SEGUINDO OS PASSOS

Golpe da gasolina de Ramagem já foi aplicado por Bolsonaro quando era deputado

Esquema em notas para ficar com dinheiro da verba rendeu dor de cabeça ao líder extremista, mas ele conseguiu se livrar da ação quando era presidente, após a PGR arquivá-la

Créditos: Eduardo Anizelli/Folhapress
Escrito en POLÍTICA el

Já dizia o adágio criado pelo fenomenal Abelardo Barbosa, o Chacrinha: "No mundo, nada se cria, tudo se copia”. Pois é, esse é exatamente o caso da história envolvendo o deputado federal bolsonarista Alexandre Ramagem (PL-RJ), condenado a 16 anos de prisão por integrar o núcleo duro da tentativa de golpe de Estado que culminou no 8 de janeiro, que agora é acusado de continuar pedindo reembolso de combustível à Câmara dos Deputados mesmo depois de ter fugido para os EUA, onde está escondido. Documentos obtidos pelo jornal O Globo mostram que, desde a evasão, ele apresentou notas que somam cerca de R$ 4,7 mil emitidas em seu CPF em postos do Rio de Janeiro, várias delas em horários exatos em que participava de sessões plenárias de forma remota. Ele estaria abastecendo e circulando no Rio, mas já vivendo escondido na Flórida. Tudo isso para receber esse valor e embolsá-lo.

O esquema que pesa sobre Ramagem agora, de apresentar notas fiscais de altos valores ou emitidas em datas e locais incompatíveis com a presença do deputado, já havia sido atribuído anteriormente a seu líder político, Jair Bolsonaro (PL), entre os anos de 2009 e 2011, quando ele era deputado federal também pelo Rio.

Investigação da Agência Sportlight à época identificou 11 abastecimentos suspeitos em nome do hoje condenado Jair Bolsonaro, a maioria nos postos Rocar (Barra da Tijuca) e Pombal (Tijuca), com compras médias superiores a mil litros de gasolina por operação e valores que, corrigidos, chegavam a mais de R$ 4 mil por nota. O prejuízo estimado, já com correção monetária, foi de R$ 45.329,48 em 2021.

No caso de Bolsonaro, parte das notas foi emitida em dias em que ele assinou presença em sessões em Brasília, como em 2 de junho de 2009, quando registrou R$ 4.765,28 (valor corrigido) no Rio no mesmo dia em que constava na lista de presença da Sessão Extraordinária nº 133 da Câmara. Pelo menos outras três situações semelhantes foram encontradas.

À época, a norma exigia que apenas o próprio deputado realizasse o abastecimento, informando nome, CPF e endereço. A denúncia baseada na reportagem chegou ao STF em abril de 2021, quando ele já era presidente. No mesmo ano, porém, a Procuradoria-Geral da República, pelas mãos do então vice-procurador-geral Humberto Jacques de Medeiros, determinou o arquivamento sem analisar o mérito, alegando que Bolsonaro, então presidente da República, gozava de imunidade temporária a processos por fatos anteriores ao mandato presidencial (art. 86, § 4º, da Constituição).

Hoje condenado e preso pela tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente jamais foi julgado pelo desvio das verbas de combustível, exatamente o mesmo tipo de fraude que seu aliado Alexandre Ramagem é acusado de repetir atualmente.

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