre de Moraes no 7/9/21 (“Qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes, este presidente não mais cumprirá!”) e, no dia 31/3/22, Bolsonaro defenderia a ditadura e, mais uma vez, viria a agredir ministros do STF, como conta Guilherme Amado em Sem Máscara, p. 418: “Se não tem ideias, cala a boca. Bota a tua toga e fica aí. Não vem encher o saco dos outros”.

Depois de Alexandre de Moraes, Luis Roberto Barroso e Edson Facchin, é a vez de Mauro Lourena Cid ser tratado por Bolsonaro feito mulherzinha.

Mas, voltando a Mônica Bergamo, ontem ela publicou nota (que saiu na edição impressa de hoje), após ouvir os “apoiadores do ex-presidente”, que dá conta de que o grupo “não acredita que o ex-presidente possa ser preso nos próximos dias (...) Eles acreditam que Alexandre de Moraes (...) não teria a coragem de prendê-lo sem um motivo muito bem fundamentado.

A escolha da construção “não teria coragem de” não foi fortuita, e não foi sem querer. Foi deliberada, e mostra um Bolsonaro trucando Moraes.

O que Bolsonaro se esquece é que, nesse metafórico truco político, a Justiça sempre sai com o zap na mão. Não se truca com a Justiça, e ele já teve várias oportunidades de aprender essa lição.

Para além de Mônica Bergamo, a reportagem da Folha de hoje sobre a homenagem que Bolsonaro recebeu na Assembleia Legislativa de Goiás traz para o lead (ou seja, o assunto mais importante e de maior relevo) o fato de que o ex-presidente “corre risco no Brasil”.

Esse “Corre risco”, sem maiores explicações, pode aludir até mesmo a risco de vida. Mas o texto explica que o risco que ele corre é o de ser preso.

Resumindo: Folha e Estadão estão dando palco para Bolsonaro e para militares. Isso não é pouca coisa, e isso demonstra a movimentação, na sombra, de atores políticos que só se movem nas sombras.

Tem que ficar esperto com isso, tem que acompanhar.

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