A pesquisa qualitativa Retratos do Progressismo no Brasil, lançada nesta quarta-feira (26) e realizada com grupos focais presenciais distribuídos em nove capitais do país, traz detalhes sobre como pensam os eleitores que votaram em Lula nas eleições de 2022. Segundo o levantamento, que dividiu os participantes em dois grupos, um que votou no candidato do PT no primeiro e no segundo turnos e outro que votou apenas no segundo, mesmo entre segmentos mais próximos da esquerda, o sentimento antissistema permanece forte, embora não se traduza em rejeição à democracia como acontece na direita e extrema direita.
Críticas ao Congresso e sentimento antissistema
Um dos achados centrais é a percepção generalizada de que Lula tem dificuldades para governar, sobretudo pela atuação da direita no Congresso Nacional. Em todos os grupos focais, a avaliação negativa em relação ao Legislativo apareceu como um dos principais entraves para a atuação do governo.
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“A principal diferença é que o primeiro grupo [que votou em Lula nos dois turnos] apresenta uma adesão mais enraizada à esquerda, enquanto no segundo prevalece mais uma rejeição a Bolsonaro do que uma preferência por Lula. Já a semelhança encontrada foi a convergência de ambos os grupos quanto ao diagnóstico de que o atual presidente enfrenta obstáculos consideráveis para governar, especialmente a força da direita no Congresso Nacional”, pontuam os autores.
Uma participante sintetizou o sentimento comum a boa parte dos grupos: “Como que a gente elegeu o presidente de esquerda e todos os nossos deputados são de direita, né? (...) Você não elege um presidente que vai governar sozinho. Ele precisa de todos aqueles deputados e senadores que foram eleitos, e a gente tem visto bastante essa questão, né? Do presidente que é uma coisa, mas lá no Senado, na Câmara, é todo mundo o contrário”, diz uma mulher de 48 anos, parda, com ensino superior e evangélica, eleitora de Lula nos dois turnos.
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A avaliação conecta-se diretamente à leitura crítica sobre a PEC da Blindagem e ao mote “Congresso Inimigo do Povo”, citado pelos eleitores durante o estudo realizado pelo Núcleo Ypykuéra com o Observatório Político e Eleitoral (Opel), ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e à Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
Novas lideranças e um outro conceito de prosperidade
O desejo de novas lideranças aparece como uma alternativa concreta ao mal-estar com o sistema, e uma fala emblemática revela como parte desse eleitorado enxerga o papel das elites econômicas e políticas na manutenção das desigualdades históricas do país.
“Se você olhar a imagem do Congresso ou de um político comum no Brasil, é quase sempre um homem branco, muitas vezes mais velho, herdeiro... Acredito muito em novas lideranças. Enquanto movimento negro e periférico, também precisamos pensar em ocupar a política, em ser político. Mesmo que já existam algumas candidaturas negras e periféricas importantes, quanto mais a gente tiver, mais vai mudar”, sintetiza uma eleitora do Recife, de 33 anos, branca, com ensino superior e católica, eleitora de Lula só no segundo turno.
As avaliações dos grupos também reforçam a identificação feita entre a esquerda e o que se entende por defesa do povo. Para os entrevistados, a esquerda é associada a políticas dirigidas aos mais pobres, enquanto a direita representa os interesses dos ricos e do conservadorismo.
O documento resume: “O principal reforço de identidade do segmento do eleitorado mais propenso a votar na esquerda com o campo progressista é, sem nenhuma dúvida, o diagnóstico de que a esquerda prioriza a maioria da população em suas políticas. Essa conclusão dialoga diretamente com o sentimento antissistema apresentado na segunda parte e expressa um comportamento político por parte destas eleitoras e eleitores que prioriza o combate às desigualdades como objetivo principal da democracia”.
Segundo o levantamento, existe também uma “concepção ampliada de prosperidade” no campo dos eleitores progressistas. Para a maioria dos participantes, prosperidade não se limita à renda, mas inclui oportunidades, educação e bem-estar. Como descreve o relatório, “a prosperidade vai além do aspecto financeiro e engloba o acesso a oportunidades”.
Empreendedorismo
Nesse aspecto, o estudo traz a importância da pauta da educação como promotora da prosperidade para os eleitores progressistas. O tema apareceu em todos os grupos focais, embora não aparecesse de forma específica em nenhuma pergunta do questionário. Surgiu, inclusive, ligado a outro tema recorrente: o empreendedorismo.
"O empreendedor se vê como um batalhador, como alguém que quer melhorar as suas condições de vida. E a esquerda é vista como os defensores deles. Eles veem nos grandes os seus adversários, porque eles são pequenos, sabem das condições dos bancos, por exemplo, que os taxam o tempo todo", explica o educador popular, ativista socioambiental e articulador comunitário no Rio de Janeiro, Wesley Teixeira, um dos coordenadores da pesquisa.
Contudo, muitas vezes a direita consegue trazer os empreendedores para o seu lado por conta de narrativas manipuladoras. "Ao mesmo tempo, a extrema-direita formulou um discurso que os coloca contra a esquerda, dizendo que o Estado é seu inimigo. Assim, oferecer um Estado que consiga garantir seguridade social, mas, ao mesmo tempo, oportunidades de negócios, é muito importante."
Por fim, o relatório aponta que, apesar do cansaço com a política, muitos eleitores continuam acreditando na possibilidade de transformação por meio da participação democrática. “Eu ainda acredito na política, por mais que tenha muita coisa, assim, tentando convencer o contrário, mas eu ainda acredito”, relata uma mulher de 26 anos, preta, com formação no ensino médio, umbandista e moradora do Rio de Janeiro, eleitora de Lula nos dois turnos.
“A grande questão que a pesquisa também mostra é que o nosso antissistema não está organizado. As pessoas ainda esperam uma nova formulação — o que vai ser, o que vamos colocar no lugar do que está aí. Isso, no nosso caso, ainda não está envelopado”, explica Teixeira. “É por isso que as pesquisas também sugerem que existem caminhos para o progressismo. A educação é um caminho forte, assim como a prosperidade é um anseio e um desejo desse campo.”
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