Enquanto discursa sobre reduzir o tamanho do Estado e cortar gastos com pessoal, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), acaba de ampliar a máquina em um órgão diretamente comandado por sua esposa.
Um decreto publicado no Diário Oficial criou 45 novos cargos comissionados no Fundo Social de São Paulo (FUSSP), presidido pela primeira-dama Cristiane Freitas.
Te podría interesar
O movimento expõe, mais uma vez, o contraste entre a retórica liberal de enxugamento da estrutura pública e a prática concreta de reforço de cargos de confiança em áreas sensíveis do governo, em plena pré-campanha para 2026.
Decreto reestrutura Fundo Social e gera saldo de 45 novos cargos
O Decreto 70.050, de 5 de novembro de 2025, aprovado por Tarcísio, reorganiza a estrutura do FUSSP, vinculado à Casa Civil, e redefine o quadro de cargos em comissão e funções de confiança do órgão. O texto determina que a nova estrutura entra em vigor em 1º de dezembro de 2025, revogando uma série de normas anteriores que tratavam da organização da entidade.
Te podría interesar
A reestruturação extinguiu 73 cargos e criou 118 novas vagas, resultando em um saldo líquido de 45 postos adicionais de livre nomeação. Entre as funções criadas ou reorganizadas estão assessorias especiais, chefia de gabinete, assessoria de imprensa, cerimonial, coordenação de compras e áreas de apoio operacional no entorno direto da presidência do conselho do Fundo.
O próprio decreto detalha uma estrutura robusta ao redor da presidência do Conselho Deliberativo, com chefia de gabinete, assessoria especial, subsecretaria de gestão corporativa, diretoria orçamentária e financeira, diretoria administrativa e diretoria geral de planejamento e gestão de políticas públicas, além de áreas responsáveis por comunicação digital, parcerias e articulação regional, arrecadação de doações, gestão de voluntariado e programas como as Praças da Cidadania.Na prática, Tarcísio autoriza um reforço político-administrativo em um organismo que responde diretamente à cúpula do governo e é comandado, na linha de frente, pela primeira-dama. O reforço se dá justamente em cargos comissionados, sem concurso público, em um órgão criado para atender população em situação de vulnerabilidade social.
Promessa de cortar comissionados e discurso de “Estado mínimo” em xeque
Desde 2023, o governo paulista vende à opinião pública uma “reforma administrativa” que prometia reduzir em cerca de 20% o número de cargos comissionados e funções de confiança no estado. A Lei Complementar 1.395/2023 e decretos subsequentes foram apresentados como marco de racionalização da máquina, com corte de mais de 5 mil cargos.
Dados divulgados à época mostram que o universo de 26.991 cargos comissionados e funções de confiança cairia para 21.592, um corte formal em torno de 20%. A maior parte das vagas extintas, porém, já estava desocupada, o que diminui o impacto real da medida sobre a folha de pagamento e revela um ajuste muito mais contábil do que estrutural.
Mesmo assim, Tarcísio passou a repetir que seu governo estaria “cumprindo as promessas de campanha” e dando exemplo de austeridade. Em 2024, em evento público, o governador resumiu sua agenda com uma frase que virou slogan de apresentação a investidores: “A gente tem que reduzir o tamanho do estado, reduzir o gasto de pessoal”. A criação de 45 novos cargos comissionados em um único órgão presidido pela esposa entra em choque direto com esse discurso.
O decreto que reorganiza o FUSSP se ancora justamente na legislação aprovada para a reforma administrativa, citando a mesma lei complementar e o decreto que desenha o novo modelo de cargos em comissão no estado. Na prática, o que foi vendido como mecanismo de contenção vira instrumento para concentrar poder político e ampliar estruturas de confiança em áreas sensíveis para a imagem do governo.
Fundo Social: orçamento crescente e comando nas mãos da primeira-dama
Criado em 1968, o Fundo Social de São Paulo tem como função desenvolver programas de assistência, inclusão e geração de renda para pessoas em situação de vulnerabilidade.
De cursos de qualificação profissional a campanhas de arrecadação de doações, passando por projetos como as Praças da Cidadania, o órgão se tornou vitrine social dos diferentes governos que passaram pelo Palácio dos Bandeirantes.
Historicamente, o FUSSP costuma ser presidido pela primeira-dama do estado. A própria trajetória da instituição registra uma sucessão de esposas de governadores à frente do fundo, o que consolidou um modelo de “cartório social” vinculado diretamente à família que ocupa o poder no governo paulista.
Na gestão Tarcísio, a presidência está nas mãos de Cristiane Freitas, primeira-dama formada em gestão pública, que ganhou espaço em agendas oficiais, homenagens na Assembleia Legislativa e encontros com primeiras-damas municipais. A atuação a projeta como figura central em redes de poder locais, especialmente por meio das articulações com fundos sociais de prefeituras e programas de capacitação espalhados pelo interior.
O FUSSP também ganhou visibilidade na imprensa em situações de emergência, como nas enchentes do Litoral Norte em 2023, quando foi apresentado pelo governo paulista como canal institucional para recebimento de doações destinadas às vítimas. Em documentos orçamentários, a unidade orçamentária do Fundo Social aparece com dotação superior a R$ 77 milhões para 2024, montante que tende a crescer com a expansão de programas e da própria estrutura administrativa.
Em paralelo, reportagens anteriores mostraram o peso político da primeira-dama nas decisões do núcleo duro do governo. Em fevereiro de 2025, por exemplo, matéria da Revista Fórum revelou que a resistência de Cristiane Freitas em deixar o bairro do Morumbi foi um dos fatores citados nos bastidores para que Tarcísio mantivesse a residência oficial no Palácio dos Bandeirantes, mesmo ao estudar a transferência simbólica do governo para a região da Cracolândia, no centro de São Paulo.
Assistência social como vitrine e plataforma política
O desenho do novo Fundo Social reforça sua posição estratégica no governo paulista. A estrutura descrita no decreto atribui ao órgão a coordenação de programas de qualificação profissional, doações, convênios com organizações da sociedade civil e parcerias com fundos sociais municipais, além da gestão das Praças da Cidadania e de ações de acolhimento em situações de desastre.
Em um contexto de crise social prolongada, inflação de alimentos e aumento da pobreza, quem controla esse tipo de política controla também uma vitrine poderosa de legitimidade. Distribuição de cestas básicas, cursos profissionalizantes, inauguração de equipamentos em periferias e no interior se convertem em cenas frequentes de exposição da primeira-dama ao lado de prefeitos aliados, parlamentares da base e lideranças religiosas.
Com mais cargos comissionados à disposição, cresce a margem para montar equipes alinhadas politicamente e para usar a burocracia do FUSSP como canal de fidelização de prefeitos, primeiras-damas municipais e entidades beneficentes, muitas delas com vínculos diretos com o campo conservador. O discurso da solidariedade e da filantropia funciona como fachada respeitável para uma engrenagem de poder que opera longe dos holofotes mais duros da fiscalização institucional.