A investigação da Fórum sobre o “campeonato de cortes” pró Tarcísio de Freitas (Republicanos) deu um salto decisivo. Depois de revelar a existência da disputa com prêmio de R$ 50 mil, a reportagem identificou a plataforma responsável pelo torneio, obteve acesso ao painel interno do sistema e constatou que o campeonato foi cancelado após a denúncia.
Como mostrou a primeira reportagem da série, o esquema de cortes replica o modus operandi que levou Pablo Marçal (PRTB) a ser condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação. No caso de Tarcísio, o campeonato oferecia R$ 50 mil reais para quem mais impulsionar cortes de vídeos do governador nas redes, com regras rígidas e controle editorial. O governo de São Paulo nega qualquer relação com a iniciativa.
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Campeonato operava na plataforma Clipfyai
A Fórum identificou que o torneio era operado pela plataforma Clipfyai (clipfyai.com), usada para automatizar cortes e distribuição de vídeos. Dentro do painel interno, ao qual a Fórum teve acesso nesta quinta-feira (13), o campeonato aparece com o título “Tarcísio de Freitas - Novembro” e a descrição “Competição de Corte - Tarcísio Governador de São Paulo”.
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O registro aponta prêmio total de 50 mil reais, início em 3 de novembro, duração de 30 dias e término previsto para 3 de dezembro. O painel mostra ainda que 72 contas estavam inscritas na competição, publicando em TikTok, Instagram, YouTube, Kwai e Facebook, com regras que determinavam o uso de hashtags específicas ligadas ao governador.
Após a publicação da reportagem da Fórum, a Clipfyai registrou no servidor do Discord um comunicado aos participantes anunciando o fim da “Competição Tarcísio”. No aviso, obtido pela Fórum, a empresa afirma que a disputa está encerrada por causa da atitude de um “clipador mal intencionado” que teria divulgado prints de conversas de WhatsApp.
Segundo o texto, esses prints “acabaram chegando a jornalistas, com clara intenção de manchar a imagem do candidato e gerar exposição desnecessária”.
O comunicado ainda informa que "para evitar qualquer tipo de dano à imagem do Tarcísio, de vocês e da nossa empresa, decidimos encerrar a competição imediatamente". Ou seja, a plataforma cujo objetivo era promover o governador, inverte a lógica e acusa a reportagem de ser a causa do "dano".
Clipfyai admite farsa, mas chama Tarcísio de "candidato"
No mesmo aviso, a Clipfyai afirma que “precisa ser 100% transparente” e reescreve a história. A empresa diz que o campeonato “sempre foi uma campanha de marketing da nossa empresa, criada por nossa iniciativa” para chamar a atenção de Tarcísio e de sua equipe e “tentar trazê-lo para a nossa base de clientes”.
A nota insiste que “nunca houve contratação, autorização ou pedido oficial da equipe do Tarcísio” e que a premiação seria paga com recursos próprios. Em seguida, admite que, ao conversar com os participantes, os organizadores falaram como se orientações tivessem partido da “equipe do Tarcísio” e reconhece que isso “não foi verdadeiro”, atribuindo o comportamento à “empolgação”.
A justificativa contrasta com o conteúdo das mensagens reveladas pela Fórum, em que os organizadores falam em “solicitação imediata da equipe de Tarcísio” e determinam, em tom de ordem, que os cortes deixem de associar o governador à imagem de Jair Bolsonaro, sob pena de punição. Ao mesmo tempo, ao justificar o cancelamento, a Clipfyai se refere a Tarcísio como “candidato”, embora ele ocupe o cargo de governador, revelando a natureza eleitoral da operação.
Com base no painel da Clipfyai, ao menos 72 produtores de conteúdo foram mobilizados. Um levantamento feito pela Fórum nas redes sociais, utilizando ferramentas de monitoramento de API, confirma o impacto da reportagem: as postagens com as hashtags oficiais do torneio (como #tarcisiocortes) cessaram quase que imediatamente após a publicação da denúncia.
Caso entra no radar da justiça eleitoral
A investigação da Fórum, aprofundada pela revelação do perfil de quem expôs o caso, já tem consequências. Como mostrou outro texto publicado pela Fórum, a competição pode levar Tarcísio a se tornar alvo de investigação do Ministério Público Eleitoral.
Até aqui o MPE tinha apenas prints e o rastro público nas redes. Com a identificação da Clipfyai como sistema que hospedou o campeonato, a investigação ganha um alvo concreto: a empresa pode ser chamada a explicar quem financiou a premiação e quem lucrou com a operação.
A Clipfyai é o nome fantasia da Clipfy Softwares Tecnologia Ltda, empresa de tecnologia registrada em Niterói, no Rio de Janeiro. Documentos públicos indicam como sócios-administrators Daniel Camargo Antunes e Murilo Rocha Carneiro. Os sócios controlam também outras empresas ligadas a tecnologia e inteligência artificial. Uma reportagem específica sobre o histórico desses empresários e a rede de negócios ligada à Clipfyai será publicada pela Fórum.
Rastros digitais e o silêncio do Palácio
Com o sumiço apressado do campeonato e a manutenção de seus registros no painel interno, o caso da Clipfyai fornece uma radiografia de como atores privados têm operado para turbinar a presença de políticos nas redes.
Enquanto a empresa tenta reescrever a narrativa, permanecem as evidências de que 72 produtores de conteúdo foram mobilizados pela projeção digital de Tarcísio de Freitas, tratado pela própria plataforma como “candidato”.
A situação levanta um questionamento que o Palácio dos Bandeirantes terá de responder: se a própria Clipfyai admite que a ação foi "para chamar a atenção" do governador e cometeu "erros" em seu nome, qual será a postura oficial? Se a empresa cometeu um suposto crime eleitoral ao usar o nome de Tarcísio, o governador e o Estado de São Paulo exigirão punição? Ou o marketing que alavancou milhões de visualizações para o governador será tacitamente aceito, apesar das graves contradições?