Enquanto a Polícia Federal (PF) fecha o cerca contra Victor Linhares, ex-assessor no Senado investigado por elo com o PCC, Ciro Nogueira (PP-PI) usou Guilherme Derrite (PP-SP), que busca desvirtuar o PL Antifacção do governo, para atacar Lula.
Nesta sexta-feira (14), um vídeo divulgado pela coluna Painel, da Folha de S.Paulo, mostra o ex-assessor de Ciro Nogueira fazendo festa, dentro de um jatinho, com os empresários Haran Santhiago Girão Sampaio e Danillo Coelho de Sousa, antigos donos da rede de postos de gasolina HD, que é apontada pela polícia como núcleo do suposto esquema de lavagem de dinheiro para o PCC.
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As imagens, de fevereiro de 2023, mostram Linhares dentro de um jato fazendo memes para publicação nas redes. Em outro vídeo, de julho de 2024, o ex-assessor de Ciro Nogueira aparece com os amigos em uma rua na Itália.
Horas após a publicação da reportagem, Nogueira foi às redes atacar Lula e o PT que, segundo ele, teriam usado dinheiro em propaganda "inclusive para acusar o deputado Derrite de querer tirar recursos da Polícia Federal". "No mundo da propaganda o PT vai bem, enquanto a realidade da segurança vai mal", ironizou, buscando lacrar na rede.
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Filiado ao PP em maio deste ano, Derrite recebeu de Ciro Nogueira a promessa de ser o candidato ao Senado da sigla por São Paulo. No entanto, o secretário de Segurança Pública foi exonerado por Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) para relatar o PL Antifacção.
A manobra consiste em antecipar o debate sobre segurança pública - considerado calcanhar de Aquiles do governo Lula - na disputa presidencial para favorecer Tarcísio. Derrite, então, pode sair candidato ao governo paulista. Nogueira tenta se cacifar para ser vice na chapa de Tarcísio.
Ao assumir a relatoria, no entanto, o deputado bolsonarista promoveu uma lambança jurídica e expôs a tentativa de blindar investigações da Polícia Federal nos Estados sem o aval dos governadores. A medida dificultaria, por exemplo, a investigação contra Linhares, que aconteceu como desdobramento da Operação Carbono Oculto, desencadeada na Faria Lima, em São Paulo, que apura lavagem de dinheiro do PCC por meio de fintechs.
Entenda
Ex-assistente parlamentar de Ciro Nogueira (PP-PI) na liderança do PP no Senado, Victor Linhares de Paiva foi exonerado do cargo de secretário municipal de Articulação Institucional de Teresina dois dias antes de ser alvo da Operação Carbono Oculto 86, que investiga um suposto esquema de lavagem de bilhões de reais para o Primeiro Comando da Capital (PCC).
A operação foi desencadeada na quarta-feira (5), dois dias depois da exoneração do ex-assessor de Ciro Nogueira, o que, para a polícia, levanta a hipótese de vazamento de informações privilegiadas.
À coluna Painel, da Folha de S.Paulo, a assessoria do prefeito Silvio Mendes (União Brasil), também aliado do presidente do PP, afirmou que "a mudança foi técnica e política e já estava programada havia meses". No lugar de Linhares, assumiu o ex-deputado Júlio Arcoverde, que também faz parte do grupo político de Nogueira no Estado.
Linhares foi alvo de busca e apreensão, mas não foi encontrado pela polícia em sua casa e ainda sequer foi ouvido. Segundo o ICL Notícias, o ex-assessor de Ciro Nogueira teria recebido R$ 230 mil de Haran Sampaio, antigo dono da rede de postos HD, que seria o epicentro do esquema criminoso no Piauí.
O dinheiro foi remetido pelo BK Bank, principal fintech investigada por lavar dinheiro do PCC.
Em julho, a revista Piauí já havia revelado que Linhares havia recebido R$ 625 mil de Fernando Oliveira Lima, o Fernandin OIG, amigo de Ciro Nogueira e investigado no esquema das Bets por ser responsável pelo "Jogo do Tigrinho" no Brasil.
No mesmo período, entre dezembro de 2023 e setembro de 2024, Linhares enviou R$ 35 mil para a conta pessoal de Ciro Nogueira. Em nota, o senador afirmou à época que o valor era o reembolso de uma reserva de hotel em Capri, na Itália, e que os R$ 625 mil foram o pagamento por um relógio de luxo, negociado diretamente entre o empresário e o seu ex-assessor.
A suspeita de vazamento da operação da última quarta-feira, dia 5, se deu ainda porque dois outros alvos da polícia - os empresários Haran Santhiago Girão Sampaio e Danillo Coelho de Sousa - viajaram para São Paulo e Brasília no dia anterior. A polícia ainda encontrou várias caixas de relógios de luxo vazias, aumentando ainda mais a hipótese de vazamento.