CRIME ORGANIZADO

Magno Malta usa CPI para sugerir modelo autoritário de Bukele

Senador bolsonarista exalta sistema desumano implantado pelo protoditador de El Salvador, que virou febre na extrema direita brasileira

Escrito en POLÍTICA el

O senador Magno Malta (PL-ES) apresentou dois requerimentos na CPI do Crime Organizado que, na prática, transformam a comissão em palco de exaltação ao regime autoritário de Nayib Bukele, presidente de El Salvador. Em um dos pedidos, o bolsonarista solicita que o próprio Bukele seja convidado a “compartilhar ações e estratégias”. No outro, requer que a CPI realize uma diligência internacional ao país para conhecer “in loco” as medidas do governo.

Nos requerimentos, Malta descreve o governo Bukele como um “caso notável de reversão drástica dos índices de criminalidade”. O senador cita a queda da taxa de homicídios e destaca a construção da megaprisão para 40 mil detentos, símbolo da política de “tolerância zero” do regime.

O que o parlamentar ignora são as graves denúncias de violações de direitos humanos. O presidente de El Salvador é apontado pela Human Rights Watch e pela Anistia Internacional como responsável por implantar um regime de exceção permanente. Desde 2022, o país vive sob suspensão de garantias constitucionais, com prisões em massa, torturas e mortes sob custódia. Mais de 78 mil pessoas foram presas sem devido processo legal, levando a ONU a classificar a política como “um colapso do Estado de Direito”.

Apesar disso, Bukele virou ídolo da extrema direita latino-americana e é frequentemente citado por Jair Bolsonaro e seus aliados. Malta, um dos principais expoentes religiosos do bolsonarismo, tenta agora legitimar essa admiração por meio da CPI, transformando o espaço de investigação parlamentar em vitrine ideológica.

A Comissão foi criada para apurar causas estruturais das facções, mas os pedidos de Malta desviam o foco do trabalho técnico. Ao propor a visita ao Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), prisão superlotada e denunciada por maus-tratos , o senador tenta importar para o debate um modelo de encarceramento em massa e militarismo, amplamente criticado por especialistas.

Magno Malta justifica seus pedidos como de “caráter técnico”, mas os termos do requerimento deixam claro o caráter ideológico da iniciativa. Ao afirmar que o “comparecimento de Bukele permitirá intercâmbio de informações”, o senador naturaliza um regime acusado de perseguir opositores e censurar a imprensa.

A fascinação da extrema direita por Bukele, ecoada por Malta, é menos sobre um projeto de segurança e mais sobre um ideal de controle social. O "modelo" salvadorenho, que anula o devido processo legal, representa o autoritarismo higienista que o bolsonarismo sonha em implantar no Brasil: um sistema baseado em prisões cheias, adversários silenciados e sufocamento da imprensa.

Os requerimentos ainda precisam ser aprovados pela CPI. Parlamentares de oposição já se articulam para barrar a proposta, argumentando que o Senado brasileiro não pode servir de plataforma para regimes autoritários. A tentativa de Malta revela, assim, a projeção de um ideal de governo que, sob o pretexto de combater o crime, normaliza a supressão de direitos fundamentais.

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