O grupo empresarial ligado à Refit teria usado ao menos 15 offshores registradas nos Estados Unidos, além de rede de fundos de investimento, para a lavagem de dinheiro equivalente a cerca de R$ 1 bilhão através de imóveis e da remessa camuflada de recursos no exterior, de acordo com informações da Receita Federal (RFB) nesta quinta-feira (27).
LEIA TAMBÉM:
Grupo Refit, de Ricardo Magro, o maior devedor de ICMS, é alvo de megaoperação
Ricardo Magro é DJ Orgam e fez set de música para Rueda, presidente do União Brasil
Te podría interesar
O braço internacional chama a atenção pela escolha do estado nos EUA: Delaware, conhecido por oferecer anonimato societário, baixa transparência e isenção tributária para empresas que operam fora do território estadunidense.
Ao menos 15 offshores do grupo estavam registradas em Delaware, e enviavam dinheiro ao Brasil para compra de participações e imóveis, totalizando cerca de R$ 1 bilhão. Além disso, mais de R$ 1,2 bilhão foi remetido ao exterior na forma de contratos de mútuo convertíveis em ações — mecanismo que permite ao dinheiro retornar “lavado” como investimento estrangeiro. Outra peça-chave da engrenagem foi a compra de uma exportadora em Houston, no Texas, por meio da qual o grupo importou R$ 12,5 bilhões em combustíveis desde 2020.
Te podría interesar
A refinaria Refit, alvo da Operação Poço de Lobato da RF nesta quinta, pertence ao empresário Ricardo Magro, considerado o maior de ICMS do estado de São Paulo. O grupo tem dívidas que superam a marca de R$ 26 bilhões, e a investigação demonstra um modelo estruturado de fraude nacional e internacional.
A engrenagem
O grupo operava em toda a cadeia do combustível, da importação à venda, articulando:
- importadoras usadas como “laranjas” para trazer nafta, diesel e hidrocarbonetos ao país;
- distribuidoras e formuladoras que sonegam tributos;
- postos de combustíveis revertidos em “pontos finais” do esquema;
- teia administrativa de holdings, empresas financeiras e fundos de investimento que mascaravam lucros e escondiam beneficiários.
Entre 2020 e 2025, o grupo importou mais de R$ 32 bilhões em combustíveis, muitas vezes mediante declarações falsas, como gasolina registrada como “derivados para industrialização”. A Agência Nacional de Petróleo (ANP) já havia interditado uma refinaria ligada ao grupo por suspeitas de adulteração e ausência de comprovação do processo de refino.
A blindagem patrimonial envolvia 17 fundos de investimento, que juntos acumulam patrimônio líquido de R$ 8 bilhões. Grande parte deles é formada por fundos fechados com um único cotista — geralmente outro fundo, criando um labirinto contábil que favorece a opacidade e complica a fiscalização. A Receita aponta indícios de que administradoras e gestoras desses fundos colaboraram com o esquema, omitindo informações obrigatórias.
O núcleo financeiro era tão estruturado que uma única empresa-mãe controlava diversas financeiras “filhas”, responsáveis por movimentar mais de R$ 72 bilhões em apenas um ano. O grupo operava 47 contas bancárias, muitas associadas a “contas-bolsão”, mecanismo que dificulta rastreamento e permite o trânsito rápido e silencioso de grandes valores.
A operação
A ação mobilizou cerca de 600 agentes em cinco estados e no Distrito Federal, cumprindo 126 mandados de busca e apreensão. Além da Receita, atuam no caso o Ministério Público de São Paulo, a PGFN, a Sefaz-SP, a PGE-SP e as forças policiais.
A megaoperação, batizada em referência ao primeiro poço de petróleo perfurado no Brasil, é um desdobramento da Operação Carbono Oculto, que ligou a atuação da facção Primeiro Comando da Capital (PCC) à Faria Lima. Constata-se, ainda, que o grupo alterou operadores e empresas após este fato.