O Fórum Onze e Meia desta sexta-feira (7) recebeu o deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) para comentar sobre seu processo de cassação na Câmara dos Deputados, a chacina promovida pelo governo de Cláudio Castro (PL) na última semana e o lançamento de uma maratona de reuniões públicas pelo estado do Rio de Janeiro.
Glauber analisou as causas e consequências políticas do massacre que deixou 121 mortos nos Complexos da Penha e do Alemão no âmbito da Operação Contenção. O deputado destacou que as chacinas são repetidas por parte da direita ou da extrema-direita, mas que esse massacre trouxe um novo fator, que é a "consolidação de uma prática política que é o novo mote de aglutinação da extrema direita".
"A extrema-direita sempre tem um hiato de tomada de decisão de qual vai ser o novo elemento de aglutinação das suas forças. Cloroquina, anistia e por aí vai. Agora, é isso que pode ser chamado de uma 'bukelização' da política brasileira, com uma ação de violência e de ataque às favelas. Essa vai ser a linha prioritária", afirma o deputado. "Nós temos que nos contrapor a isso. Nós temos que demonstrar que existem outras alternativas", acrescenta.
Glauber defende que, diante desse cenário, o campo progressista não pode ter receio de avançar sobre a pauta da Segurança Pública, principalmente porque as pesquisas de avaliação revelaram altos índices de aprovação da operação, principalmente por parte de moradores de comunidades. O deputado destaca que os resultados representam o "desespero" diante da situação de violência no Rio de Janeiro. "A emoção como um retrato de um desespero tem que ser avaliada e não pode ser por nós descartada", afirma Glauber.
Para o deputado, a esquerda precisa "introduzir outros elementos que façam a disputa política dessa realidade". Eu considero isso fundamental, porque o jogo perdido é aquele que a gente toma a decisão prévia de não entrar em campo para jogar."
"O fato é que parte significativa das forças de oposição ao Cláudio Castro fica com medo e preocupada de como se posicionar em relação a isso porque acha que, a depender do que fizerem, vão ter uma rejeição popular à sua posição. Eu acho que esse é um erro, nós temos que nos posicionar. Nós temos que dizer que se tratou de uma chacina. Mais do que isso, nós temos que demonstrar que aquilo não é solução para absolutamente nada. Que a matança que está sendo realizada por eles só amplia os índices de violência e não diminui em nada os riscos que a população do estado do Rio de Janeiro está vivenciando", declara o deputado.
Glauber diz que quando essas atitudes são tomadas, a esquerda tem mais chances de ser ouvida, mesmo que num primeiro momento a população discorde de seus posicionamentos. "Num primeiro momento, podem discordar da nossa afirmação, mas elas vão tentar ou vão querer entender a mensagem subsequente, o que a gente vai dizer logo depois. Se a gente se tira do campo de disputa política e diz: 'não vou me posicionar sobre isso, porque o que vai acontecer é que eu vou ampliar a minha rejeição', isso não acontece. O que vai acontecer é que vai ampliar a rejeição do mesmo jeito e eles vão avançar", afirma o deputado.
Processos de cassação
Glauber também falou sobre seu processo de cassação e os motivos que levaram à paralisação da sua tramitação na Câmara dos Deputados. "Ele está apto a ser apreciado pelo plenário, mas a minha avaliação é que vai ficar até o final do mandato sem isso acontecer. É claro que a gente está acompanhando com atenção qualquer nova movimentação que possa surgir", explica o deputado.
Para Glauber, três fatores explicam essa paralisação do processo. O primeiro, a solidariedade. "O grau de repercussão que gerou fez com que eles tivessem que calcular o custo político de uma cassação que eles imaginavam ser uma cassação sumária, uma cassação rápida, passar rapidamente no Conselho de Ética, rapidamente na Comissão de Constituição e Justiça e no plenário."
Em segundo lugar está a diferença tática entre Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente da Câmara, e Hugo Motta (Republicanos-PB). "O Arthur Lira queria a cassação a qualquer custo. O Hugo Motta é da Paraíba, o estado onde Bolsonaro perdeu em todos os municípios. Isso exerce peso sobre a decisão dele também de colocar a matéria em votação no plenário", afirma Glauber.
O terceiro fator é a conjuntura política. "Como eles vão justificar cassar um mandato parlamentar de quem defendeu a honra da mãe, denunciou o orçamento secreto e bateu de frente com Arthur Lira, enquanto blindam Eduardo Bolsonaro, que está conspirando contra o nosso país e incentivando uma intervenção externa no Brasil? Como é que eles fazem isso? Não cassando a Carla Zambelli, que está nesse momento já condenada e presa no exterior, presa na Itália. Como é que eles fazem essa cassação? Mantendo uma punição branda até demais ou nenhuma punição àqueles que sequestraram a mesa diretora da Câmara em articulação com o próprio Eduardo Bolsonaro?", questiona Glauber.
"Como é que eles me cassam e não retiram os direitos políticos do Chiquinho Brazão, que é acusado de ser o mandante do assassinato de Marielle? Como é que eles me cassam e diminuem uma suspensão do Gilvan da Federal, que é reincidente em violência política de gênero e falou o que falou da ministra Gleisi Hoffmann? Como é que eles me cassam e aprovam uma blindagem pro Gustavo Gayer, depois de tudo aquilo que esse sujeito fez e falou. Como eles me cassam e dão uma blindagem para o [Alexandre] Ramagem que participou de uma tentativa de golpe de Estado e grampeou meio mundo, inclusive um monte de deputado federal?", acrescenta o deputado.
"Acho que esses três fatores, essas três circunstâncias, levaram a que a cassação não se operasse, que eles não colocassem em votação", aponta Glauber. "Mas, na minha avaliação, o principal foi a aposta política por uma mobilização."
Maratona de reuniões públicas no Rio
Glauber também falou sobre a sua maratona de reuniões públicas pelo estado do Rio de Janeiro, que tem início nesta sexta-feira (7). Ao todo, o deputado realizará cem reuniões públicas nos 92 municípios do estado. Ele explica que esse processo vai ser dividido em três etapas.
Durante os encontros, Glauber vai discutir, com as comunidades, um programa para o estado do Rio de Janeiro. "Discutindo temas, propostas e colocando essas propostas em votação. Se ela for aprovada em sete plenárias, é incorporada como um ponto para o programa de governo", afirma o deputado.
Em segundo lugar, os encontros também discutirão a conjuntura nacional e as tarefas do mandato do deputado de maneira consultiva para que as pessoas também possam se aprofundar em relação a determinados temas e ajudar na orientação de como Glauber deve se posicionar em relação aos assuntos discutidos.
Já a terceira etapa consiste na votação que vai decidir se Glauber deve ser pré-candidato à reeleição como deputado federal ou pré-candidato ao governo do estado do Rio de Janeiro.
"Tem um espaço político muito vazio no Rio de Janeiro em relação ao governo estadual. Mesmo sem ter me colocado como pré-candidato, apareci em segundo lugar na pesquisa Gerp", afirma Glauber. "O Eduardo Paes está numa dianteira grande, com muita diferença, 39% dos votos, mas apareci em segundo à frente de medalhões da política do Rio de Janeiro, figuras muito conhecidas como Garotinho, Witzel, o prefeito de Belford Roxo, o Márcio Canela, o presidente da Assembleia Legislativa, que está com uma máquina tremenda e que até então era o candidato do Cláudio Castro."
Confira a entrevista completa do deputado Glauber Braga ao Fórum Onze e Meia
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