SISTEMA FINANCEIRO

Ronaldo Bento: quem é o policial, ex-ministro de Bolsonaro, que virou diretor no grupo Master

Agente da PF e tenente do exército, Bento migrou para o setor financeiro e se associou ao grupo de Daniel Vorcaro, do banco Master, após turbinar crédito consignado no Auxílio Brasil durante o governo Bolsonaro.

Ronaldo Bento e Jair Bolsonaro.Créditos: Valter Campanato/Agência Brasil
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O nome de Ronaldo Vieira Bento voltou ao noticiário como mais um ex-ministro de Jair Bolsonaro envolvido em polêmicas. Mas, antes de aparecer na administração da Mettacard e na diretoria do Banco Pleno, peças do universo do Banco Master, ele construiu a imagem de quadro técnico discreto, com trânsito em áreas sensíveis do Estado.

ENTENDA: 
EXCLUSIVO: Ex-ministro de Bolsonaro virou diretor de braço do Master e atuou em crédito consignado

Baiano de Salvador, 45 anos, casado e pai de três filhos, Bento é mestre em Direito, agente da Polícia Federal e 1º tenente da reserva do Exército. Servidor de carreira do Executivo desde 2005, atuou como coordenador do Conselho Estadual de Segurança Pública Portuária, integrou o Conselho de Transparência Pública e Combate à Corrupção e chefiou a Ouvidoria-Geral do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

O currículo, exibido em perfis oficiais e em sites de entidades de classe, ajudou a projetá-lo para o comando de uma das principais vitrines sociais do governo Bolsonaro: o Ministério da Cidadania.

Do gabinete de Roma ao comando da Cidadania

No governo Bolsonaro, Bento ocupou primeiro a Assessoria Especial de Assuntos Estratégicos do Ministério da Cidadania, então chefiado por João Roma (PL-BA). Era o homem de confiança responsável por articular políticas prioritárias do Planalto na área social, em especial o desenho do Auxílio Brasil.

Quando decidiu deixar o cargo para disputar o governo da Bahia, Roma anunciou publicamente seu substituto. “O nome do meu substituto será o Ronaldo Vieira Bento, que é o atual secretário de Assuntos Estratégicos do Ministério da Cidadania”, disse em entrevista em 27 de março de 2022, declaração reproduzida em portais como Metropoles e veículos baianos.  A escolha foi chancelada por Jair Bolsonaro.

Naquele momento, o Auxílio Brasil passava por uma nova rodada de mudanças no Congresso. O próprio Roma, na condição de relator de medidas provisórias, fez ajustes no texto para permitir que o benefício complementar integrasse o conjunto de benefícios da Lei 14.284/21. Em parecer registrado em publicações da Câmara e repercutido pela imprensa, ele explicitou o objetivo: aumentar o valor de empréstimo que beneficiários poderiam obter dando como garantia os valores a receber em crédito consignado, possibilitado pela MP 1106/22. :contentReference[oaicite:14]{index=14}

Ao mesmo tempo, o deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) apresentou emenda que tornou permanente o benefício extraordinário do Auxílio Brasil, consolidando o piso de R$ 400. A emenda foi acolhida por Roma e aprovada pelo plenário, como registram notas oficiais da Câmara e do próprio parlamentar. :contentReference[oaicite:15]{index=15}

Ou seja: antes de assumir a Cidadania, Bento já estava no centro de um desenho legislativo que ampliou a base de cálculo e o potencial de endividamento de famílias pobres e beneficiários de programas sociais por meio do consignado.

O ministro do Auxílio e do consignado

Como ministro da Cidadania, Bento herdou a missão de implantar o Auxílio Brasil reforçado e as novas regras de crédito. Entre as medidas implementadas pela pasta, está a portaria que regulamentou a oferta de empréstimos consignados a beneficiários do programa, decisão que provocou forte reação de órgãos de controle, entidades sociais e de parte do sistema financeiro, como noticiado à época pela própria Revista Fórum e por veículos como a Agência Câmara.

Auditoria posterior da CGU apontou que 93% dos contratos de consignado do Auxílio Brasil foram firmados em outubro de 2022, entre o 1º e o 2º turno da eleição presidencial, e identificou cerca de R$ 8 milhões em descontos indevidos sobre benefícios, com impacto estimado em mais de 56 mil famílias. O órgão encaminhou o caso ao Tribunal Superior Eleitoral para análise de eventual uso político da política pública.

A CGU não individualiza a culpa em uma única autoridade, mas identifica que a combinação de legislação aprovada no Congresso sob relatoria de Roma, emenda de Hugo Motta e regulamentação do ministério na gestão de Bento criou um ambiente em que bancos e financeiras passaram a explorar de forma agressiva uma população extremamente vulnerável em plena campanha eleitoral.

Filiação ao Republicanos e salto para o setor financeiro

Depois de deixar o ministério, em janeiro de 2023, Bento foi incluído na lista de ex-ministros que permaneceriam em quarentena remunerada, recebendo salários da União por até seis meses, situação criticada em reportagens da Fórum. Pouco tempo depois, filiou-se ao Republicanos, partido do governador paulista Tarcísio de Freitas e que viria a comandar a Câmara com Hugo Motta. :contentReference[oaicite:18]{index=18}

Paralelamente, ele abriu a empresa Meta Consultoria e começou a se aproximar de grupos empresariais do setor financeiro. Em 2024, documentos da Junta Comercial e bases públicas passaram a registrar seu nome como administrador da Mettacard, empresa de cartão de benefício consignado cuja marca é licenciada ao Banco Master. No ano seguinte, registros junto à Receita e à própria B3 identificam Bento como diretor da NK 031 Empreendimentos e Participações e do Banco Pleno S.A., instituição resultante da reestruturação do antigo Banco Voiter dentro do grupo Master. 

Ao mesmo tempo, decisões da Justiça Federal e operações da Polícia Federal no âmbito da Compliance Zero apontavam suspeitas de fraudes bilionárias em operações que envolviam o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB), com potencial prejuízo superior a R$ 10 bilhões, segundo decisões citadas em reportagens da imprensa. Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master por problemas de liquidez e situação econômico-financeira, enquanto o Banco Pleno seguia operando como instituição “independente”. 

Do “técnico discreto” à peça de uma engrenagem maior

O percurso de Ronaldo Vieira Bento sintetiza uma faceta pouco discutida do bolsonarismo: a de quadros aparentemente técnicos que atuam na formulação de políticas públicas e, depois, migram para empresas diretamente beneficiadas por essas mesmas políticas.

No caso dele, o fio condutor passa por três etapas:

  • Etapa 1 – Desenho da política: como braço direito de João Roma e depois ministro, Bento acompanha e executa mudanças legais e regulamentares que ampliam o espaço do consignado sobre o Auxílio Brasil, com participação de aliados como Hugo Motta.
  • Etapa 2 – Implementação e controvérsia: sob sua gestão, a Cidadania aplica essas regras em pleno período eleitoral, o que leva a CGU a apontar concentração de contratos e descontos irregulares e a remeter o caso ao TSE.
  • Etapa 3 – Retorno ao mercado: passado o governo, o ex-ministro se torna administrador de uma marca de cartão consignado licenciada ao Banco Master e diretor de um banco que herda parte dos ativos do conglomerado, em meio à maior crise da história do grupo.

Procurado pela Fórum para comentar sua trajetória, sua participação na regulamentação do consignado e seus cargos na Mettacard e no Banco Pleno, Ronaldo Vieira Bento não respondeu até o fechamento desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.

 

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