FIM DA LINHA

Cela de Bolsonaro na Papuda: 2 servidores da Saúde para 3 mil detentos

Relatório divulgado às vésperas do fim do julgamento dos embargos, que deve levar Bolsonaro à prisão, fortalece narrativa da vice-governadora Celina Leão de que não tem como preparar o cardápio do ex-presidente

Celina Leão com Michelle e Jair Bolsonaro.Créditos: Reprodução / Instagram
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A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) encerra nesta sexta (14) o julgamento dos segundos embargos de declaração apresentados por Jair Bolsonaro e outros seis réus do núcleo central da tentativa de golpe de 2022. Este é o último recurso pendente nesta fase. Caso seja rejeitado, o processo que condenou o ex-presidente a 27 anos e 3 meses de prisão chega a seu desfecho definitivo.

Um dos lugares para onde o ex-presidente pode ir, o Centro de Internamento e Reeducação (CIR), no Complexo Penitenciário da Papuda, opera com apenas dois servidores da Secretaria de Saúde do Distrito Federal responsáveis pelo atendimento de 3.296 presos.

Em relatório divulgado nesta quinta-feira (13), que fortalece a narrativa de Celina Leão, a Defensoria Pública do Distrito Federal (DPDF) aponta problemas graves nas alas 5 e 6 do CIR, afirmando que elas não têm condições de abrigar pessoas com 60 anos ou mais, Bolsonaro tem 70. O órgão cita deficiências na alimentação, falta de materiais básicos de higiene, ventilação inadequada e lentidão no atendimento médico a detentos doentes.

Os defensores públicos estiveram no CIR em 6 de novembro e verificaram que a unidade dispõe de somente dois servidores da área de Saúde para atender os detentos. Segundo a DPDF, “o baixo quantitativo de servidores da saúde (apenas dois) para atender uma população de 3.296 pessoas demonstra-se cabalmente insuficiente”. O relatório não informa quais são as especialidades desses profissionais.

Na ala ‘A’ do bloco 5, destinada a presos idosos, há 38 detentos por cela e apenas 21 camas. O documento ressalta que “o restante das pessoas lá alocadas pernoita no chão, em colchões, os quais também são objeto de inúmeras reclamações dos presos, especialmente em razão da espessura, ou em redes, havendo relatos, inclusive, de acidente com um interno idoso que fraturou a perna ao cair da rede”.

Os defensores públicos, ao visitarem o presídio em 6 de novembro, ouviram detentos com comorbidades que denunciaram a morosidade no atendimento de saúde. As queixas incluíram ainda a ausência de acompanhamento por um proctologista.

Entre as recomendações, a Defensoria Pública do DF sugere estabelecer um teto para o número de presos no CIR, evitando que a lotação ultrapasse a capacidade estrutural e funcional da unidade. Também propõe a realização de um mutirão de atendimento médico, dando prioridade a pessoas com deficiência e idosos com mais de 80 anos.

O relatório inclui ainda pedidos de reforço nas equipes, especialmente de policiais penais e profissionais da saúde, além da ampliação do corpo médico e multiprofissional, priorizando atendimentos regulares a detentos com doenças crônicas, comorbidades, deficiência ou idade mais avançada.

Outra possibilidade analisada para o cumprimento da pena de Bolsonaro é o 19º Batalhão da PMDF, a Papudinha. Reportagem do Metrópoles mostrou que, em junho de 2025, o local recebeu uma emenda parlamentar de R$ 500 mil para melhorias nos alojamentos usados pelos policiais de serviço.

Celina Leão diz que Papuda não tem como preparar cardápio de Bolsonaro

A vice-governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), saiu em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ao afirmar na segunda-feira (10) que o Complexo Penitenciário da Papuda “não tem condições” de recebê-lo. Condenado a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado, Bolsonaro, segundo ela, mereceria um tratamento diferenciado — com direito a cardápio especial e atenção redobrada.

“Ele precisa de uma dieta especial, tem idade avançada, trata-se de um ex-presidente. Se for bem cuidado, vai ter uma vida prolongada”, declarou Celina em entrevista ao SBT News, sugerindo que o ex-mandatário deveria receber cuidados incompatíveis com o sistema prisional comum.

A vice-governadora foi além ao criticar as instalações da Papuda, presídio que abriga milhares de detentos de Brasília. “Não temos condições de preparar uma comida especial de que ele necessita por causa das cirurgias. E, mesmo nas áreas mais isoladas, as condições não são adequadas para um ex-presidente”, disse.

A fala de Celina chamou atenção pelo tom de deferência a Bolsonaro, de quem é próxima. Amiga da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e presença constante em atos pró-anistia, a vice-governadora esteve, em agosto, na casa onde o ex-presidente cumpre prisão domiciliar preventiva, e não poupou elogios à família.

Enquanto aliados tentam suavizar o cenário, o ex-presidente aguarda a conclusão do julgamento de um recurso no Supremo Tribunal Federal (STF). Na última sexta-feira (7), a Primeira Turma da Corte rejeitou por unanimidade o pedido da defesa. O julgamento virtual segue até esta sexta (14), e, com o fim dos recursos, Bolsonaro poderá ser transferido para um presídio — ainda que, segundo Celina, a Papuda não esteja “à altura” do seu hóspede mais ilustre.

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