A suposta “guerra” declarada contra a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao STF – com direito a sabatina marcada para 10 de dezembro e ameaças explícitas de rejeição – não tem nada de ideológica, nem de defesa da “moralidade” ou do “perfil técnico”. É, na essência, uma operação de chantagem clássica do Centrão, executada por quem hoje controla duas das chaves mais valiosas do Orçamento: as emendas de comissão e as emendas Pix do Senado.
Os sinais são claros. Nos bastidores, interlocutores do governo confirmam que Alcolumbre está furioso com o ritmo lento na liberação de recursos de emendas que ele mesmo indica – bilhões de reais que saem diretamente do caixa da União para prefeituras e entidades alinhadas ao seu grupo no Amapá e em outros estados. O segundo motivo, tão ou mais importante, é a fome por mais cargos de primeiro e segundo escalão. O senador já emplacou nomes em diretorias de estatais, fundos de previdência e agências, mas considera a fatia atual insuficiente diante do poder que exerce como presidente do Senado e da CCJ.
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Tudo o mais – a reclamação de que Lula não o “consultou” antes de escolher Messias, a súbita defesa de Rodrigo Pacheco como nome “mais adequado”, a alegação de “falta de diálogo” – é teatro. São pretextos que servem para consumo externo e para pressionar a base governista a correr atrás do prejuízo.
A estratégia não é nova. Alcolumbre já usou o mesmo roteiro em 2023, quando segurou dezenas de indicações para o serviço diplomático e para tribunais superiores até o governo acelerar a liberação de recursos. Deu certo. Repetiu em 2024 com indicações para o STJ. Também funcionou. Agora, com uma vaga no STF em jogo – e a possibilidade real de ser o primeiro presidente do Senado em décadas a derrubar um indicado do presidente da República –, o preço da “paz” subiu proporcionalmente.
Até onde ele vai? Depende exclusivamente do quanto Lula estiver disposto a ceder. Se o Planalto abrir o cofre das emendas e oferecer mais postos de confiança (inclusive em pastas que o União Brasil ainda não domina), a “guerra” termina antes da sabatina e Messias será aprovado com discurso de “institucionalidade” na boca do próprio Alcolumbre. Caso contrário, o senador está disposto a ir até o fim: rejeitar o nome na CCJ e forçar uma votação humilhante no plenário do Senado, mesmo sabendo que o gesto criará um precedente perigoso para o próprio sistema de indicação de ministros do STF.
Em resumo: não é briga por princípios. É uma negociação de balcão, com ameaça de queima de arquivo político. E, como sempre no Congresso brasileiro atual, quem paga mais leva – ou, pelo menos, evita levar um tiro no pé em plena sessão televisionada.