CAPITÃO DERRITE

Relatório de Derrite irrita até bolsonaristas: “queimou a largada”, disse Castro

Pressionado por aliados, ele teve que recuar e adiar votação do projeto antifacção na Câmara

Derrite.Créditos: TV Câmara/Reprodução
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A condução do projeto de lei antifacção pelo deputado e secretário licenciado de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite (PP-SP), provocou irritação até entre aliados bolsonaristas e levou ao adiamento da votação do texto na Câmara dos Deputados. O projeto, apresentado pelo Palácio do Planalto, vinha sendo alterado por Derrite em pontos considerados estratégicos pela oposição de direita, mas o ritmo acelerado imposto pelo relator gerou atritos dentro do próprio campo bolsonarista.

O mal-estar atingiu inclusive o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), um dos principais aliados de Derrite. Segundo informações da coluna de Malu Gaspar, no Globo, Castro considerou que o deputado “queimou a largada” ao antecipar a apresentação do relatório e pressionou o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), por 30 dias de prazo para discutir melhor o texto. Motta, no entanto, concedeu apenas adiamento até a próxima terça-feira (18), quando o projeto voltará à pauta como item único da sessão.

O pedido de prorrogação contou com apoio de outros governadores do chamado “Consórcio da Paz”, formado por gestores de direita — entre eles Romeu Zema (Novo-MG), Ronaldo Caiado (União Brasil-GO), Jorginho Mello (PL-SC) e a vice-governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP). O grupo avalia que Derrite não articulou politicamente a tramitação do projeto e acabou abrindo espaço para reação do governo Lula, que tenta sustar as mudanças defendidas pela oposição.

“Meu substitutivo nunca foi uma linha de chegada, e sim um ponto de partida”, disse Derrite ao admitir a necessidade de mais tempo para debate.

Estratégia e desgaste político

Entre os aliados de Castro, a leitura é de que adiar a votação interessa à oposição, que quer prolongar o desgaste do governo Lula na área da segurança pública — tema considerado um dos pontos mais sensíveis do PT desde a megaoperação policial no Rio de Janeiro, em 28 de outubro, que deixou 121 mortos.

“O ideal seria fazer audiências públicas, depoimentos, reuniões, e manter o assunto vivo enquanto for possível colocar o governo Lula contra a parede”, afirmou um interlocutor do governador fluminense.

A bancada do PL, partido de Jair Bolsonaro, também endossou o adiamento. Publicamente, as lideranças alegaram a necessidade de buscar consenso sobre o texto, embora fontes do grupo admitam que a intenção é ampliar a pressão sobre o Planalto.

Derrite perde fôlego dentro do bolsonarismo

O episódio expôs ainda um racha interno entre bolsonaristas e enfraqueceu a posição de Derrite dentro do grupo. Aliados de Bolsonaro afirmaram à Folha que o deputado errou ao não costurar um consenso jurídico sobre seu relatório antes de apresentá-lo, abrindo espaço para críticas e forçando um recuo.

A falta de articulação também alimentou o avanço de outro nome bolsonarista na disputa pela vaga ao Senado em 2026: o vice-prefeito de São Paulo, coronel Mello Araújo (PL). A ala ligada ao ex-presidente esperava que Derrite transformasse o projeto em trunfo eleitoral, aproveitando o apoio popular às operações policiais contra facções criminosas.

Na sexta (7), segundo aliados, Derrite chegou a ser aconselhado a consultar especialistas, como o promotor Lincoln Gakiya, referência no combate ao PCC (Primeiro Comando da Capital), para validar tecnicamente o texto. O relator, no entanto, rejeitou a sugestão, defendendo sua própria experiência como oficial da Polícia Militar por mais de 20 anos.

Na tribuna da Câmara, na quarta (12), Derrite reagiu às críticas e emocionou-se ao citar familiares de policiais mortos na operação do Rio.

“Sabe por que o governo federal e alguns políticos estão criticando a proposta? Porque eles não conseguem debater o texto comigo”, afirmou, às lágrimas.

Tarcísio tenta conter danos

A condução de Derrite também gerou críticas ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), acusado por alguns bolsonaristas de não articular apoio ao secretário no Congresso. O Palácio dos Bandeirantes, porém, nega omissão.

A interlocutores, Tarcísio disse que a aprovação do projeto está bem encaminhada e que o objetivo é construir um texto de interesse nacional, acima de disputas partidárias ou eleitorais.

Com a votação marcada para a próxima semana, a expectativa no Congresso é de que o PL antifacção se transforme em mais um campo de disputa entre governo e oposição — e em um teste político para a própria coesão do bolsonarismo.

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