CIZÂNIA

Alianças oportunistas: ex-ministro critica filhos e sai em defesa de Michelle, que tem trunfo

Apoio público de Marcelo Queiroga à ex-primeira-dama demarca divisões e acirra a disputa por liderança na direita

Créditos: Reprodução de Vídeo
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Marcelo Queiroga, ex-ministro da Saúde de Jair Bolsonaro e um dos nomes mais associados ao fracasso da gestão da pandemia, decidiu entrar em campo para defender Michelle Bolsonaro em meio à disputa aberta entre a ex-primeira-dama e os enteados pelo controle político e simbólico do espólio do ex-presidente.

Nas redes, Queiroga descreveu Michelle como “firme, corajosa e guiada por princípios”, e reforçou que ela teria acompanhado o sofrimento de Bolsonaro de perto, atribuindo à ex-primeira-dama um papel central na manutenção da identidade bolsonarista. A manifestação, entretanto, chega no momento mais sensível da crise familiar que se instalou no PL.

A mais recente rachadura no clã se deu após Michelle criticar publicamente o acordo articulado por aliados do PL com Ciro Gomes no Ceará. O movimento, liderado por André Fernandes e avalizado pela direção partidária, pretendia ampliar o palanque de Eduardo Girão. No entanto, Michelle não seguiu a linha oficial e atacou tanto o ex-presidenciável quanto setores do próprio partido, irritando a cúpula e levando Valdemar da Costa Neto a convocar uma reunião para “colocar limites” na atuação da presidente do PL Mulher.

A resposta interna não tardou. Flávio Bolsonaro, em entrevista, classificou a postura da madrasta como autoritária, afirmando que ela desrespeitou uma articulação que teria contado com o aval do próprio Bolsonaro. Foi o suficiente para que Carlos e Eduardo reagissem em defesa do irmão, escancarando o desconforto — e a disputa por protagonismo — dentro do bolsonarismo.

O trunfo de Michelle 

Michelle, porém, não é uma figura periférica. Desde 2023 ela percorre o país de olho no voto feminino conservador, investindo em cursos, eventos religiosos e ações de mobilização. Construiu imagem, discurso e presença pública capazes de furar a bolha bolsonarista. Tornou-se, na prática, uma liderança própria. Pesquisas internas do PL mostram que seu nome tem potencial para disputar o Senado ou até compor chapa majoritária em 2026.

A força acumulada explica por que suas críticas a Ciro soaram mais como afirmação de autonomia do que como deslize estratégico. Para sua base, faz sentido rejeitar alianças com quem ataca Bolsonaro de forma recorrente. Para o PL e para os filhos do ex-presidente, no entanto, Michelle mexeu num terreno que eles sempre trataram como próprio.

A disputa que veio à tona no Ceará apenas evidencia o impasse. O partido tenta domá-la para preservar unidade. Os filhos tentam reafirmar liderança dentro do campo da direita. Michelle, por sua vez, já descobriu que tem capital para influenciar o jogo — e que não depende do aval dos enteados para tal.

A ex-primeira-dama sabe que, cedo ou tarde, o PL terá de decidir se quer enquadrá-la ou aproveitá-la. E o clã Bolsonaro, querendo ou não, terá de lidar com o fato de que o bolsonarismo tem uma nova protagonista.

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