Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo, chegou ao cargo vendendo a imagem de um moderado, um técnico capaz de superar a popularidade do presidente Lula (PT) com uma gestão “eficiente e conciliadora”. No entanto, suas ações revelaram a essência de um bolsonarista radical, mais alinhado aos interesses do empresariado bilionário do que às necessidades da população paulista. Sua tentativa de saturar as rodovias do estado com pedágios free flow, priorizando os lucros das concessionárias, reforçou a percepção de que Tarcísio governa para os ricos, ignorando o impacto de suas políticas sobre o cotidiano dos cidadãos.
O projeto, que previa 16 novos pórticos até o fim do ano, segundo a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp), utilizaria câmeras e sensores para cobrar tarifas via tag, aplicativo ou outros meios digitais, mas foi recebido como uma afronta por onerar deslocamentos cotidianos, muitas vezes dentro de um mesmo município. Em Sorocaba, moradores, liderados pelo prefeito aliado Rodrigo Manga (Republicanos) e pela Câmara Municipal, rejeitaram pórticos na Raposo Tavares que cobrariam tarifas até para trajetos entre bairros. Em atos, manifestantes gritavam “Tarcísio, vacilão, pedágio, não!”, enquanto o deputado Vitão do Cachorrão (Republicanos) deitou-se à beira da rodovia em protesto.
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Em Cotia, moradores do bairro Mirante da Mata protestaram em 3 de agosto contra um pórtico no quilômetro 37,5 da Raposo, exigindo “metrô, mobilidade e respeito”. No Vale do Ribeira, pórticos na rodovia Padre Manoel da Nóbrega (SP-55) geraram revolta, assim como em Santos, onde o pórtico no quilômetro 236 da Rio-Santos, entre Iriri e Caruara, onerava trajetos locais. Em Piracicaba, a Frente Parlamentar contra a Instalação de Pedágio na SP-304 barrou três pórticos nos quilômetros 122, 144 e 154, enquanto em Mogi das Cruzes, a prefeita Mara Bertaiolli (PL) obteve uma liminar em 15 de outubro suspendendo o pedágio na Mogi-Dutra. O “chumbo” estava vindo até de bolsonaristas como Tarcísio, alguém que não está conseguindo agradar nem seus correligionários.
Neste cenário de terra arrasada, ou melhor, de “imagem arrasada”, seu governo passou a “deixar pra lá” a efetivação dessas praças de cobrança espalhadas pelas estradas de todo o estado. Mas será mesmo que Tarcísio “mudou”? Não, não é o que se espera, nem o que se constata.
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Nas redes sociais, a rejeição a essas iniciativas é avassaladora: um levantamento da AP Exata, encomendado pelo jornal O Estado de S. Paulo, mostrou que, nos últimos 30 dias, 6,9 mil publicações únicas no X, TikTok e Instagram, com 21 mil comentários, alcançaram 9 milhões de pessoas, sendo 63,3% contrárias aos pedágios e apenas 25,4% favoráveis. Mesmo entre perfis da direita bolsonarista, 55,8% criticam a iniciativa, e a base de Tarcísio na Assembleia Legislativa se dividiu, com deputados de direita se manifestando contra a medida, expondo a fragilidade de um governador que parece mais interessado em convescotes com a Faria Lima do que em ouvir os paulistas.
A tentativa de impor cobranças até para quem não possui tag, com prazo de 30 dias para pagamento sob risco de multas, escancarou a prioridade dada às concessionárias, cujos contratos garantem lucros. Os recuos anunciados, como a exclusão ou ajuste de pórticos, parecem apenas mais uma encenação de um bolsonarista que, pressionado, finge mudar sem alterar sua essência de defensor das elites.
Inimigo número 1 do Brasil
A queda vertiginosa da popularidade de Tarcísio culminou em sua transformação no “inimigo número 1 do Brasil”. Em 28 de agosto, a Operação Carbono Oculto da Polícia Federal expôs a relação entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e setores da Faria Lima. O esquema incluía mais de mil postos de gasolina, 40 fundos de investimento com ativos de R$ 52 bilhões e fintechs, operando no coração financeiro de São Paulo. O escândalo colocou Tarcísio em uma posição delicada: como as polícias do estado, que ele descreve como “as mais preparadas e estruturadas” do país, não detectaram essa rede criminosa enquanto o governador se dedicava a reuniões com os barões da Faria Lima?
Para completar o desmoronamento de sua imagem política, houve ainda a crise do metanol, quando bebidas alcoólicas destiladas adulteradas com esse mortal produto químico passaram a envenenar os paulistas, dos bairros mais pobres aos mais ricos. Tarcísio, em uma coletiva ao lado de executivos das principais empresas do setor, tentou demonstrar desenvoltura, mas acabou ecoando o desdém bolsonarista com uma frase que remete ao infame “e daí, eu não sou coveiro”, de Jair Bolsonaro (PL) na pandemia.
Com tom de desprezo disfarçado de descontração, o governador declarou que “só vai se preocupar quando a Coca-Cola for adulterada”, insinuando que bebida alcoólica “não é sua praia” em um discurso moralista que soou como uma reprimenda aos cidadãos que consomem álcool. A fala, que minimizou a gravidade do escândalo, foi recebida como uma ofensa, forçando-o a fazer um pronunciamento pedindo desculpas, numa tentativa de conter o estrago à sua imagem já abalada.
Por último, o golpe final veio com sua atuação nos bastidores para sabotar o governo Lula, liderando uma articulação de parlamentares que derrubou a Medida Provisória dos Impostos, que poderia injetar até R$ 35 bilhões em programas sociais, infraestrutura, saúde e educação. Sob o pretexto de que Lula “taxa os cidadãos”, Tarcísio alinhou-se aos setores do bolsonarismo no Congresso para distorcer a realidade: a MP tributava apenas grandes investidores, donos de bets e magnatas até então quase isentos. A manobra consolidou a imagem de um governador que protege os interesses dos ricos enquanto transfere o peso de suas políticas para os ombros da população mais pobre, reforçando sua pecha de defensor das elites.